Ensaio sobre a cegueira, de Fernando Meirelles
Na cegueira tradicional, o indivíduo está isolado na escuridão. Nesse vazio visual, nada existe além da própria percepção do entorno feita de um desdobramento dos sentidos na tentativa de compensar a inexistência da imagem. O corpo é o único limite seguro e conhecido.
Do extremo oposto, a cegueira proposta por Saramago é branca e por isso une. Mais ainda, ela aglomera, obrigando a uma inversão na sociedade. Na cegueira branca a individualidade precisa ser abandonada por questão de sobrevivência. Nela não existem nomes nem sobrenomes, apenas talentos e adaptabilidade. Andar de mãos dadas com o desconhecido é o único meio de alcançar um objetivo ou (por que não?) inventá-lo. Povoado de vultos, o branco fluido insiste na lembrança de algo que passou, obrigando a uma vivência contínua do passado, presente e futuro. Não é só o ambiente que perde seus limites. Na massa unificada da branquidão o tempo também é afetado. Coexistem a lembrança, o desafio e a esperança em cada fração de segundo, pois viver só do presente é sucumbir à idéia de que temos um papel menor em nosso próprio destino.
É natural do homem a cegueira, a capacidade de enxergar o que lhe interessa e filtrar o que não importa no momento. Tão natural quanto é a metáfora utilizada em Ensaio sobre a cegueira para tratar do homem em seu estado caótico, do que é o homem quando o conceito de sociedade se esvai, conceito esse que curiosamente só depende do próprio homem e mais ninguém. O problema é que a humanidade é um coletivo e o que é sociedade para um homem pode não ser para outro, e nessa tentativa de imposição de nossos preceitos de ordem, do choque de duas ordens diferentes, temos o caos em seu estado natural até que dois caos também se confrontem. O branco, o símbolo da paz, o símbolo do justo, pode não ser tão pacífico e justo do outro lado.
Ao levar Ensaio sobre a cegueira para as telas, Fernando Meirelles sabia que tinha muito mais do que uma história de Saramago para contar (concordo que isso não é pouco). Nas linhas sem pontos, nos diálogos de vírgulas, nos parágrafos de páginas inteiras, havia além dos acontecimentos um emaranhado de sensações, uma explosão de sentidos atentos e feridos pelo branco agudo e é isso que primeiro salta aos olhos no filme de Meirelles. Fica claro que o diretor trabalhou cada cena desde a composição de cores até a escolha de ângulos e movimentos de câmera. Nada está lá por acaso, seja um nu ou o tilintar da tesoura.
Na história, um homem fica repentinamente cego no meio do trânsito. O que parece um caso estranho e isolado logo se espalha levando muitas pessoas à cegueira branca. Para tentar contornar o problema, especialistas no assunto se reúnem pelo mundo, mas não chegam a nenhuma conclusão. Quando a situação começa a complicar, o governo decide colocar os cegos de quarentena, usando para tal fim um antigo manicômio desativado, cenário de noventa por cento do filme. Lá dentro, não há médicos nem enfermeiros, os cegos só podem contar consigo mesmos para achar a comida, ir ao banheiro, tomar banho e manter suas sobras de dignidade. Dentro desse mundo cego, há uma única mulher que enxerga, a esposa do oftalmologista (Mark Ruffalo dando um upgrade na carreira) que atendeu a primeira vítima da cegueira. Ela finge estar cega para acompanhar o marido e ajudá-lo, logo descobrindo que precisará ajudar centenas de pessoas de maneira poucos convencionais.
A personagem de Julianne Moore assume o fardo por completo. Guia os pacientes, ajuda que achem camas, que tomem seus banhos e sobrevivam.
O manicômio é dividido em três alas. Enquanto as duas primeiras estão cheias, chega-se a um acordo democrático para tudo o que acontece. Porém, quando a terceira ala é ocupada, a aparentemente incontestável democracia é rejeitada. O personagem de Gael García Bernal declara-se o rei da ala 3. Lá, a democracia não vale nada. Ele faz o que quer e o que bem entende, impondo sua ordem sobre as demais. É essa imposição que faz o filme andar. As atrocidades seguem ritmos angustiantes, culminando na cena (famosa depois da exibição de Cannes) do estupro coletivo e dá derradeira transformação da personagem de Julianne Moore. Ao beirar o absurdo, a imposição do rei dá lugar ao choque de duas ordens distintas, levando ao caos sanguinolento e libertador que conduzirá ao fim da trama.
De modo geral, a premissa de Ensaio sobre a cegueira não apresenta nada de inovador. Uma virose disseminada sem explicações leva o mundo ao desequilíbrio ao derrubar o conceito de sociedade. Não é difícil imaginar que isso obriga os homens a agirem como animais para sobreviver. É um espaço típico para a criação de heróis, inimigos inescrupulosos e do gado sem rumo que faz figuração. Certamente você já viu ou ouviu isso em algum lugar.
Mas é inerente ao cinema a capacidade de transgredir a história contada fazendo um grande filme no somatório das partes. Ensaio sobre a cegueira mostra Fernando Meirelles em um novo patamar de domínio de direção, uma evolução incrível de seus filmes anteriores para cá. Apesar da inúmera quantidade de personagens, você provavelmente se lembrará do rosto de quase todos, mesmo que não tenham nomes ou histórias regressas para ajudar. Meirelles lembra Kubrick em diversas cenas, com o preciosismo rígido de um dando lugar aos movimentos fluídos do outro. A trilha sonora é outro destaque, trabalhada para não deixar que os olhos comandem o jogo por tempo demais, missão difícil diante das manobras da equipe de fotografia que cuidou de cada detalhe branco, cada roupa, cada prato, cada cena com a luz estourada.
Mesmo que não seja perfeito e que faltem momentos de “uau” no percurso, Ensaios sobre a cegueira traz um punhado de cenas belíssimas é um grande trabalho de Meirelles, como já provado pelas lágrimas de Saramago.
Em tempo 1: fica minha torcida para uma indicação de Julianne Moore ao Globo de Ouro e ao Oscar.
Em tempo 2: ainda falta a Meirelles descobrir que o sexo às vezes pode ser apenas sexo e nada mais.
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.







































