Se tivesse que escolher apenas um nome dentre o infinito número de autores de sucesso não traduzidos aqui no Brasil para simbolizar o atraso do nosso mercado editorial na área de literatura de fantasia (e, podem apostar, qualquer outra área também) esse nome seria Jim Butcher.
Cansado de ver seus romances de fantasia tradicional (Tolkien, por exemplo) recusados pelas editoras, Butcher fez um curso de escritor para tentar a sorte e se profissionalizar. Como exercício de um dos semestres, escreveu Storm Front, o primeiro livro do que seria a série The Dresden Files.
Jim Butcher tinha 25 anos quando assinou contrato e lançou o livro. Apostando na fantasia urbana, ele trouxe a história de magos para as cidades, desenvolvendo sua mitologia no centro da moderna Chicago (1996). Outra boa jogada foi misturar a fantasia com elementos de narrativa policial, criando uma série detetivesca cheia de participações sobrenaturais. Butcher foi aos poucos dando contornos próprios à fantasia urbana e seu estilo passou a ser chamado de fantasia noir, obviamente por dialogar com a linguagem do cinema noir (cheio de tons de cinza).
Na sétima arte, há muita discussão sobre o que seria afinal o noirl. Muitos dizem que ele não é um gênero em si, mas um conjunto de elementos que podem conviver bem em filmes policiais com loiras fatais, com advogados do diabo, anjos caídos ou mesmo com psicopatas enrustidos como no clássico Se7en. Não é estranho então que esse pacote de luzes e sombras pudesse atravessar outra fronteira e esbarrar também com a fantasia.
Mais de dez anos se passaram e Jim Butcher segue firme com a série narrada por Harry Dresden, um mago que ajuda a polícia em investigações sobrenaturais. Você pode não saber, mas o mundo lá fora é cheio de bruxos, necromancers, fadas, lobisomens e vampiros dos mais variados tipos. Em nove livros, Dresden teve tempo de arrumar inimigos em quase todos esses grupos. E alguns informantes também.
“Many things are not as they seem: the worst things in life never are. I pulled my battle-scarred, multicolored old Volkswagen Beetle up in front of a run-down Chicago apartment building, not five blocks from my own rented basement apartment. Usually, by the time the cops call me, things are pretty frantic; there’s at least one corpse, several cars, a lot of flashing blue lights, yellow-and-black tape, and members of the press – or at least the promise of the imminent arrival of same”.
Em White Night, Dresden é chamado pela policial Murphy para analisar um apartamento. Lá dentro, uma menina morta, aparente suicídio em um cenário incólume. Uma das habilidades de Dresden é seu faro para pistas, sua capacidade de rastrear algo no ar, resíduos de energia e coisas parecidas, mas é o aspecto de ambiente intocado que chama sua atenção. Muitas especulações depois, Harry descobre na parede uma mensagem escrita para ele, algo que só um mago poderia notar, uma espécie de cartão de visita. A hipótese de suicídio é enfim descartada e Dresden e Murphy passam a apostar em um serial killer com gosto peculiar por praticantes de Wicca.
Como todo bom livro de suspense e investigação, White Night traz muitas reviravoltas e surpresas pelo caminho. Para os leitores mais assíduos da série, o nome do livro pode servir como pista, já que Butcher trabalha com códigos de cores para situar sua mitologia, e a cor branca indica a presença de vampiros psíquicos na área.
O que destaca White Night de outros livros de fantasia urbana é sem dúvida a agilidade do texto. Tirando tudo o que é pintura e adereço, sobra a técnica precisa que o autor tem de sobra. Apesar do tamanho do livro, é pouco provável que o leitor se sinta cansado ou perca o interesse, mesmo quando Butcher resolve esticar as cenas de ação além da conta com base nos efeitos especiais.
Parte considerável do mérito da série e de White Night se deve à personalidade de Dresden. Com um humor irônico, Dresden encarna o típico detetive, didático quando precisa ser, sério aqui e ali e mordaz noventa e nove por cento do tempo. Basta substituir a jaqueta e a arma do seu investigador predileto por um cajado e sobretudo e você terá uma idéia de quem é Harry Dresden. Seu arsenal de piadas e bolas de fogo será sempre um prato cheio para os fã de fantasia.
Jim Butcher já lançou a continuação de White Night, chamada Small Favor. É também autor da série Codex Alera (com parentesco maior com mitologia grega e nada contemporâneo) e de Blackout, ilustrado por Mike Mignola, o criador de Hellboy.