Aguarras 27 Aguarras 26 Aguarras 25 Aguarras 24 Aguarras 23 Aguarras 22 Aguarras 21 Aguarras 20 Aguarras 19 Aguarras 18 Aguarras 17 Aguarras 16 Aguarras 15 Aguarras 14 Aguarras 13 Aguarras 12 Aguarras 11 Aguarras 10 Aguarras 09 Aguarras 08 Aguarras 07 Aguarras 06 Aguarras 05 Aguarras 04 Aguarras 03 Aguarras 02 Aguarras 01.jpg

ISSN 1980-7767

ano 5
edição atual: número 27, setembro & outubro de 2010

Vimeo Youtube Orkut Facebook Twitter RSS Podcast do Aguarras
6/9/2008

Marilá Dardot

No último artigo, por coincidência, também falava de narrativas. Era a exposição de Liliana Porter, que arma seus bonequinhos em meio a cenas.

Aqui é bem diferente.

Marilá Dardot, agora na Vermelho, não acha, ao contrário de mim e dos escritores que cita em suas obras (Borges, Joyce), que narrativas sejam uma possibilidade – das poucas – de se exercitar um humano que tenta sobreviver, mal, ao fim de seu sonho modernista de liberdade, não concretizado. Ela não as faz, as narrativas, mas as problematiza.

Letras grandes e soltas, despidas de seu status de blocos constitutivos de um sentido, sentido esse necessariamente posto na sua seqüência (a bem dizer, em um futuro que nunca chega), para se tornarem, cada uma dessas letras, algo: uma forma. Ou seja, não mais cúmplices/apoios/instrumentos de uma transformação, de algo em andamento. Mas, sim, existentes, acabadas. Lá para sempre. Essa é a Porque as palavras estão por toda parte/Because words are everywhere.

Duas coisas sobre esse título.

Primeiro que ele diz das palavras em uma exterioridade que implica uma interioridade. O “por toda parte”, espacial, é falado a partir de um centro, o quem fala. E centro, bem, como dizer… Talvez nem precise. A segunda coisa é que os títulos, esse e os outros, vêm sempre em duas línguas, o que já significa apontar para um limite. E é um apontamento sofismátco, o de tal limite que não o é para os que se encontram compartilhando um mesmo código. Quer dizer, não é necessária, não são necessárias, as traduções. Nenhuma delas. Para que nos ponhamos em diálogo, em ficção. Para nos pormos em ação, andando, seguindo.

Em Ulyisses/Ulyisses a violência dessa negativa às narrativas está na ruptura da famosa narrativa de Joyce em páginas congeladas em fotos, mais uma vez com traducão “simultânea”: uma página em inglês, outra em português. Há uma outra ruptura violenta nessa obra, a de tags (sim, é proposital a passagem minha de um código a outro) que marcam supostos trechos do livro, em suas tirinhas de cores berrantes, amarelo, vermelho.

Na obra Com palavras de palavras por palavras, palabras/In words of words for words, palabras pesquei uma das frases que saem, formando um rolo enorme de papel, de dentro de uma máquina de escrever. A frase é: Decifrei o homem como um enigma de palavras cruzadas. Acho eu que o homem não se decifra porque isso seria supor que ele tenha uma natureza, uma “verdade” intrínsica, essencial, e não é assim que eu o vejo. Também não concordo com “enigma” que dá a idéia de algo imutável, uma estrutura fixa cuja chave existe, embora não disponível para leigos. E, por fim, palavras não se cruzam, mas renascem e mudam a cada encontro. Penso eu.

Na estante falsa de O labirinto/The Maze – referência à biblioteca borgiana, Borges teria um troço: os livros não são livros mas representações de livros. Mortos.

Não sei se entendi a Correspondência/Mail, um vídeo onde uma máquina de escrever muito antiga bate, letra por letra, o código dos emails: www.yahoo.com.br, além de endereços eletrônicos, ou a palavra arroba, letra por letra. Gosto da internet. Acho que essa tecnologia serve, como sempre acontece com todas as tecnologias, aos seu tempo e cultura. E um desses serviços é o de propiciar um escape a uma época de problematização do exercício de um humano: pela internet se ficcionaliza mais fácil a si mesmo e a um outro – esse “um outro” sendo elemento necessário a qualquer ficção (são sempre obras coletivas, as ficções) e nem sempre factível de ser inventado, não fora a tela a dar-lhe o álibi da distância e a imprecisão de corpo.

Complicados, os tempos.

Bem, sou eu, isso. É como me suporto. Em uma contemporaneidade obrigatoriamente incompleta, não confortável, que passa ao largo de formas fixas. Sou eu em termos, só por enquanto, é claro.

 


Elvira Vigna é escritora e crítica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Nada a dizer", 2010, Companhia das Letras.