NAVE – Núcleo Avançado em Educação
Antes de iniciar o assunto em si, quero esclarecer um ponto. Isso não é uma crítica. É uma tentativa de diálogo para esclarecimento. Uma proposta de análise, surgida de minhas leituras sobre o projeto NAVE, inaugurado em 27 de maio último, no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro.
Segundo as notícias sobre a proposta, o NAVE – Núcleo Avançado em Educação, que nasceu de uma parceria entre a empresa de telecomunicações Oi, através da Oi Futuro, instituto de responsabilidade social da Oi e o Governo do Estado do Rio de Janeiro, através de sua Secretaria de Estado de Educação e de Cultura, é um projeto arrojado de escola, para Ensino Médio, que alia educação e recursos tecnológicos digitais.
O projeto, instalado no Colégio Estadual José Leite Lopes, deverá funcionar proporcionando aos alunos atividades em tempo integral e pretende atender cerca de 600 alunos, iniciando o ano letivo de 2008 com a oferta de 178 vagas. A idéia principal, divulgada pelos responsáveis, é ser uma escola pública de qualidade educacional, somada a um centro de pesquisas e inovações, no campo de soluções para o ensino, sendo, ainda um espaço para exposições e seminários, aberto à comunidade.
Há, ainda, um espaço chamado de “Usina de Expressão”, que pretende ser o “local de integração” entre a escola e o mundo exterior à escola, ou seja, um espaço destinado à comunidade, onde deverá haver eventos, debates, exposições.
Além das aulas do currículo normal do MEC, estão programadas propostas de atividades e trabalhos com conteúdos do universo digital. De programação de games, passando por roteiros para mídias digitais e geração multimídia, até TV Digital, as disciplinas propostas pretendem construir o que já é chamado de “Fábrica de Cultura Digital”. O objetivo principal, segundo os release divulgados à imprensa, é ser um centro de formação profissional de jovens para as chamadas “novas profissões”, com programadores, designers e gestores para a TV digital. A meta, declarada é “[...] prepará-los [os alunos] para que, no futuro, possam ter facilidade para exercer profissões como, por exemplo, roteirista, programador, designer e gestor, para atuar em TV digital, internet, celular e jogos eletrônicos – e em outras atividades que ainda nem existem, mas que, com certeza, existirão”.
Bom, tudo isso que digo ai acima é com base em informações disponíveis nos veículos de comunicação. O ponto que mais me chama a atenção é um em especial: Como isso será feito?
Não o “como” material, pois ao que me parece (não conheci o espaço pessoalmente, ainda, só vi o que foi divulgado à imprensa) já está devidamente viabilizado. Equipamentos e máquinas, bem como espaços físicos já estão devidamente preparados e prontos para desenvolver a proposta que, no papel, é realmente excelente. O que me intriga é o “como” pedagógico metodológico! O que pergunto é, por que, em todas as matérias e notícias que li, em nenhuma delas, as metodologias de trabalho educativo não estavam explícitas, declaradas? Quais as bases pedagógicas da proposta?
É fato, infelizmente, que a maioria das escolas públicas carecem de recursos de todo tipo, inclusive de equipamentos e tecnologias. Mas carecem também de metodologias adequadas aos “novos tempos”, não só de “novas tecnologias” que, na verdade, nem tão novas são assim… O que é anunciado como “iniciativa pioneira de parceria público-privada na Educação servirá como projeto-piloto para a Seeduc” é bastante interessante, sim, no sentido de busca de soluções para a educação. Envolver a iniciativa privada em projetos pedagógicos e educacionais é ótimo e realmente deve ser “copiado” por qualquer governo que tenha realmente intenção de buscar soluções para os problemas da educação. Acredito que isso é extremamente louvável, mas continuo “encafifada” com a parte pedagógica da “coisa”… A proposta acredita que equipar a escola é a solução para os problemas da educação?
Uma das matérias que li diz que o NAVE “desenvolverá metodologias de aprendizagem baseadas nas tecnologias de informação e comunicação, de forma a contribuir para a inserção dos jovens no cenário atual da evolução tecnológica”. Ok, pergunto: Como? Desenvolverá ainda? Não há nenhuma base para o trabalho? Nenhum projeto pedagógico? Se há, qual é?
Noutra reportagem, pude ler que a proposta é de “fazer com que os jovens pensem de forma diferente e tenham facilidade de atuar na área de novas tecnologias”. Pergunto, novamente: Como? Por mágica? Ou acreditam que a convivência com as máquinas, equipamentos e manipulação direta deles, por si só, é suficiente? Se acreditam que sim, que é suficiente, acreditam nisso por quê? Com base em quê? Não ficou claro isso pra mim.
