Fui ao ensaio aberto do espetáculo “O que eu gostaria de dizer”, dirigido por Márcio Abreu e com Luis Melo, Bianca Ramoneda e Márcio Vito no elenco. Por se tratar de um ensaio, poderia haver interrupções por qualquer motivo, principalmente para a adaptação dos movimentos dos atores num espaço diferente, como é o caso do Sesc Arena, em Copacabana.
Contudo, não houve interrupções, de modo que a peça fluiu normalmente, com o cenário, acredito eu, pronto, assim como o figurino, sonoplastia e iluminação. Tudo, aparentemente, correu como num dia normal de apresentação. Bom para os atores, melhor pra mim e para os demais expectadores, que não eram muitos, mas considerando-se a ocasião, era de bom tamanho.
Vamos ao cenário: três ambientes delimitados por armações de metal, sendo um deles a sala de estar do personagem 1, representado pelo ator Luis Melo; e os outros dois espaços, cômodos do apartamento de um casal de vizinhos, representado por Bianca Ramoneda e Márcio Vito.
A peça: Como pontapé inicial, vemos o personagem de Luis Melo, que vale ressaltar está super diferente fisicamente: parece ter engordado alguns quilos para fazer o papel, além de ter deixado a barba crescer. Irreconhecível! Voltando ao pontapé inicial… A peça tem início com a seguinte frase: “No silêncio podem estar todos os ruídos e isso não é bom”, dita pelo personagem de Luis Melo. A partir daí, o espetáculo se desenvolve mostrando o drama do casal de vizinhos, que gira em torno de seus problemas conjugais, discussões sobre o relacionamento e sobre a falta de comunicação.
Intercalando-se a esse quadro, o vizinho, personagem de Luis Melo, levanta questionamentos filosóficos acerca do silêncio, da solidão, dos desejos e relacionamentos humanos. Frequentemente retoma a frase inicial do espetáculo: “No silêncio podem estar todos os ruídos e isso não é bom”. Com uma belíssima atuação, além da aparência física, que muito contribuiu para a caracterização do personagem, o ator representa um homem de mais idade, muito solitário e reflexivo, de aspecto bagunçado, como quem está largado no mundo, e triste, talvez sem perspectivas.
O que eu gostaria de dizer é que, de acordo com a sinopse, a proposta do espetáculo seria “investigar o tema da fragilidade a partir de textos criados pelo próprio grupo e também de poemas de Gonçalo M. Tavares, extraídos do livro O homem ou é tonto ou é mulher.” Bom, a questão da fragilidade humana, no que diz respeito aos dramas pessoais, afetividade, solidão e etc. foi levantada, e estava tanto incorporada ao discurso filosófico do velho solitário, como na discussão dos vizinhos. O que me fez falta foi a poesia de Gonçalo M. Tavares. Ok, ele não estava completamente ausente. Em dado momento, no meio da briga do casal, surge uma poesia:
“Tenho flores a sair da porta dos armários e nunca tive um armário na minha vida.
Isto, claro, é muito estranho.
O normal seria eu ter um armário e não ter flores a sair dele.
Mas a verdade é que é tudo ao contrário.
Tenho flores a sair da porta de um armário que nunca tive.”
Mas não basta brotar uma poesia no meio de mil palavras. Ela tem que ser explorada e se integrar ao contexto de uma forma mais profunda, de modo que seu sentido seja incorporado aos discursos. O que quero dizer é que a emoção da poesia não contagiou os diálogos. Quando se recita uma poesia como quem dita uma lista de supermercado no meio de uma discussão, ela se perde, fica solta, não atinge quem a ouve. Além disso, na seqüência da poesia, acontecia um diálogo espirituoso, o que abafava ainda mais Gonçalo M. Tavares.
O modo como a discussão sobre o relacionamento conjugal foi conduzido acabou ficando entre Batalha de arroz num ringue para dois e a poesia de Gonçalo M. Tavares. Ou seja, ficou num entrelugar, num espaço indefinido, o que me fez sentir como se estivesse parada no meio de uma ponte, sem saber para onde andar. Aliás, uma das falas da personagem de Bianca Ramoneda menciona uma ponte que foi construída, mas que não chegou a lugar nenhum. No caso, ela relaciona a ponte com o casamento mal sucedido. Bem, eu não seria tão radical a ponto de dizer que a peça não levou a lugar nenhum. O que posso dizer é que o lugar em que a peça poderia chegar estava lá, apenas faltaram algumas tábuas.
Faltou também uma integração entre o casal de vizinhos e o velho solitário. Em que medida o discurso do casal tem ligação com as reflexões do velho? Enquanto um casamento se rompe, um velho lamenta a solidão. Até aí, tudo bem. Há uma ligação, mas ela não vai além disso, não se aprofunda. Acho até que poderíamos desmembrar a peça em duas: uma do velho e outra do casal. A primeira mais reflexiva, a segunda mais comédia.
De um modo geral, a idéia é muito boa, a sinopse chama nossa atenção. A composição do personagem de Luis Melo foi perfeita, e sua atuação, primorosa! Uma voz potente que preenchia os espaços do teatro e oferecia verdade e dramaticidade às indagações filosóficas levantadas no decorrer do espetáculo.
O que eu gostaria de dizer
19/6 a 3/8
5a a sábado, 21h
domingos, 19h30
[12 anos]
Espaço Sesc
Informações: (21) 2548-1088 ramais 228, 255 e 229
Rua Domingos Ferreira, 160
Copacabana, Rio de Janeiro/RJ