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Contando Machado de Assis

O título já diz: “contando”. Sou muito suspeita para falar de contação de histórias porque guardo péssimas lembranças dessa modalidade narrativa. Contação de história para crianças, por exemplo, normalmente é feita de forma bem afetada, até mesmo pra chamar a atenção dos pequenos ouvintes, que se desconcentram por qualquer motivo. Toda a afetação me tira do sério… E aposto como o contador fica tão preocupado em fazer caras e caretas e modalizar a voz que nem presta atenção no que está falando. Por outro lado, descartando-se essa maneira efusiva de se contar a história, podemos cair na monotonia. Um perigo também.

Estou refletindo sobre isso para mostrar como é difícil encontrar o equilíbrio para contar histórias. Entre a irritação e o sono deve existir um lugar agradável que depende muito da qualidade da história contada e do talento de quem a conta.

Com isso quero chegar na peça Contando Machado de Assis, em cartaz até o dia 28 de setembro na Caixa Cultural (Rua Almirante Barroso, 25 – Centro/RJ). Quem dirige é Antonio Gilberto e quem interpreta é José Mauro Brant. O roteiro é da dupla.

A peça traz ao palco o badalado conto “Missa do Galo” e também “Mariana”. O autor José Mauro Brant interpreta o narrador dos contos. É como uma leitura em voz alta feita por um leitor que profundamente conhece os trejeitos e o comportamento dos personagens. É como um leitor que já leu exaustivamente a obra machadiana e agora conta para nós.

O autor é ótimo, muito seguro do que está fazendo, tem uma firmeza na voz, bem típica de quem tem talento para teatro. Os contos de Machado idem. Indiscutivelmente, são de qualidade. As sutilezas, as ironias, a trama que diz um monte de coisas como quem não quer dizer nada. Perfeito! Mas aí entra a tal da contação de histórias. Nem sei o que dizer, porque o trabalho do artista é tão difícil. Ali no palco, dando a cara a tapas. É uma exposição danada!

Por mais que o ator e os contos fossem excelentes, a contação acaba pesando e puxando as pestanas para baixo. Algumas pessoas cochilaram, algumas se viravam de um lado pro outro e cruzavam e descruzavam as pernas, talvez para espantar o sono… Uma senhora ficou 10 minutos fazendo barulho de papel de bala. Bala velha e grudenta ou uma forma de manter a colega ao lado de olhos abertos? Nunca saberemos…

Enfim, o que quero dizer é que se o ator fosse ruim e os contos mal selecionados, o espetáculo teria sido 100% soneca da tarde. Mas eu juro que não dormi!

Estréia: 05 de setembro (6ª f), às 19h30
Local: Caixa Cultural / Teatro de Arena - Av. Almirante Barroso, 25 - Centro

Horários: 4ª a domingo, às 19h30
Duração: 1h
Ingressos: R$15,00 e R$7,50
Classificação Etária: 10 anos
Temporada: até 28 de setembro na Caixa Cultural
Nova temporada no Centro Cultural da Justiça Federal: de 17/10 a 30/11

 

 

 


Juliana Porto Fontes é Mestranda em Estudos de Literatura, PUC-Rio. Bolsista do CNPq.

 

editoria: edicao_0015, teatro, em 7/9/2008

 

 

 

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