Shortbus
Tem sexo explícito gay. Tem sexo explícito heterossexual. Tem sexo a dois, sexo a três e sexo a muitos, com muita naturalidade. Tem também uma dominatrix depressiva, um grupo de discussão só de lésbicas, um voyeur obcecado e uma terapeuta sexual que não consegue ter orgasmos com seu marido. Aliás, há um orgasmo. Assim, na cara dura, com fluídos pingando, mostrado como se as pessoas fizessem sexo, tivessem orgasmos e fossem felizes no mundo real. Orgasmo. Felicidade. Quem tem isso hoje em dia? E desde quando felicidade e sexo estão relacionados? Bem, desde sempre. Desde Freud.
Mas não pense que Shortbus é (só) um filme pornô. Recheando as cenas mais ousadas (e muitas vezes engraçadas, porque é preciso ter humor na vida) há uma história bem contada sobre a busca pela felicidade, contínua e prolongada, do jeito que só John Cameron Micthell tem conseguido fazer: com sinceridade.
John Cameron Mitchell estreou no cinema com Hedwig and the angry inch, adaptação de sua peça do circuito off-Broadway. Hedwig era um cantor de rock, meio andrógino, meio travesti, que havia mudado de sexo para poder casar e fugir da Alemanha pré-unificação. A percepção da vida e da sexualidade de Hedwig e das pessoas com quem se relacionava eram transpostas por canções e animações que acompanhavam os delírios da personagem, interpretada pelo próprio Mitchell. Foi um começo marcante, onde o diretor já trabalhava a mistura de drama e comédia que situa em algum lugar entre o real e a ficção.
Shortbus potencializa todas as características de Mitchell como diretor. A comédia está mais engraçada, o drama mais tocante e o sexo mais ousado, desmistificado sem perder o encanto.
O filme se passa em uma Nova Iorque contemporânea e começa com diversas cenas de sexo dos protagonistas. Todos parecem felizes, já que a performance não deixa a desejar. Pouco a pouco, o espectador percebe que aquelas pessoas não são perfeitas e seus problemas vão se revelando. Jamie e James, o casal gay que dá o pontapé inicial, vão procurar a terapeuta sexual Sofia Lin, pois estão pensando em abrir o relacionamento, cada um por um motivo diferente. Sofia resolve provocá-los discretamente para descobrir os famosos porquês ocultos da psicologia. A situação se desenrola de tal forma que Sofia se descontrola e dá um tapa na cara de Jamie. Envergonhada, ela acaba confessando que nunca teve um orgasmo. O casal decide indicar para ela o Shortbus, um barzinho underground onde todas as fantasias sexuais são realizáveis, começando a trama para valer.
Shortbus é uma utopia consumada que mistura sexo, arte e convívio social de forma harmoniosa. Enquanto o espectador acompanha Sofia em sua jornada de libertação sexual (vulgo primeiro orgasmo), conhece uma galeria de personagens simpáticos que vai de modelos mimados ao ex-prefeito de Nova Iorque ou a drag Justin Bond.
“I used to want to change the world. Now I just want to leave the room with a little dignity” – Justin Bond citando Lotus Weistock.
A história mantém o ritmo se alternando entre esses personagens de maneira equilibrada, mas o destaque fica mesmo com o casal James e Sofia. Mitchell foi bem-sucedido em construir a aura mágica do local, explorando a mítica liberdade nova-iorquina. Por mais que o filme possa (e deva) chocar puritanos e pseudo-libertinos de plantão, o sexo e seus dramas estão aqui a serviço do cinema, são artifícios de direção conduzidos com elegância e, como diz uma das personagens, todo mundo gosta de sexo, não é verdade?
A sintonia percebida entre os personagens do filme veio de um processo curioso. Durante os testes, Mitchell entrou em contato com mais de 500 pessoas, histórias, fitas de vídeo. Desse grupo, selecionou 40 para participar de uma festinha que costuma dar, não por acaso chamada Shortbus. Lá, ele observou quais atores flertavam com quais, quem tinha mais afinidade com quem, onde tinha chance de se explorar intimidade. Foi em cima dessa experiência, uma espécie de oficina de improviso com teores sexuais que durou quase três anos, que John Cameron Mitchell criou o roteiro. Ainda não é sua obra-prima, mas o prazer é garantido. Que venham outros.
Em tempo: alguém aí falou em vibrador com controle remoto?
“Sex, like music, is a universal language. We want to use it to introduce character, evoke emotion, propel the plot. Sex is also the funniest thing I know. How the hell do we find ourselves in those positions?” - Mitchell
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.


















