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Bossa Nova

Na entrada da Oca, para quem olha para baixo, há uma praia de Copacabana de pó de mármore, e o campo semântico da palavra mármore é uma justa justaposição. Trata-se de apor a um ícone espacial um algo mais de classe, de chique. A exposição é sobre Bossa Nova e a sinuosidade das pedrinhas portuguesas estão lá em uma outra justaposição, essa agora de contigüidade e não mais de valor: Copacabana fica ao lado de Ipanema, real berço da Bossa Nova, mas carente de símbolo visual tão forte quanto. Vai então a calçada vizinha, somada ao mármore e, mais ou menos, chegamos ao destino, cujo aspecto principal é justamente esse, de ser um destino. Porque a Bossa Nova pode ser entendida como uma espécie de regionalismo - algo mais ligado a um espaço do que ao seu tempo.

O espaço, já dizíamos, é Ipanema. E o tempo é o imediatamente anterior e o imediatamente posterior ao golpe militar brasileiro. Registros temporais? Vergonhosamente ausentes, tanto do tema quanto da sua apresentação hi-tech. Estamos fora do tempo aqui. Estavam. Quanto a isso, eis uma curadoria condizente.

Há duas maneiras de se entender o regionalismo, as duas ruins. A primeira é o regionalismo de quem vem. Por exemplo: enfiar, em uma mesma visão, artistas que vêm de uma mesma região. Raramente dá certo, diferenças individuais precisando ser chutadas para baixo do mandacaru mais próximo. A segunda é o regionalismo de quem vai. Por exemplo, achar que são iguais todos os filmes sobre a periferia de São Paulo. Aí, os cineastas podem vir de qualquer lugar, mas vão todos ao mesmo boteco barra pesada onde todo mundo morre baleado. Os dois regionalismos são ruins, mas há uma diferença entre eles.

Ambos servem ao mesmo idealismo retrógrado de promoção de identidades nacionais. Se tal “região” é assim ou assado, por contraste ou similitude, inferimos que “nós” (os que não somos da “região”) somos assado ou assim. Não que as identidades, grupais ou individuais, não sejam formadas, sempre, por uma contaminação que muito tem de espelhação e esfregação. Mas ao determinar que tal grupo de tal região (origem ou destino) é, simplesmente interrompemos o processo. Quem é, é. E fica sendo. E isso vale para os assim engessados e para os que dos engessados se valem para formar, por comparação, o seu ser  igualmente estático.

A diferença é que o regionalismo de quem vem estabelece a identidade positiva dos que não pertencem ao grupo por similitude: somos (todos) antes de tudo uns fortes. E o regionalismo de quem vai firma a identidade positiva por contraste: eles são uns bandidões, nossa, que horror, vamos logo para nosso apartamento seguro.

Na circunstância específica da Bossa Nova, somos todos uns fortes da elite e, portanto, o que outros membros da elite fazem não pode estar de todo errado (sendo que os outros membros da elite, ou a ela prestando serviço, eram os generais militares).

É esse o problema com o grupo da Bossa Nova. Firmaram-se a partir de um modo de vida da zona sul carioca. Contrapunham-se a outro grupo também baseado no espaço e não no tempo, os músicos de samba dos morros cariocas. Deles tiraram uma gênese, mas, peraí, ei, a gente é chique paca, legal paca, e até convida vocês a participar aqui do palco do Teatro Opinião. Samba não é mais esfregação, é espelhação, e de alturas-valores hierarquizados. Somos todos muito legais mas a gente é mais legal. Na exposição, sem querer, isso fica muito claro em uma das frases pintadas pelas paredes: “A Bossa Nova, em sua essência, é rítmica, é o samba.”

Uma bicadinha de estruturalismo aqui: 1) bossa nova tem maiúsculas - registro de importância - negadas ao samba; 2) ahn, o que é essência, hein?, há essências? com a palavra Platão e o mundo das aparências.

Continuando com mais uma bicadinha de estruturalismo. Há outras frases na Oca. No balcão da iconografia, que vai de 1955 a 1965, aprende-se muito, muito mais do que está lá. As frases: “Eclode o movimento militar em Minas Gerais, sob o comando do general Mourão Filho”; “É editado o AI-1 que depõe o presidente e inicia as cassações”; “O marechal Castelo Branco é empossado presidente”.

Essas, as frases da curadoria. Essa, uma explicação da lingüista Eni Pulcinelli Orlandi, sobre o encobrimento do autoritarismo no discurso conivente: diz a eminente doutora da Unicamp que pode haver uso ideológico da falta de sujeito e também da voz passiva. Quem é o responsável pela ação descrita fica protegido por esse artifício. Orlandi complementa observando que a nominação e a frase básica do verbo “ser” são marcas desse endosso que se envergonha de si mesmo.

Essa a informação que não era para estar lá mas está. A que está lá de propósito segue pelo mesmo caminho: no dia 6 de maio de 1964 (um mês depois da Gloriosa) Tom Jobim foi a Nova York tratar de assuntos relacionados a sua editora, a Corcovado Music; no dia 29 de maio de 1964, a revista Life dedica texto elogiando o álbum Getz/Gilberto. Uau. Tudo a ver com a época, não?

E aí vem a melhor frase de todas. A de Lorenzo Mammi. Diz ele: ” Você imagina o ritmo, mas o ritmo nunca está lá exatamente, o violão fez uma pequena coisa com o ritmo, que é uma pequena variação, e a voz fez outra coisa com outra variação. O ritmo está no meio, mas não tem ninguém que marque o ritmo exatamente.”

Não tem mesmo. O ritmo, o tempo, ninguém marcou. Ficou essa tentativa de passar por cima dele, mas ninguém passa. Acabou que, veja só, na atemporalidade da Oca, há essa ausência que grita - mesmo que seja no silêncio de João Gilberto ou no da curadoria.

Nota: Não pudemos fotografar. Sem saber da proibição, fomos ameaçadas de processo, mesmo nos dispondo a deletar a única foto tirada - a da “praia” de Copacabana no subsolo. Mas não tem importância. Você consegue fácil imaginar: aquilo mesmo que você já conhece, só que de mármore.

 

 

 


Elvira Vigna é escritora e crítica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Deixei ele lá e vim", 2006, Companhia das Letras.

 

editoria: edicao_0014, música, em 8/7/2008

 

 

 

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