Notas. Atos. Gestos.
O livro Notas. Atos. Gestos. traz compositores do eixo Rio – São Paulo falando de modo peculiar sobre o processo composicional. Peculiar porque aborda tanto o que há de Dionisíaco quanto o que há de Apolíneo, o instinto e a razão, na criação musical, desmistificando a idéia do dom divino sem para tal precisar tocar no assunto. Sim, há o sopro das musas, mas também há o talento, a dedicação e zilhões de pequenas peças que se encaixam de maneira distinta até que se forme a música, essa engenhosa (curiosamente) matemática que interpretamos como arte.
O organizador Sílvio Ferraz reuniu textos – relatos composicionais – de Marisa Rezende, Denise Garcia, Rodolfo Caesar, Fernando Iazzetta, Marcos Lacerda e Rogério Costa, conseguindo manter a individualidade de estilos e a variabilidade do tema. Uma característica comum ao grupo? Todos são pesquisadores-educadores que trabalham em grandes universidades públicas, pensando a música além de seus critérios mercadológicos (que se mostram cada vez mais falidos e ultrapassados) e tendo a ética como norte de seus pensamentos.
Rogério Costa, por exemplo, aborda a arte do improviso. O subtítulo do texto fala por si só: na livre improvisação não se deve nada. Sua idéia é que a composição seja resultado de um fluxo vital musical produtivo estimulado pela criação de um lugar (espaço e tempo) que possa gerar os elementos necessários para essa fluidez. Mudando o foco do resultado para o processo, Rogério propõe a ação musical no lugar da exibição de obras primas. É um ponto para começar a leitura.
“Deve ficar evidente também que não se trata de composição de obras, pois nada se fixa e nada se repete. Também não se trata de exibição, pois o público – se houver – deve construir e criar junto com os performers. O público que acompanha uma performance de livre improvisação deve atuar como cúmplice (…) e compartilhar dos riscos que acompanham o processo”.
Já Marisa Rezende burila o pensamento por trás do tema. O que é composição?
“Compor significa, entre outras coisas, fazer escolhas (…) e poder fazer escolhas”. Como ela aponta, são duas estruturas semelhantes, mas com uma diferença básica de intenção entre elas. No primeiro caso, quem está em foco é o compositor no momento de compor, decidindo com que material irá trabalhar e que forma dará a esse material. Entram aí os códigos e o processo. O segundo caso, o do “poder fazer escolhas” traz para o centro do debate o compositor cidadão de algum tempo e lugar, que faz escolhas de alguma forma relacionada à sua condição tempo-espacial. Durante o texto, Marisa tratará do material escolhido para o pontapé inicial em uma composição – a linha melódica, talvez – e da importância do conhecimento para embasar o que temos de intuitivo. O interessante é fazer isso não só por referências, como também através de memórias.
A ênfase de Denise Garcia será a composição por metáforas, trabalhando a idéia de que as palavras criam imagens ou sensações chegando ao conceito de imagem sonora. Denise trabalha o tema de forma prática, usando metáforas e imagens postas em pé de igualdade com a teoria textual. É curioso perceber ao longo do relato que a proposta realmente funciona em sua exposição de partituras (e de seu alfabeto próprio), o que de certo modo se relaciona com a idéia de Silvio Ferraz e sua tatuagem musical, também muito visual, explorando os rascunhos escritos pelo compositor em seu período de formação.
“O propósito desse texto é uma visita a si mesmo. Talvez uma visita a outro si mesmo. Um si mesmo que não conheço mais, e que tem mais cara de um estranho do que de um mim mesmo”.
Você pode pensar: certo, mas o que há de componente visual composicional em um rascunho de uma composição além de sua quase metalinguagem? Há a inspiração. Silvio se remete a experimentações realizadas por ele entre 79 e 80 que tinham por imagem poética as poesias-imagens de Edgard Braga, especificamente Tatuagens e Algo, permitindo que o leitor conheça as imagens e acompanhe o desenvolvimento da idéia até a criação da peça final.
“Como transformar aquelas nuvens de sinais em música, isto tanto parecia difícil quanto óbvio. E a segunda opção aqui estava justamente em deixar de lado alguns dos eixos tradicionais do que se entende por música: as estruturas rítmicas estriadas e os jogos melódicos. Estavam ali no poema diversos sinais que poderiam converter-se facilmente em fonemas (…)”.
O livro traz ainda a abordagem tecnológica de Fernando Iazzetta relacionando composição e performance interativa; Rodolfo Caesar falando do frutífero território entre a teoria e a prática e Marcos Lacerda em um relato sobre etnomusicologia e o surgimento da música popular.
Notas. Atos. Gestos. tem um público certo: os iniciados em música, e que fique claro que não estou me referindo a quantidade de mp3 no seu iPod. Se você tem interesse no processo composicional, em seu aspecto mais tradicional ou na liberdade intrínseca do improviso seja por lazer, estudo ou por trabalho (inclusive como compositor-educador), você é o público alvo.
Notas. Atos. Gestos.
Editora 7 letras
Coleção Trinca-ferro
177 páginas
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.


















