Batman - Dark Knight
Direto aos números. O que Batman Begins conseguiu no tempo total de exibição nos cinemas (~ US$372 milhões), sua seqüência Batman Dark Knight ultrapassou em dez dias (US$442 milhões). É muito dinheiro, muito sucesso. Se você não tem nenhum valor em mente para fazer a comparação, espie no texto anterior dados da Ancine sobre o cinema nacional ou resenhas passadas sobre blockbusters. Claro que nada ocorre por acaso. O bom resultado é fruto dos elogios recebidos em Batman Begins, da intensa campanha de marketing da Warner (que deve beirar o orçamento do filme: US$185 milhões), do trabalho para lá de competente do diretor Christopher Nolan e da infeliz morte de Heath Ledger, o ator australiano que interpreta o Coringa – provavelmente o melhor vilão desde Hannibal Lecter, de Silêncio dos Inocentes. E que ninguém me fale de Jigsaw.
Para mudar o hábito, vou começar com a atuação de Heath Ledger. Na época em que foi escolhido, muita gente ficou de pé atrás porque o ator não tinha o biótipo do personagem dos HQs. Essa birra de fã passou logo que as primeiras imagens do Coringa foram divulgadas e foi enterrada de vez quando as sessões-teste começaram. Atuações e filme só recebiam elogios. O boca a boca dava conta de uma atuação estupenda, uma releitura completamente psicótica de um vilão que faz do humor negro motor para o planejamento de crimes, mutilações e assassinatos. Ledger construiu detalhe por detalhe o assassino, cheio de tiques e olhares, transformando o Coringa em um personagem factível, compatível com a proposta do diretor de fazer de Gotham City uma cidade vulnerável como outra qualquer.
Para atualizar o personagem, Christopher Nolan trabalhou o Coringa como um terrorista. Ninguém sabe muito bem os porquês por trás dos atos. O melhor que a polícia e o governo conseguem fazer é considerá-lo louco, já que buscar explicações não muda o fato do terror que ele espalha. Coringa representa o caos absoluto, mas um caos arquitetado peça por peça, invisível, que só mostra a cara nas conseqüências, nunca durante o processo. Não é à toa que, apesar do vilão preferir usar facas nos combates, seus ataques em massa usam sempre explosões e seus testemunhos ocorrem através de vídeos caseiros (a vantagem da gasolina e da dinamite é que são baratos, diz o personagem).
Na história, o crime organizado de Gotham City mudou seus hábitos graças ao Batman. Os ladrões andam acuados e mesmo os poderosos da máfia (peça importante nos HQs) preferem evitar confrontos com o herói, amargando prejuízos cada vez maiores nas bocas de tráfico. Aliado à polícia, Batman começa a rastrear com notas marcadas os bancos que guardam o dinheiro da máfia, atacando onde realmente dói: no bolso. É aí que aparece o Coringa – uma evolução natural do padrão de vilão em resposta à evolução do herói. Disposto a chamar a atenção, o palhaço assalta um banco e rouba o dinheiro dos mafiosos. Quando estão reunidos para decidir como recuperar a grana, o Coringa reaparece e faz uma proposta: me contratem para matar o Batman, como pagamento quero metade do dinheiro. Simples assim. Para sorte ou azar de Batman, sua presença não influenciou só os bandidos. Inspirado por seus atos, pessoas comuns começam a se vestir de Batman para atacar traficantes e assaltantes, mesmo correndo o risco de morrer. Quem também dá as caras é o promotor Harvey Dent (Aaron Eckhart), que combate ativamente o crime em Ghotam sem uma máscara no rosto, e se torna o alvo preferencial de 10 entre 10 bandidos que não gostam muito de sua honestidade. Apesar de inspirador para os cidadãos de bem, Harvey faz Batman se sentir no caminho errado por ter que esconder o rosto para agir.
Com a quantidade de informações no parágrafo acima, fica fácil entender porque Batman – O cavaleiro das trevas é longo, truncado e confuso. Por melhor que seja o seu resultado final, uma enxugada no roteiro e uma equipe de montagem mais atenta resolveriam boa parte dos problemas e dariam menos dor de cabeça no espectador. Concordo que a idéia seja promover o caos através da falta de origem ideológica do Coringa, mas uma composição mais ordenada das cenas ajudaria como contrapeso. De câmera nervosa basta Bruxa de Blair.
Ainda assim, Batman é um filmão, imperdível para qualquer fã de ação, gibis, aventura, suspense, policial e… ponha seu adjetivo aqui. Ao trazer a mitologia dos HQs para o mundo real, Chris Nolan conseguiu montar o que será lembrado como o melhor retrato cinematográfico do mundo pós-11 de setembro. Sabe a paranóia que estava escondida ali na esquina, nas mãos de um sujeito comum, às vezes de terno e gravata, às vezes de barba e turbante? Finalmente dobrou a rua trazendo um largo sorriso no rosto.
Além do Coringa e do vilão Duas Caras (Harvey Dent após um pequeno contratempo), outros personagens clássicos que marcam presença são: O Espantalho (Cillian Murphy em rápida aparição), Lucius Fox (Morgan Freeman), Comissário Gordon (Gary Oldman, para variar impecável) e o mordomo Alfred (Michael Cane), um verdadeiro elenco de luxo.
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.


















