Meu irmão é filho único
O segredo do bom drama italiano é parecer simples na forma e grandioso no tema. As idéias são trabalhadas em cima de sutilezas, geralmente explorando o núcleo familiar e as conseqüências de seus conflitos nas relações com o mundo exterior. Meu irmão é filho único segue a cartilha sem erro, adicionando também momentos de comédia e o ingrediente político que dominou o mundo nas décadas de 60 e de 70. Na Itália, isso significa resquícios do fascismo convivendo com a impulsão do comunismo e os inevitáveis confrontos diretos pegando brecha num governo que não consegue responder aos anseios do povo.
Mas se explorasse apenas as forças políticas, Mio fratello è figlio unico não teria a mesma relevância. O segredo foi escapar do viés político que assola algumas produções italianas, sem recair no desgastado modelo Romeu e Julieta que faz Shakespeare se revirar no túmulo. Com um currículo considerável que inclui dobradinhas com Nanni Moretti, o diretor Daniele Luchetti construiu com os premiados roteiristas Stefano Rulli e Sandro Petraglia a história de dois irmãos, suas diferenças ideológicas e a difícil arte de crescer num país que não sabe para onde ir.
Accio, o irmão mais novo, é um rebelde sem causa. Sua família o manda para um seminário, onde ele mostra total aceitação do que escuta. Discursa aquilo que decora, buscando para si uma identidade, seja ela qual for. Preocupado com o destino de Accio (destino esse escolhido pela família e não por ele) e com as idiotices que os padres colocam na cabeça do menino, Manrico, o irmão mais velho, decide levar um presentinho em uma das visitas que faz ao seminário: a foto de uma bela atriz italiana. É o suficiente para que Accio descubra em seus hormônios uma causa maior do que a religião.
Quando abandona o seminário, Accio encontra a casa uma bagunça. Sua irmã agora dorme no mesmo quarto que Manrico, sobrando para Accio uma poltrona que fica no meio do corredor. Se antes já era difícil para o garoto (o excelente ator Vittorio Emanuele Propizio) decidir qual a sua legítima identidade e o que o diferencia da família, a situação agora é ainda pior. Ninguém parece feliz em recebê-lo, nenhuma saudade no rosto. Nem a cama, território inviolável de qualquer adolescente, ele possui mais. Decide então fugir de casa, arrumando mais confusão e recebendo de castigo a obrigação de seguir a profissão escolhida pelo pai.
De problema em problema que Accio apronta, o diretor Daniele Luchetti arruma espaço para acrescentar os ingredientes políticos. O veículo principal é Mario, amigo da família, e que incute na cabeça de Accio os ideais fascistas com que simpatiza, mostrando pontos de vista peculiares da história italiana e aquela coisa toda de “os campos de concentração foram uma invenção da mídia”. A situação cai como uma luva para Accio. Mais uma vez, surge uma ideologia que o jovem pode apropriar-se para chamar de sua na ânsia de gritar independência. Obviamente, a situação incomoda a todos em casa. Manrico e a irmã começam a implicar com Accio, brigando com ele sempre que se exalta, exibe sua carteirinha ou ouve discos fascistas. Accio não entende porque ninguém da família o apóia nas passeatas se estão sempre tão orgulhosos de Manrico, que também faz de passeatas e protestos uma rotina. O pequeno diferencial é que Manrico (Riccardo Scamarcio) é comunista e luta por condições melhores na fábrica onde trabalha. Num dos momentos mais críticos, Manrico enfia a cabeça do irmão dentro de um tanque, para limpar os ideais fascistas. Quando puxa-o de volta, há uma passagem de tempo e Accio aparece mais velho, equiparando forças com o irmão. Ninguém poderá mudá-lo à força. Seu amadurecimento será de dentro para fora, e através dele Daniele Luchetti mostrará a transformação de seu caráter e as transformações vividas pela Itália como nação.
O destaque fica por conta da atuação dos dois Accios, na versão jovem e na adulta (Elio Germano), ambos muito bons.
Meu irmão é filho único é uma adaptação do livro Il fasciocomunista, de Antonio Pennachi.
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.







































