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ISSN 1980-7767

ano 5
edição atual: número 27, setembro & outubro de 2010

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18/6/2008

A polêmica da arte e do ensino de desenho

Recentemente tive a oportunidade de conversar com uma classe de artistas conterrâneos, pessoas que não via há muito tempo e que tomaram rumos diferentes na vida. Porém todos vindos da mesma universidade de artes, uns graduados mais cedo outros mais tarde. Entre tantos papos o assunto principal virou uma polêmica. E para compartilhar esta polêmica resolvi redigir este pequeno texto. O fato é a discórdia no meio das artes entre a real necessidade de se ensinar/aprender desenho aos moldes acadêmicos em tempos de arte contemporânea.

O grupo de artistas se divide entre os que acreditam na necessidade de se ensinar os cânones e as técnicas tradicionais da arte e aqueles que não acreditam de forma alguma no valor desta prática na atualidade.

Os ditos artistas acadêmicos/figurativos defendem seu ponto de vista ao afirmar que o ensino do academicismo pode ajudar até como forma de proporcionar o enriquecimento cultural e o esclarecimento dos alunos. Trata-se, portanto de uma etapa de formação necessária, assim como o são: o estágio, o conhecimento de uma língua estrangeira, a utilização de algum equipamento vital para a profissão, etc. Segundo esses o ensino do desenho acadêmico poderia facilitar para que o aluno amadurecesse seu fazer artístico, através dos muitos exercícios técnico/teóricos da arte tradicional, pois acabariam por evoluir enquanto artistas e mais tarde optar conscientemente em se libertar de tais cânones sem grandes dificuldades, ou mesmo decidir por permanecer neles sabendo do que se trata e como tirar sua produção neste meio.

Do outro lado do combate estão também senhores produtores de arte, extraordinariamente capacitados e que bradam “o não ao academicismo”. Afinal, segundo eles não é necessário de forma alguma impor ao estudante que se aprenda a criar imagens antiquadas, isso significaria um retrocesso desnecessário e uma exigência rigorosa demais. Obedecer a rígidas normas e regras de criação poderia frustrar e impedir o fluir da criatividade, sendo ainda que o momento atual é de um público livre e esclarecido, acostumado a grafismos e trabalhos artísticos não-acadêmicos. E ainda, para criar arte contemporânea e propostas inovadoras, saber desenhar como se vê, saber reproduzir literalmente o mundo a sua volta, não faz o menor sentido. Ademais, há tempos existe a máquina fotográfica. Portanto relegar ao papel do artista um ofício muito bem executado por uma máquina é no mínimo desumano.

Bem, nessas e outras reflexões venho me metendo, sem nunca tomar partido. E percebo que grandes universidades nacionais podem estar usando desse segundo discurso, o da libertação proporcionada pela contemporaneidade, para encobrir suas falhas enquanto instituições de ensino de artes. A meu ver uma instituição de arte, deveria no mínimo ser imparcial nestas questões, ali é o local da concentração do saber. E todos os saberes deveriam ser promovidos, ou ao menos respeitados e indicados como opções de caminhos a serem seguidos pelos alunos. Acredito seriamente que cabe ao aluno se decidir por qual vertente da arte deverá abraçar. E penso até que esse “abraço” pode ir e voltar, nada precisa ser eterno. Todas as artes vivem e são válidas. E sempre digo: “estamos em uma época maravilhosa em que o novo convive com o velho e vise versa, não há que se matar a pintura e não há que se abolir esse ou aquele tipo de desenho da sala de aula. Por que não podemos ver tudo?” E sigo assim, sem me posicionar, porque para mim nenhuma arte morreu, nenhum estilo é melhor que outro, nenhuma escola contribuiu mais para a cultura da humanidade do qualquer outra. E para minha surpresa, me deparei com um ótimo texto, de Antonio Henrique Amaral, publicado no Estado de São Paulo, página D6, 24 de setembro de 1995. O que ele defende é exatamente o que eu defendo, apenas com muito mais profundidade e beleza na escrita. Somos, eu e o Sr. Antonio, a favor da arte, seja ela qual for. Por isso transcrevo uma parte de sua matéria:

“Não acredito em ‘hegemonias’ e muito menos que se possam ‘recolocar as coisas no lugar’ porque as ‘coisas’ e o artista estão sempre mudando de lugar. Como diz Anthony Storr, ‘o único dogma aceitável é o de que todos os dogmas são suspeitos’.

