A outra (The other Boleyn girl) é uma adaptação do romance de Philippa Gregory, com roteiro de Peter Morgan (O último rei da Escócia e A rainha) e direção de Justin Chadwick, estreante no mundo do cinema. Nos papéis principais estão Scarlett Johansson e Natalie Portman, certamente os principais atrativos do filme. Em linhas gerais, A outra conta a história de Maria Bolena e sua irmã Ana Bolena, a mulher que seduziu o Rei Henrique VIII e o levou a romper com o Papa, resultando na criação da Igreja Anglicana e no nascimento da Rainha Elizabeth I.
O filme é contado no ponto de vista da família Bolena, mas o verdadeiro motor da trama é o desejo do rei de ter um filho homem. Como a Rainha Catarina não consegue gerá-lo, Henrique VIII começa a pensar em arrumar uma amante que possa lhe dar um herdeiro para o trono, despertando a cobiça dos que estão ao redor. Como de hábito em filmes de corte, a decisão do rei vem acompanhada da influência do conselheiro mais próximo, geralmente o personagem que ostenta a cara de enganador sem caráter que só é amigo aos olhos do rei e dos que caem em sua conversa mole. Nesse caso, o conselheiro tem na família duas belas jovens e vê aí uma oportunidade de aumentar sua influência. Ele convence o pai das meninas a receber o rei em sua casa de campo e a oferecer uma das filhas, Ana Bolena, como amante. Tudo parece ir bem, mas devido ao temperamento impetuoso de Ana, o rei despenca em um barranco e se machuca, ficando com raiva da menina. Disposto a uma nova tentativa, o simpático conselheiro manda que Maria tente seduzi-lo. Apesar da menina se limitar a limpar os ferimentos, Henrique VIII não resiste ao seu encanto e cai no plano B mais famoso da história da Inglaterra.
Como aula de colégio, A outra cumpre bem o seu papel, o que não acontece como sétima arte. Peter Morgan fez um roteiro mediano, competente, do tipo que poderia crescer nas mãos de um diretor experiente que soubesse explorar os círculos de intrigas e poder sem recair no clichê. Não é esse o caso. Acostumado à televisão, Chadwick explora muito pouco a linguagem cinematográfica e por vezes parece não saber onde posicionar a câmera, recheando o filme com ângulos e planos equivocados. Para azar dos espectadores, Chadwick também tem uma direção de atores frouxa, transformando as irmãs Bolena em arquétipos de menina boa e má. A personagem de Johansson (Maria Bolena) é a loira, pura e virginal que está disposta a tudo para salvar a família, inclusive abandonar o marido e engravidar do rei. Já Portman é a morena manipuladora que parte corações e nações ao meio, com direito a sorrisinho enviesado e olhar de esguelha.
Se pensarmos no que Natalie Portman conseguiu extrair de seu papel simplório em V de Vingança e na atuação de Scarlett Johansson em Match Point, o gostinho que fica A outra é o de desperdício de talento. Algo aceitável para Eric Bana e seu Henry Tudor, mas não para a dupla de atrizes.
Em tempo: a mesma história vem sendo contada na série The Tudors, com direito a muito sexo, intriga e assassinatos. Perto da série, o filme de Chadwick parece desenho de criança.