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O beijo canibal de Daniel Odier

O beijo canibal é uma experiência literária que coloca escritor, leitor e personagens no mesmo plano de observação, rompendo o limite imposto pela folha de papel como o teatro interativo faz com a quarta parede. Seu autor abdica da linearidade para narrar uma intensa relação voyeurista entre um escritor e sua personagem, optando pelos desencaixes do caos ao invés da lógica progressiva de estruturas tradicionais. Seguindo um caminho completamente fragmentado, Daniel Odier conta a história de Bird, uma jovem que é contratada por um escritor para percorrer o país em busca de vivências que possam gerar um livro. Nessa trajetória, Bird desdobra-se em várias, decompondo-se diante das mais estranhas situações e personagens. Uma mistura de realismo (quase) fantástico e road movie, candidata à paideuma* mais exigente.

Só que eu já li essa história antes, você pode dizer, e eu também quase me enganei ao ler o release. O fato é que desde seu primeiro parágrafo, O beijo canibal se distancia de tudo que é usual, preguiçoso ou clichê.

O livro gira basicamente ao redor de três personagens: Bird, o Escritor e o Camaleão. Bird é a musa inspiradora, a personagem ideal que todo escritor tenta alcançar. Ela está na obra que o Escritor personagem constrói na história do escritor Odier. Em dado momento, Bird – a personagem de Odier – descobre que é personagem do livro do Escritor e arma um encontro que o deixa conturbado diante da existência de sua personagem. Ao mesmo tempo em que o Escritor é a razão da existência de Bird, ele descobre que Bird sempre existiu, independente de seu livro, despertando seu interesse por tudo que venha dela, seja memória ou pedaço, o físico ou o abstrato. Na dualidade da criação, Escritor e Bird vão para a cama, criando o texto do livro que iremos ler e o que não iremos. Em um ato extremo, Bird beija o escritor, que é absorvido e pára em seu útero, dando a entender que um bom personagem pode fazer o nome de um escritor tanto quanto um escritor pode criar um personagem. É esse o beijo canibal, o começo de tudo.

“Sento sobre a prancha da varanda. O Índio estava se recordando de Bird, Bird ocupava aquele espaço. Eu me perguntei por que diabos aquela obsessão de preencher com tinta um espaço em branco. As ondas se desfazem incessantemente, me esvaziando pouco a pouco de minhas emoções”.

Explorando mais a proposta da dicotomia, Daniel Odier cria também o Camaleão, o alter ego do Escritor. Camaleão acompanha de perto tudo o que o Escritor faz, até que ele conhece Bird. Como o Escritor fica cada vez mais apático e cinzento, o Camaleão decidi acompanhar Bird em sua viagem, tornando-se uma espécie de anjo da guarda que inspira o ar que sai de sua boca, se aninha em seus braços enquanto dorme, bebe do que ela bebe, come do que ela come, sempre invisível. Camaleão não pode interferir em praticamente nada, por ser imaterial, e em seu distanciamento é o “personagem” que nos oferece o olhar mais preciso sobre a vida de Bird. É interessante ver como Camaleão e escritor se aproximam e se separam, movidos pelo desejo desperto pela sexualidade da protagonista. Quanto mais material e presente está o escritor, mais diluído é o Camaleão.

“Meu rosto agora. Tenho olheiras, a pele tão pálida quanto o resto. Meus olhos são amendoados, isso é clássico nos romances, mas em mim é verdade. Meus olhos são de um marrom bem escuro, quase negro. Minha testa está freqüentemente franzida. A única coisa que me atrai na velhice são as rugas. Faço tudo para tê-las o mais rápido possível”.

Outro atrativo do livro são os personagens exóticos que Bird encontra em sua viagem. O primeiro deles é um índio maconheiro, uma espécie de mentor, que a conhece desde pequena. É nele que o Escritor se fixa para saber algo sobre Bird e mais tarde, quando a obsessão sai do controle, descobrir o seu paradeiro. Há também uma prostituta que dorme em tempo integral e um homem albino parente das baleias, sempre refletindo o estado interior da protagonista na construção de seus laços sentimentais. A galeria de personagens estranhos é construída com delicadeza, fingindo-se por acaso. É responsável pela criação de livros dentro do livro, que chegam ao clímax quando Bird encontra uma comunidade de Antropófagos, rompendo novamente os limites das relações interpessoais.

“Mia:Eu era sua ama-de-leite. Como você está vendo, não tenho mais mamas, ele as comeu. Depois, ele devia ter seus dez anos, me fez uma filha, Zoe, que virou sua mulher. Eles tiveram uma filha, Jasmina. Oswald lhe passou a vara por sua vez e ela deu luz à Harmonia, que pariu a mais jovem de nós, Boto, que deve estar com quinze anos agora”.

Vivendo com o salário que o Escritor lhe envia, Bird é errática em seu caminho e comportamento. Alimenta o escritor com um quebra-cabeça de si mesma, envia fotos, fragmentos de textos, o induz a deduzir ao invés de contar com detalhes os seus dias, espalhando pelas páginas os vazios de sua vida para que o Escritor e o leitor possam completar como convier. Diz ela: eu nunca vi uma memória sem lapsos. São os lapsos que nos permitem viver. É desses lapsos que o leitor se alimentará até o fim, incansável para saber mais.

A biografia de Daniel Odier parece uma daquelas brincadeiras, artistas inventados para pregar peças nos críticos. O autor nasceu em Genebra em 1945. Estudou Belas Artes em Roma e mais tarde largou a pintura para ser escritor. As viagens pela América do Sul e Ásia serviram de inspiração para vários de seus trabalhos. A maioria foi publicada sob o pseudônimo Delacorta e transitava no universo policial. Boa parte foi adaptada para o cinema, sendo o mais famoso “Diva”, dirigido por Jean-Jacques Beineix. Atualmente, Odier divide seu tempo entre a França e os Estados Unidos, onde ensina o Shivaísmo. Não é praticamente um romance fantástico?

*Segundo Ezra Pound, Paideuma é “a ordenação do conhecimento de modo que o próximo homem (ou geração) possa achar, o mais rapidamente possível, a parte viva dele e gastar um mínimo de tempo com itens obsoletos”.

O beijo canibal
Ed. 7 letras
153 páginas de excelente qualidade.

 

 

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

 

editoria: edicao_0014, literatura, em 19/7/2008

 

 

 

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