Misha Dacic
Misha Dacic é pianista, nascido na Sérvia em 1978. Foi aluno do excelente pianista Kemal Gekic na Universidade de Novi Sad em Belgrado. Ganhou destaque internacional depois de participar do Progetto Lugano em 2003. Tocou såbado passado (dia 9) no Theatro Municipal do Rio.
Ă dono de um belo timbre, mas nĂŁo de grande potĂȘncia sonora. A escolha do programa foi bem feita, mas a distibuição nĂŁo. Pedimos bis, mas ele nĂŁo deu.
O que faltou em Misha Dacic?
Misha – parĂȘntesis: Misha Ă© apelido de Michael em russo. JĂĄ bastou a velhinha do meu lado que adorou o concerto dessa menina - é uma figura draculina: muito branco, de gestos fluidos, cabelos longos caindo no rosto. Ă o arquĂ©tipo ultra-romĂąntico. Como tal, tem uma certa aparĂȘncia doentia, e nĂŁo me pareceu ter grande força fĂsica.
As peças lĂricas pouquĂssimo tocadas de Rachmaninov foram absolutamente maravilhosas. Foram elas a “Melodia” (sem nĂșmero e sem opus, no programa), o Romance Op.10 NÂș6, o PrelĂșdio Op.32 NÂș3 e a Valsa Op.10 NÂș2. Duas sonatas de Scarlatti, tambĂ©m muitĂssimo bem acabadas e bem equilibradas.
Fechando a parte solo, uma transcrição hipervirtuosĂstica do Volodos. Se tivesse terminado aĂ, o recital seria algo estupendo, de primeira linha, raramente visto por aqui (veja bem, eu quis dizer TĂO estupendo e TĂO de primeira linha), mesmo que tenha faltado um quĂȘ de bombĂĄstico nos fortĂssimos do Volodos. Mas aĂ, sem intervalo nem nada, tivemos um concerto de Mozart. E um bem chato, por sinal, o NÂș25, em sol maior. NĂŁo gostei da orquestra, uns metais e sopros desritmados, desencontrados, desequilibrados, e Ă s vezes, simplesmente tocando notas erradas. Mais uma vez, a enorme dificuldade de tocar Mozart: nĂŁo chega a ser difĂcil, sĂł que nĂŁo pode sair NADA errado. AlguĂ©m escreveu que tocar Mozart Ă© como “carminhar nu pela quinta avenida: tem que se estar em boa forma para fazĂȘ-lo”.
Misha tocou muito melhor que a orquestra, me parece que as cadĂȘncias foram compostas por ele. Se foram, parabĂ©ns novamente, absolutamente deliciosas. Tomou algumas liberdades, Ă© verdade, mas foram muito bem vindas em meus ouvidos.
DaĂ um intervalo (mal posicionado!), e a Burleske. Talvez por jĂĄ estar cansado da primeira parte tĂŁo longa, mas a Burleske foi chata. A despeito do andamento supra-Argerichiano que foi imprimido Ă peça (andamento com o qual eu concordo, visto que se tocar mais lento parece um cortejo fĂșnebre), nĂŁo empolgou. E nĂŁo havia nada de errado! Tudo muitĂssimo bem acabado, muito criativo, muito bem tocado, muito bem equilibrado. Mas faltou alguma coisa. O quĂȘ?
Faltou um nĂŁo sei o que de irracional, de visceral, de desmensurado, de impulsivo, de agressivo, de avassalador, e, em Ășltima anĂĄlise, talvez de sincero e de puro. A um dado momento meus ouvidos e meu cĂ©rebro se cansaram de todo aquele toucher pensado, calculado, medido e bem acabado, e começaram a clamar por algo mais, que nĂŁo veio. NĂŁo sei porquĂȘ, mas eu ansiava desesperadamente por algo simples e sincero, que tambĂ©m nĂŁo veio. NĂŁo veio porque nĂŁo existe (serĂĄ? Prefiro acreditar que foi um mau momento!). Excelente pianista, de uma competĂȘncia imensa, mas sĂł isso.
SĂł isso.
Pedro Taam Ă© pianista, graduando em FĂsica MĂ©dica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e editor do AguarrĂĄs.







