Em uma outra reportagem, ainda, li que [...] “As novas soluções para educação presencial e a distância, desenvolvidas no centro de pesquisa, serão aplicadas na escola e difundidas para a rede de ensino na Usina de Expressão”, que é um dos espaços do projeto e que, segundo ainda as divulgações, “terá um amplo espaço com recursos multimídia e um auditório, serão promovidos seminários e exposições sobre tecnologia e educação, além de grupos de discussão”. Aqui, além do “como”, questiono o “o quê” será discutido?
Como pode haver “novas soluções para a educação” a serem aplicadas na escola com base em “espaços com recursos multimídia” e “grupos de discussão”? Que teorias pedagógicas embasam a proposta que o espaço influencia na aprendizagem? Aliás, é isso que acreditam? Se sim, de onde vem essa proposta? Ou é isso que será discutido nos “grupos de discussão”?
A própria secretária de estado de Educação do Rio de Janeiro, Tereza Porto, declarou que “A secretaria tem muito interesse em investirem projetos pedagógicos que levem tecnologia para a educação”. Ah, sim… Por quê? Qual a justificativa metodológico-educacional para esse interesse? Não ficou claro pra mim…
A declaração da diretora de educação da Oi Futuro, Samara Werner, no lançamento da proposta, me pareceu, além de também vazia de “comos” e “porquês” educacionais, é de um romantismo exagerado, quando diz que “A educação de qualidade, contemporânea, inovadora, é capaz de transformar o Brasil que temos no Brasil que queremos. Inserir as novas tecnologias no contexto da escola é fundamental para o jovem atender ás demandas do século XXI”. Tirando o “romantismo” de lado, resta a mesma questão: Como? O que é, para a proposta, “qualidade” em educação? O que é educação contemporânea e inovadora? É oferecer espaços equipados, salas modernas? É o suficiente? A educação se faz por si mesma nesses espaços?
Surge aqui, nesta declaração, desta pessoa, um vislumbre de uma possível análise dos objetivos da proposta, quando cita o termo: Demandas do século XXI. Sim, sim… Quais são elas? Digo, as demandas educacionais, porque as de mercado são claras e fazem sentido se estivéssemos falando de empresas, não de escolas.
Onde, em que bases o projeto atende, ou pretende atender às demandas educacionais? Aliás, quais as demandas educacionais, e não de mercado, que o projeto pretende atender? Qual o perfil do aluno egresso que esta proposta formará?
Este trecho, também de uma reportagem, diz:
“O Nave contribuirá para a formação de jovens para atuar no mercado de tecnologia da informação, em expansão no Rio de Janeiro, principalmente com a chegada da TV digital. Com forte vocação para produção de softwares, o estado tem condições de aproveitar as oportunidades geradas por toda a cadeia produtiva relacionada às novas mídias: da programação de sistemas à criação de roteiro de programas e games. Para isso, será preciso contornar o déficit de mão-de-obra nesse segmento – o que demonstra que várias oportunidades surgirão para os jovens do projeto.
De acordo com estatísticas do Ministério da Ciência e Tecnologia, o Brasil tem uma carência de 17 mil profissionais no setor de tecnologia, que movimenta cerca de R$ 13 bilhões por ano no país. Se esse mercado não se estruturar para a qualificação profissional, 230 mil vagas não terão condições de ser preenchidas em 2012”.
Ah, sim, nesta, ao menos, está um pouco mais claro… Pareceu-me que a proposta pedagógica é ser uma escola profissionalizante, de ensino médio, que se propõem a formar profissionais para um mercado em expansão: TV Digital. Ok, mas qual a proposta pedagógica para a efetivação dessa formação? Enfim, “como” isso será feito? Onde tem-se acesso às essas informações?
E, sendo uma escola profissionalizante, que seguirá o que chamaram de “currículo normal do MEC” e que atenda a demanda de mercado, me vem outra questão: O que há de novo nisso, pedagogicamente falando?
Jurema Sampaio é Mestre em Artes Visuais, especialista em Ensino e Produção de Arte, licenciada em Arte-Educação, Desenho e Artes Plásticas (PUC-Campinas). Atualmente cursa Doutorado. Professora Universitária.







































