Ele Precisa Começar
Assisti a estréia de ‘Ele Precisa Começar’, com o ator Felipe Rocha, que está começando como autor e dividindo a direção com Alex Cassal. Já vi alguns espetáculos na sala Multiuso do Espaço SESC, mas nunca a tinha visto tão bem aproveitada. Dividiram a platéia em quatro blocos de cadeiras, sendo que a segunda fileira foi posta em um tablado possibilitando uma visibilidade perfeita de qualquer lugar escolhido. O cenário foi composto de forma que algumas cadeiras da platéia ficassem dispostas entre os objetos cenográficos. O ambiente é basicamente formado por mesinhas, abajures, luminárias que pediam do teto, uma secretária com um laptop, peças de roupas pelo chão e várias xícaras de café espalhadas. O som - a trilha sonora é do próprio Felipe - e as luzes - a iluminação é de Tomas Ribas - são controlados pelo ator enquanto encena. Tudo bem articulando já insinuando o tom da peça.
Ele precisa começar, ele será o narrador da história que está criando naquele momento. Ao mesmo tempo personagem e escritor, em que as noções de autor, escritor e narrador se confundem, nos descreve a cena e o lugar de um dia de outubro de 2007. Conta-nos uma história, história de um homem sozinho em um quarto de hotel que começa a escrever e nos relata todas as idéias que vem a sua cabeça, todas as coisas que poderiam acontecer.
O texto conta com os espectadores não só nas ocasiões em que participam ativamente, mas em todos os momentos, pois necessita da nossa imaginação e requer muita atenção. Participamos do processo que simula a criação. Tudo com uma bela interpretação de Felipe Rocha. As idéias surgem e nem a personagem sabe onde vão chegar, mas existe um acordo entre nós sobre as coisas que não vão acontecer. Esse é o único limite. Há muitos silêncios no texto, mas de alguma forma eles são preenchidos. Às vezes, nos sentimos até capazes de ler os pensamentos da personagem.
Ele nos conta a história, mas não executa todas as ações e quando o faz é apenas como uma forma de ilustração, recurso utilizado por um bom contador. É uma peça baseada na palavra e na expressão corpórea e ele conta com os espectadores para criar as imagens. Por exemplo, a personagem Fátima não está presente, contudo a vemos, não só quando um dos espectadores empresta seu corpo a ela, mas até quando não há nada físico que a represente. Ele nos relata até quais seriam nossas possíveis reações. Não tem como não embarcar na dele. Somos seduzidos por essa personagem sem nome, interpretada por um ator competente que nos faz acreditar que estamos mesmo participando do processo de criação. Fala o texto como se realmente estivesse escolhendo as palavras no momento que as reproduz e nos mostra até como é difícil escrever uma história. Substitui palavras, retoma e insere novos elementos etc.
Percebemos até os momentos em que ele parece não pensar mais na peça, com o som de grilos ao fundo, em que ele brinca com os objetos da mesa e ali está também criando. Transforma o relógio de pulso numa gaivota. Como um menino brincando com seus carrinhos, deixando a imaginação comandar. Não há limites no seu mundo. Simula inclusive uma crise de criatividade em que o texto empaca e uma discussão com o corretor ortográfico que não se restringe em corrigir, mas quer também escolher as palavras que ele pode ou não usar em seu texto.
No fim, ele acha que já está bom e a peça termina. Vemos o quanto é aterrador a idéia de um ponto final quando ainda se tem muito a dizer. Porém, esse não é o ultimo momento do espetáculo, na verdade, demoramos um pouco para perceber quando ela chega ao fim exatamente. Ele combina, aos sussurros, com o tal espectador-voluntário o que esse terá que fazer e brilhantemente este se transforma no personagem-escritor, senta-se ao computador, o desliga e sai da sala, talvez como um símbolo de que cada um de nós constrói a história também.
É nesse clima que a peça se desenrola. São agradáveis 70 minutos e até o espectador que se ofereceu para participar foi brilhante. São momentos engraçados inclusive, uma proposta interessante e muita competência.
Texto e atuação: Felipe Rocha
Direção: Alex Cassal e Felipe Rocha
Orientação corporal: Dani Lima
Cenário: Aurora dos Campos
Iluminação: Tomás Ribas
Trilha sonora: Felipe Rocha
Assistência de direção: Stella Rabello
Temporada: de 05/09 a 14/09 no Espaço SESC e de 19/09 a 26/10 no Teatro do Jockey.
Jarcélen Ribeiro é Mestranda em Estudos de Literatura, PUC-Rio. Bolsista do CNPq.


