Princípios estéticos, dogmas religiosos ou políticos sempre deságuam em atitudes sectárias e trágicos componentes autoritários: pretensiosas afirmações de que isto é vanguarda e aquilo é passado, de que é por aqui e não por ali, todas essas ‘verdades’ se desmancham como incertas e frágeis. Somos testemunhas neste século de como são passageiras as verdades éticas, estéticas e políticas que se proclamam lógicas e irrefutáveis.

No mundo das artes os sistemas conceituais de vanguarda são sistematicamente desmontados pelo imprevisível, contraditório e complexo comportamento humano. As vanguardas pós-modernistas estão sempre decretando a morte da pintura que é o cadáver que mais vive e se mexe que conheço. Os dois tempos conflitantes se encontram, desencontram e a pintura continua.

Sobre a discutível ‘supremacia da arte minimalista e abstrata’ e uma possível volta da figura não acredito que a pintura figurativa está voltando porque nunca me ocorreu que ela tivesse ido embora e só agora estivesse voltando… Como nunca engoli ‘supremacias’ de quaisquer tendências. O minimalismo e o abstracionismo são correntes da maior importância mas no meu entender, nunca foram ‘supremas’ porque nenhuma tendência o é. O pintor Francis Bacon detestava a arte abstrata que acusava de decorativa, inconseqüente e instrumento de mistificação, apenas para citar a opinião de um grande artista.

Respeito e amo a obra de muitos artistas abstratos mas se não acredito no ‘progresso’ da arte como posso acreditar em ‘supremacias’ e ‘hegemonias’? Não são elas que geram dogmáticas teorias excludentes, inquisições, fundamentalismos, intolerâncias e racismos? Minimalistas, abstratos e conceituais enriqueceram o acervo artístico da humanidade mas não excluem outras vertentes do trabalho artístico.

O absurdo, a fantasia, o desejo e o animal se misturam no homem de maneira muito mais complicada do que suspeitam intelectuais portadores do perigoso vírus do raciocínio lógico. A arte é feita sempre com as mãos, os corações e as mentes em poética intimidade. Os caminhos da arte são traçados pelos artistas e não por revistas especializadas ou Bienais. O mundo a nossa volta ‘parece’ apenas que anda muito depressa mas lá dentro da gente o tempo é bem outro. Há muito mais confusão, mistério e alternativas do que nos fazem crer os sacerdotes do Pós-Modernismo e de outros ismos recentes…”

E para acalentar meus ânimos, eis que não sou a única a duvidar de dogmas e verdades irrefutáveis. Por sorte encontrei inúmeros outros estudiosos de arte, que também vivem seu momento de recolhimento enquanto produtores de arte temendo as tais hegemonias. E muitos deles acreditam que o fato de não terem aprendido mais na universidade (a arte acadêmica) não conseguiram aprender a desenhar como gostariam, e “talvez” por isso vivam um momento de auto-análise e estudo longo, que talvez esteja durando mais do que desejassem.

Entretanto vários são os exemplos de pessoas que se tornam artistas negligenciando o papel do desenho, não vou citar nomes. Pois bem, embora não seja uma arte maior, o desenho é antes de tudo uma ferramenta de trabalho, como a escrita para um escritor. O que se espera de um artista, seja ele pintor, designer, ilustrador, programador visual, se a língua mãe de seu ofício ele não sabe executar como deveria?

Esta polêmica do desenho/arte vai longe e não termina aqui. Porém me tranqüiliza saber que o figurativo, aquela arte que retrata a realidade, onde se pode ver e reconhecer com facilidade o que está sendo tratado, está voltando, ou como disse o Sr. Antônio, nunca foi embora, assim como a pintura nunca morreu.

Por fim, me posiciono: “acredito na arte figurativa, na necessidade do aprendizado do academicismo/figurativo/realista, na fusão entre arte e tecnologia, na praticidade da técnica e na beleza”,  por isso admiro o trabalho de um William Whitaker, exímio retratista que vende obras a mais de doze mil dólares. E dos artistas conceituais, da arte digital, da indústria do cinema, da HQ e do videogame como a equipe de artistas conceituais de Massive Black. Só para citar alguns.

Visite estes trabalhos e reflita: eles estudaram desenho acadêmico ou não? E são contemporâneos? Suas respostas provarão que o novo convive com o velho e que mesmo sabendo o velho produzimos o novo. Os rótulos são o menor de nossos problemas. E viva o hoje!

 


Cristina Jacó é artista, designer e pesquisadora de artes visuais e tecnologias de produção de imagens.