Cordélia Brasil
A peça ‘Cordélia Brasil’ (re)estreou ontem no Espaço SESC Arena, em Copacabana, onde ficará em cartaz até 12 de outubro. Trata-se de um texto de Antônio Bivar, escrito no final dos anos 1960. Essa montagem tem a direção de Gilberto Gawronski e o elenco é composto por Maria Padilha, Cadu Fávero e George Sauma.
O cenário colorido, de Luiz Henrique Sá, simula uma Kitnet. O espaço é usado de forma bastante inteligente – por exemplo, o espaço que circunda o quarto também é a rua, permitindo cenas concomitantes. Esse cenário é o palco da história que gira em torno de três personagens: Cordélia Brasil, seu marido Leônidas e o jovem Rico. Para sustentar o sonhador Leônidas, Cordélia, além de trabalhar como auxiliar de escritório durante oito horas por dia, ainda precisa se prostituir à noite. Num desses programas, ela leva Rico para casa, um rapaz de 16 anos que, no desenrolar da história, acaba morando com eles.
Leônidas, esse homem sonhador de 28 anos sustentado pela mulher, é responsável pela fantasia do texto, que se expande com grande agilidade, a ponto de acabar por sobrepor-se ao real. Cordélia mostra-se apaixonada por ele e atura com brandura dois anos de relacionamento dessa forma até tomar uma decisão: tenta mudar a situação, o fazer trabalhar, mas, pelo que ouvimos, hilariamente, seu marido é incompatível com o trabalho – ele diz que é um crime um homem com sua sensibilidade ficar preso ao trabalho. Leônidas quer ser autor de histórias em quadrinhos, mas enquanto seu sonho não se realiza, e não o vemos fazer nada para que isso aconteça, passa o dia todo em casa, não trabalha em mais nada e ignora os empregos que a esposa lhe arruma. É um homem teórico, com um vocabulário rebuscado, que no fundo só queria uma companhia para seus devaneios e que, de certa forma, ama e protege a esposa – como quando não conta que o camafeu dela não sumiu, mas foi levado por sua mãe que alegou que a filha não era mais merecedora dele. Ele tem conhecimento desse outro emprego da esposa e não parece se importar, a não ser por ela não poder ficar em casa lhe fazendo companhia. Ela até lhe conta os encontros com os clientes como algo natural de um dia de trabalho e ele age com normalidade.
Já Rico é um adolescente com hormônios descontrolados que entra na história, em princípio, se opondo ao marido assexuado. Contudo, os dois tem mais em comum do que imaginam – e do que ela imagina também. O menino parou de estudar, diz que ‘está dando um tempo’, e daí já se tira algumas conclusões. Ele vai até o apartamento do casal novamente em busca de outro programa e acaba sendo convidado por Leônidas para ficar morando lá por quando tempo quiser em troca dos Cr$ 100 que ele trouxe para pagar Cordélia. Porém, mais do que o dinheiro, Leônidas mostra que quer uma companhia para os seus dias enfadonhos. Rico, em vez de despertar ciúmes, acaba ficando amigo e aderindo ao mesmo estilo de vida de Leônidas – também, quem não adoraria essa vida ociosa? Ficam os dois vagabundos em casa, enquanto Cordélia sai para trabalhar. Rico, dessa forma, aparenta ser apenas um desdobramento do marido e parece entrar na história mais para saciar as necessidades de Leônidas do que as de Cordélia. Ele gosta de ouvir o que o outro tem para contar, o que a moça já não pode mais fazer, pois passa tempo demais na rua trabalhando, assumindo, por isso, um papel importante na vida do casal.
Durante um programa com um turco, Cordélia descobre, fazendo uma introspecção, que ela não é nem uma ‘biscate’, nem uma auxiliar de escritório, nem uma dona-de-casa. Passa por uma espécie de crise existencial. Mostra que tem inveja da juventude de Rico, talvez isso os ligue, e que ainda tem sonhos: sonha em ter uma filha e ensinar tudo o que ‘essa vida maldita lhe ensinou’. Ela, por fim, toma uma decisão: manda o marido embora, manda os dois embora, e diz que dará sentido a sua vida: vai virar uma ‘putona’. Vai pintar o apartamento de vermelho e o transformar num bordel. Desiste de esperar que o marido mude, ficou esses dois anos esperando que ele, pelo menos, escrevesse um romance de sua vida, a visse como inspiração e cansa. Na verdade, acredito que não é a postura acomodada do marido que a faz desistir do casamento, mas o fato dele não a incluir nos seus sonhos. De certa forma, ela coloca as esperanças em Rico, na paixão que ela o julga sentir e no fim se frustra também. Achou que o menino se transformaria num gigolô, não que ficaria ali com aquela carinha de anjo com uma postura similar a do seu marido.
Em meio a essas frustrações, contadas de forma cômica, Leônidas aparece com uma granada dizendo que a guardou esse tempo todo para um dia explodir aquele apartamento, mas decide que agora embarcará no sonho do menino – que em outro momento pergunta se é fácil arrumar emprego na marinha mercante -, dizendo que agora vai usar a granada para explodir o navio. Já que ele não conseguiu ser quadrinista, se transformará em uma personagem de histórias em quadrinho e transformará Rico também. Saem de cena e escutamos o barulho da explosão. Cordélia e nós concluímos que a granada explodiu e os dois morreram. Então, ela decide cometer suicídio tomando remédios. Enquanto espera a morte faz reflexões sobre a vida, deita-se na casa, pensa em escrever uma carta explicando tudo e percebe que não tem a quem explicar e nem o que explicar. Entretanto, fica feliz ao lembrar-se que deixou a marca da sua passagem na Terra: umas fotos em que pousou nua para um fotógrafo americano. Arrepende-se de ser tão impulsiva e lembra-se de uma frase que é também o título original desse texto: “o começo é sempre difícil, Cordélia Brasil, vamos tentar outra vez“, enunciação que ela nem lembra mais quem lhe disse, mas acha que foi a professora de economia doméstica.
Percebemos, em meio a um texto que, às vezes, parece não ter pretensão nenhuma além de entreter, que as vidas das personagens não têm sentido. Pelo menos, não separadas, pois assim que a relação entre os três acaba, acaba também a vida em si. Fim trágico, mas talvez o único que caberia nessa história. É uma peça leve, uma comédia suave. Texto agradável, criativo, munido de vários momentos cômicos muito bem executados pelos atores. Muitas vezes, o conteúdo dos diálogos é que torna tudo tão engraçado, pois não acreditamos que as pessoas são capazes de dizer certas coisas num relacionamento com tanta naturalidade. Interessante também é a forma como são expostas as situações, situações que hoje, quarenta anos depois, já não chocam ninguém – ou quase ninguém, nunca se sabe -, mas que não perderam sua essência. Enfim, são bons momentos de descontração.
Texto: Antônio Bivar
Direção: Gilberto Gawronski
Elenco: Maria Padilha, Cadu Fávero e George Sauma
Espaço Sesc
Informações: (21) 2548-1088 ramais 228, 255 e 229
Rua Domingos Ferreira, 160
Copacabana, Rio de Janeiro/RJ
Jarcélen Ribeiro é formada em Letras pela UFRJ, com especialização em Literatura Brasileira e mestrado em Estudos de Literatura, ambos pela PUC-Rio.































