Cine-Teatro Limite
Assisti, no Teatro Glória, à comédia Cine-Teatro Limite, de Pedro Brício. A história é ambientada no ano de 1944, portanto, durante a Segunda Guerra Mundial, na cidade do Rio de Janeiro. A peça começa, com as cortinas ainda cerradas, com a fala de uma espécie de narrador ou apresentador. Ele se apresenta e diz que é o protagonista de sua própria história. E, a partir, de um questionamento – “O que acontece com nossas memórias quando a gente morre?” – inicia-se o desenrolar da trama.
Num cenário simples que retrata um sobrado na Lapa, privilegiando as cores, vermelho e verde, que permanecerá em destaque durante todo o espetáculo, vemos a cena corriqueira de uma família, composta por um casal, dois filhos e uma empregada - empregada, aliás, representada por um ator vestido de mulher, responsável por quase todos os pontos realmente cômicos da peça.
Nessa família, temos um pai italiano, que possui uma banca de jornal na Cinelândia, a mãe, dona-de-casa, ex-cantora e alcoólatra, o filho mais velho, Valentino, aviador, que depois irá para a guerra e Sábato, filho que não encontrou ainda seu papel no mundo, e é em torno desta personagem e de seu drama pessoal que a história acontece.
Sábato nos é apresentado com um caderninho na mão e sua mãe reclamando que ele não arrumou um coelho para o jantar de aniversário do pai, como foi pedido. Desse pequeno acontecimento, são expostas as características desse jovem de 25 anos, que ainda mora com os pais e não possui uma profissão. Nem nos bicos que o pai lhe arruma, ele consegue ficar por um tempo – a última que aprontou, foi libertar os coelhos do açougue onde trabalhava no Passeio Público, alegando que era comunista.
Porém, Sábato tem um discurso pronto, diz que é comediógrafo e está escrevendo um filme da “comédia risível de suas vidas patéticas”. E em seu quarto, vemos o tal narrador, conversando com ele. Aos poucos vamos descobrindo que se trata de uma espécie de amigo imaginário. É o seu ídolo, o ator Totorito, para quem ele está escrevendo o filme, em que interpretará um carteiro, e parece ser a sua fonte de inspiração.
A peça também apresenta um tom político, principalmente quando outra personagem entra em cena, Aurora, ou Sara, namorada comunista de Valentino, por quem Sábato também se apaixona. Segundo a sinopse, “o getulismo, os cômicos populares, a crise econômica, o cinema hollywoodiano, as notícias de jornal e o existencialismo se misturam”. E é isso mesmo. Esses elementos são incorporados ao discurso de maneira bem inteligente.
Finalmente, Sábato toma coragem e vai mostrar ao seu ídolo o filme que escreveu para ser estrelado por ele, com quem já tem uma bela amizade em sua imaginação. Como Totorito só lhe dá 5 minutos para expor o que está no roteiro, Sábato conta com os atores que interpretam os seus familiares para compor um musical bem movimentado e engraçado do filme. É o momento de mais animação da peça.
Depois de 10 minutos de intervalo, inicia-se o segundo ato da história, e como o narrador mesmo aponta, a história mudou. A cena que encontramos é a de uma família esperando notícias do filho aviador que foi para a guerra e há quatro meses não escreve cartas. Agora as personagens vivem o drama da espera. Sábato, como um artista em crise, nem consegue ver mais seu amigo imaginário. Resume que passou um ano de sua vida escrevendo essa história para divertir as pessoas, mas que o que está acontecendo é tão mais urgente, que não pode perder mais tempo com aquilo. Vivendo uma espécie de crise de criatividade. Em outro momento, questiona se a ficção é capaz de salvar as pessoas e logo depois chega uma carta de Valentino. Não há muito mistério aqui. Nota-se logo que ele próprio escreveu a carta para trazer tranqüilidade à família. Nessas cartas, Sábato, através da voz do irmão, expõe o que gostaria de dizer no lugar de Valentino. Aliviando a dor da família, reescreve sua história.
Nos momentos finais, temos Totorito de lado, com um café e o roteiro, e as cenas continuam sendo representadas, como se estivéssemos vendo encenado o que ele está lendo. Totorito telefona e diz que irão produzir o filme, mas Sábato não está mais interessado. Diz que vai para São Paulo fugir da ficção que criou nas cartas, que não tem mais coragem de conviver com os pais. Assume que é carteiro do filme – figura imaginária que o transportava dos momentos difíceis para os momentos criativos, sempre projetando o drama na ficção, papel anteriormente destinado ao ídolo. E Totorito conclui que se essa história fosse um filme, terminaria ali. E é o que acontece.
Todas as cenas envolvem ações rotineiras com a comédia e o drama de maneira clara, humorada e descritiva. Prende a atenção do espectador a seqüência onde a figura do apresentador serve de associação da fantasia e da realidade. O espetáculo conseguiu retratar de forma especial uma família envolvida nesse período histórico tão conturbado, fugindo da melancolia própria do contexto, abordando os conflitos com feição espirituosa sem deixar de descrever fatos reais da história.
Trata-se de um making of do filme que Sábato gostaria de escrever. Texto bom. Os atores o executam muito bem. Porém, um pouco cansativo. São 120 minutos, sem os recursos que o cinema oferece. O espetáculo ganha movimento no segundo ato, que sem dúvida, passou mais rápido que os primeiros 60 minutos, mas mesmo assim percebe-se o quanto é difícil encenar um espetáculo tão longo.
Direção: Pedro Brício e Sérgio Módena.
Elenco: Erica Migon, Isaac Bernat, Rodrigo Pandolfo, Celso André, Alex Pinheiro, Gustavo Wabner, Keli Freitas e Álvaro Diniz.
Jarcélen Ribeiro é Mestranda em Estudos de Literatura, PUC-Rio. Bolsista do CNPq.


















