Fabiano Gonper
Há uma pegadinha na exposição de Fabiano Gonper na Baró Cruz. Ele desenha contornos sem recheio. Quem freqüenta exposições já conhece os fios que nos guiam, invisíveis, em trilhas já trilhadas. Então eu pensei: bem, sim, contornos. O recheio seremos nós, que lá ficaremos, de frente para os contornos, vendo, na superfície da imagem, nossa imagem refletida.
Não.
Gonper brinca conosco. Sua superfície não o é. Trama fina de nylon, furadinha, eis que nada ali se reflete, nada, nadinha. No retângulo branco da Baró Cruz, a porta e os ruídos ficam todos para trás. As narrativas que nos esperam estão esvaziadas, truncadas, umas sobre as outras, sua junção de tempo e espaço sendo como um registro vetorial (a ser mudado com facilidade). E são mudas. A exposição é um silêncio, as imagens não esperam um diálogo. Já desistiram de há muito.
Nessa desistência, crescem. Se ofertam de outro jeito, como um índice de ações corriqueiras e nem ações, estados. Um índice. Morto, emblemático – até que dele lancemos mão. Mão. Há muitas mãos. As desenhadas, a que as desenhou, pois o traço é grosso, pilô?, e as dimensões, grandes. Então a mão que desenha está lá no caminho longo, milímitro por milímetro dá para seguir junto, o desenho outra vez, agora feito pelo olho.
Ligeiramente surreal, se a referência é antiga, ultrapassada, pois surreal virou real em algum ponto que ninguém lembra qual. É assim, hoje, sentamos em algum ônibus – como em uma das obras maiores – e em nossa volta o tudo rápido que está sempre em nossa volta, incluindo os pedaços de desenho riscados, rejeitados, não, isso não, isso é melhor não ter.
Mas, mesmo assim, na fragmentação, e isso é um ponto para o artista, a presença das políticas de gênero, de identidade. Sim, diz (não diz) ele: é assim desse jeito tênue e rápido, mas, olhe, é importante, há coisas, preste atenção, que são importantes. E, continua (não continua) ele: não descarte a banalidade, é aí que mora a vida. Pênis e armas e os auto-erotismos, os explícitos e os não, que aqui explicito, o acompanhar, por exemplo, milímetro a milímetro, na carícia de um traço já feito e que fez, antes de nós, também uma carícia, essa no nylon macio. As meninas que se viram de costas para uma janela que nada tem a lhes dar. Os vultos que passam, em câmera lenta, frente à objetiva que também se move, mas pouco, um atrito casual – os melhores.
São em PB, as obras. Nessa linguagem que foi a que nos sobrou, depois que a publicidade nos roubou a possibilidade da cor. E aí, no PB usado pelos documentaristas porque, hoje, o “real” nele se abriga, é que Gonper nos lembra de um esgarçar planetário, um ritual executado em total silêncio e que antecede o nada.
Há um texto que acompanha a exposição. É do curador e artista Divino Sobral. Também poeta, e bom. É dele uma das falas para as quais damos as costas ao entrar. É o último ruído que a exposição cala.
Fica o eco:
No ato mesmo de desenhar,
A fome do papel devora o lápis,
E o desenhista devora imagens.]
Desenho vazio.
Sobra a sillhueta,
Contorno no silencioso e inquieto branco,
Sombra ao avesso.
O desenho devolve a visão àquele que olha.
E o lugar de onde se vê.
É tudo aquilo que vejo e que me vê.
Ainda que replicado, desautorizado,
Pela segunda vez gerado,
Reporta às ações do ver.
O desenho é manipulação.
O desenhista e manipulador.
O olhar é manipulador.
A imagem é manipulada e manipuladora.
A imagem sobreposta em camadas,
Acumulada na memória,
Apagada,
Resurge espectral nas paredes brancas da caverna,
Ampliada,
Revivida.
E o artista,
Sentado, observa
A imagem manipular.
No ato mesmo de desenhar
A fome do papel devora o lápis.
Erótico,
Ato gozoso. Pincel e pênis
Parte da mão. Calor do corpo
Desejo calado,
No tecido tatuado como pele.
Do leite vital derramado na superfície,
Nascem figuras
Que vêem,
Ainda que sem olhos.
No ato mesmo de desenhar,
A fome do papel devora o lápis.
A angústia transpira pelos poros do tecido,
Do papel e do corpo.
O olho vê o vazio,
O preenche,
O povoa.
No ato mesmo de desenhar,
A fome do papel devora o lápis.
A fome do desenho devora o desenhista.
Divino Sobral
Maio 2008
Elvira Vigna é escritora e crítica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Nada a dizer", 2010, Companhia das Letras.




































