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ISSN 1980-7767

ano 5
edição atual: número 27, setembro & outubro de 2010

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7/8/2008

Quintessência de Flávio Medeiros Jr.

Decifra-me ou te devoro. É o que diz a Esfinge em seu encontro com Édipo na tragédia grega de Sófocles. Mais do que um desafio, ela é a antecipação de todo o sofrimento de Édipo no processo de auto-descoberta desencadeado ao procurar saber quem é o assassino de seu pai. Mais do que uma das melhores tragédias, o texto é também o nascimento do gênero investigativo que mais tarde daria origem ao gênero policial. Você pode argumentar que Édipo Rei não tem carros de polícia perseguindo o assassino de Laios, mas a essência de um gênero vai além de seus arquétipos, caracterizando-o em grande parte pela atmosfera que consegue criar e pela capacidade de externar no grande mistério da história algo intimamente ligado ao investigador, suas dores e vivências. As mudanças vêm de dentro para fora, as informações de fora para dentro. É isso que move a trama.

Quintessência, romance de Flávio Medeiros Jr., não é uma tragédia grega. Sua história se passa milhares de anos depois, em um futuro próximo de nossos medos e distante nos avanços científicos e tecnológicos. Ainda assim, ao manter (mesmo que por acaso) um diálogo com a busca edipiana, Flávio começa com o pé direito no universo dos romances, criando uma obra de entretenimento repleta de qualidades.

“A história da humanidade é assim. Após milênios nada muda. As armas evoluem em tecnologia, mas a violência é a mesma. Antigamente os vigaristas perambulavam pelas estradas saltando de sombra em sombra; hoje permanecem sentados em salas com ar condicionado e correm o mundo pela via virtual. Mas a desonestidade, a ânsia de domínio sobre o semelhante, a ambição desmedida, nada muda”.

Um dos pontos mais interessantes de Quintessência é a utilização do real na construção da projeção futurista, o que torna sua mitologia factível e palatável para o leitor, sendo quase uma brincadeira à parte traçar os paralelos entre atualidade e ficção. Exemplos? A divisão entre as polícias civil e militar que causa tanta controvérsia no Brasil finalmente acabou. A Polícia Unificada é coesa no nome e fragmentada em sua estrutura, vivendo ainda as disputas geradas pelo processo de unificação. Com o aquecimento global, o nível dos mares realmente subiu, afetando ilhas e cidades litorâneas como o Rio de Janeiro. Se você conhece a cidade, sabe que quem mora perto do mar é a classe social mais alta e no alto do morro, a parte segura, as pessoas de menor renda. A partir disso, imagine a confusão que o derretimento das geleiras causaria por lá. No quesito poluição, o grande ícone é São Paulo. A situação piorou demais e é praticamente impossível respirar sem máscaras e filtros. Belo Horizonte é um dos poucos lugares a lembrar esse mundo ‘antigo’ em que vivemos. Ainda há natureza, água, ar e shoppings, elementos básicos da sobrevivência humana. Os shoppings, entretanto, foram levados à quase extinção. Nossa inestimável Internet evoluiu para algo mais sofisticado, chamado ultranet, facilitando o comércio eletrônico e transformando os templos do consumo em peças de museu.

É exatamente em um desses templos ainda funcionais, o BH Shopping, que começa o romance Quintessência. Reverberando o medo atual que temos de atentados, Flávio apresenta um terrorista típico. Só descobrimos que ele existe através de sua ação. Ele surge, mata, explode e desaparece. Sem nome, passado e presente, ele nada diz. Sobram corpos e mais corpos espalhados pelo chão e a sensação de fragilidade da população.

Nesse cenário caótico, os leitores são apresentados a Tom Rizzatti, policial e investigador que tentará desvendar o massacre e descobrirá que as coisas são piores do que parecem (sempre são).

Tom Rizzatti é um personagem de apelo certeiro. Está acima dos reles mortais – já que é um policial bem treinado, tem uma arma futurista de dar inveja e um prático implante no olho – e ao mesmo tempo é humano, passível de erros e distúrbios de humor como qualquer um. É aquele sujeito com quem você toma uma cerveja no bar, mas pode contar nos momentos difíceis. São das falas de Rizatti que vêm as melhores frases do livro, geralmente ironizando os demais personagens ou fazendo referências ao universo dos HQs. “Minha merda em bytes!”, diz ele cada vez que se vê surpreso. Flávio Medeiros Jr. consegue alternar os momentos de bom-humor tanto com filosofias de porta de banheiro quanto com debates mais profundos relativos aos dilemas da ciência e às mazelas da sociedade, devidamente ampliados ou restringidos pela peculiar mentalidade futurista.

“Às vezes fico pensando no bidê. Hoje quase ninguém mais tem bidê em casa. É um objeto obsoleto, inútil, que permanece de maneira insolente ocupando o espaço entre a pia e o vaso sanitário. O bidê existe de teimoso, e nem sequer sei direito para que ele serve. O bidê é o máximo da obsolescência e solidão. (…) Às vezes me sinto um bidê…”

Além da mitologia e da proposta de nova sociedade (com destaque para a visão do autor sobre a futura geração de adolescentes, suas novas gírias e gosto peculiar por música e hologramas), Flávio também acerta na estrutura escolhida para narrar a história. Como um bom livro policial, o Quintessência traz perseguições e tiroteios; do lado ficção, ele aproveita apetrechos e novidades tecnológicas; do toque de suspense, desconfianças e reviravoltas repentinas aquecem o relacionamento dos personagens, mas acima de tudo, a história avança à base de informações. É um erro corriqueiro entre novos autores achar que correrias e lutas impõem ritmo a um livro. Quintessência não sofre desse mal.

“Guinei com tudo para a esquerda e meu carro descreveu um perfeito cavalo-de-pau. Parei de frente para a pista por onde tinha vindo. Acelerei, levantando uma nuvem líquida no asfalto molhado e um cheiro de plastiborracha queimada. O Black Beetle vinha bem à frente do outro carro, e vi uma luz arredondada dos dois faróis a laser se aproximando rapidamente. Não sei se o bom e velho Cabeção foi pego de surpresa ou se pretendeu por um instante de tolice bancar o ‘matcho’, porque não se desviou nem reduziu a velocidade. Vinha direto para mim!”

Pelos elementos bem dosados, Quintessência tem boas chances de agradar a públicos diversos, seja na questão dos gêneros ou da faixa etária, já que é um livro com personagens de vigor jovem que ao mesmo tempo aborda dilemas mais adultos. Fica a torcida para que Tom Rizzatti ganhe força para aparecer em novas seqüências e que Flávio Medeiros Jr. não caia na tentação de reciclar o vilão (sim, mesmo o terror disperso tem sua cabeça pensante) ofuscando o desenvolvimento do protagonista e de seus parceiros.
Alguém aí falou na informante hacker?

Quintessência
Flávio Medeiros Jr.
Ed. Monções
227 páginas.

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.