Sun of Suns, de Karl Schroeder
Karl Schroeder. Assim, dito de uma só vez, a lÃngua enrolando no meio do exercÃcio de fonoaudiologia. É provável que esse escritor canadense seja desconhecido da maioria dos brasileiros que não têm o hábito de ler em inglês. Pela qualidade da obra, acredito que não demore muito para alguma editora nacional descobrir o apelo de Schroeder e apostar em uma tradução. Enquanto isso não acontece, comento Sun of Suns, livro de 2006 que inicia a série passada no mundo de Virga.
Imagine ver o céu em qualquer direção, não importa para onde você olhe. Virga é um universo feito de ar, um imenso balão de três mil quilômetros de extensão onde não há planetas rochosos, mas cidades que flutuam próximas uma das outras como colônias tecnológicas. A natureza que conhecemos hoje é praticamente uma lenda e convive com o estranho conceito de natureza artificial. A gravidade, claro, não é uma regra e tem que ser gerada por máquinas para manter as cidades no lugar. Não é preciso ser leitor voraz de ficção-cientÃfica para saber que um cenário como esse é ideal para uma história de… piratas. Karl Schroeder, autor de clássicos como Ventus, acertou em cheio ao romper a barreira dos gêneros e usar seu ambiente futurista para resgatar elementos clássicos de livros de piratas, com direito a lutas de espada no espaço e mapa do tesouro.
A história começa em Aerie, cidade do protagonista Hayden Griffin. Como não podia deixar de ser, a disputa por fontes de energia continua a gerar problemas, não importa a época. Em Virga, os humanos precisam construir seus próprios sóis de fusão para gerar a luz e o calor que mantém suas cidades. Os espaços entre esses sóis são chamados de “winter†ou inverno, geralmente cheio de nuvens e muito frios. O inverno é fonte de mistérios como nossos oceanos no começo da era das navegações, abrigando tudo o que a imaginação de um piloto é capaz de conceber. Quem não tem um sol, não é nada.
Em algum ponto do passado, Aerie foi subjugada pela frota migratória de Slipstream (a grande nação militar do livro) e passou a depender do sol dos dominadores para sobreviver. Um grupo de pesquisadores – incluindo os pais de Griffin – decide então desenvolver seu próprio sol para declarar independência. A informação acaba vazando por vias tortas e Slipstream faz um ataque surpresa, mata vários cidadãos e põe fim ao projeto. No meio da confusão, Griffin acaba caindo de sua nave e se perde na região do inverno, indo parar na mão de piratas com quem passa a adolescência.
A premissa a partir daqui parece óbvia. Um sujeito rebelde que perdeu os pais na infância só poderia ir atrás de vingança. A boa notÃcia é que se Schroeder não faz disso o mote principal do livro, usando a idéia apenas para alimentar os conflitos internos do personagem. Em um mundo sem gravidade, os destinos nunca são certos e tudo muda de lugar em um instante, inclusive a história. O plano original de Griffin não é exceção e ele logo se torna peça importante da caça ao tesouro, sendo obrigado a conviver de perto com quem considerava seus inimigos.
Como parte bem pensada de algo maior, Sun of Suns funciona como uma extensa galeria de personagens e situações inusitadas. Enquanto conduz a trama central, Schroeder espalha por todos os lados as sementes de mitologia que explorará nos próximos livros. Quase um livro trailer.
Sun of Suns não é o livro que mudará sua vida, o que não o impede de ser extremamente cativante e eficiente em fisgar o leitor para as continuações (até agora Queen of Candesce e Pirate Sun).
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.



































