objeto algum
objeto algum, de Rodrigo Guimarães, publicado pela 7letras, recebeu agora em 2008, junto com Érico Nogueira - O Livro de Scardanelli, o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura, na categoria Poesia. O psicólogo Rodrigo Guimarães, mestre em Psicologia Social e doutor em Literatura Comparada, é poeta e ensaísta. Publicou na área de Psicologia Social os livros Ação e vida e Aids: olhares plurais. Em poesia, publicou Olhares, Vestindo águas (menção honrosa no concurso Redescoberta da Literatura Brasileira) e Celacanto (Prêmio Nacional Vereda Literária Uni-BH). Atualmente, é pesquisador da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig) e da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes).
O seu livro objeto algum é algo além do que se vê. Tem que se estar disposto a lê-lo, com boa vontade mesmo, senão os poemas não fluem ou fluirão sem entendimento. Serão lidos, não apreendidos. Não passarão de um amontoado de palavras, o que nenhum poema quer ser, convenhamos. Porém, não começamos sua leitura de forma desavisada, pois, além das boas palavras de António Sérgio Bueno na orelha do livro, temos também a epígrafe como conselho: “a pressa não preme as sinapses necessárias para desentranhar o corte”. Conselho, pois nos faz refletir que, às vezes, a pressa pode ser inútil. Bom isso, já que temos pela frente justamente poemas para serem lidos vagarosamente. Aliás, não são poemas para serem apenas lidos, são poemas para serem refletidos. A beleza do significado não nos é dada de graça, requer uma atenção especial do leitor.
Nesses poemas, as palavras ultrapassam seus limites, e os objetos, através dessas palavras, excedem seus contornos. È um trabalho de percepção, com um olhar concentrado, dedicado, que requer do leitor também esse olhar minucioso, “cabe que um olhar se acumule” para não ceder ao peso dos desvios. Muita coisa está fora do papel, circulando ao redor do livro, seja uma palavra que não está ali impressa – mas a colocamos involuntariamente ao lado de outras logo após terminar de ler um verso – seja uma imagem que nos ocorre e sai lá do fundo das nossas lembranças – o que, com certeza, irá variar para cada leitor. Isso fez com que eu ficasse com a nítida impressão de que, por mais que eu me esforçasse, não conseguia perceber todas as intenções expostas ali. Acho que têm coisas nesses poemas que eu não consegui ver, simplesmente. Não sei se é a janela ou são os meus óculos que estão embaçados – aqui, retomo o poema “incógnita”: “para que serve / uma janela / se falta um olhar / que a atravesse”, acho que me falta esse olhar. Nem sei se é uma impressão real, ou só uma sensação por ter em mãos poemas que talvez queiram passar justamente esse tipo de sensação: a de que existem coisas além do que podemos perceber – “pormenor”: “se diante do desacerto / decidiu-se pelo óbvio, / talvez não tenha visto / o que à primeira vista / não se vê”. Enfim, independente do motivo, me incomodou e me senti feliz por ter algo incomodando.
O livro é composto por duas partes. A primeira, denominada “Sem título”, é composta por versos quase sempre curtos, pelo menos mais curtos do que os da segunda parte, e a segunda, “Objeto algum”, apresenta versos bem longos. É impossível deixar de comentar a disposição do texto nessa segunda parte: impressos verticalmente na folha, fazendo que o livro tome o formato de um bloco – o que me pareceu uma estratégia para que os versos, dessa forma, tivessem seu espaço garantido, mantendo assim sua integridade física, se é que versos têm integridade física.
A construção dos poemas encontrados aqui ressalta a importância dos espaços em branco e preto da folha de papel. Há um belo trabalho poético com o signo lingüístico, em que é nítida a exploração do significante no texto por meio de recursos visuais. A carga semântica dos vocábulos e a disposição geométrica das palavras na página são bem marcantes. Por meio de uma linguagem direta, econômica, Rodrigo Guimarães procura mexer com o leitor, exigindo participação ativa, já que os poemas permitem múltipla leitura e, percebendo esse aspecto, o leitor sente-se tentando a esgotar as possibilidades.
Rodrigo utiliza o poema como objeto da linguagem criando uma tensão de palavras-artefatos. Tomemos como exemplo o poema “por um fio” que apresenta uma estrutura silábica: somente uma sílaba em cada verso, compondo um fio de letras que formam vocábulos monossílabos ou dissílabos. Outro interessante poema é o “da participação totêmica à admiração antropológica”, composto por apenas quatro palavras distribuídas em dois versos: “com ele, / como ele”.
Sem métrica, sem rimas, com pontuação peculiar – é comum os poemas não apresentarem vírgulas, pontos, nada -, em que o poeta, na segunda parte, onde os poemas lembram aforismos em linguagem poética, usa espaços longos entre as palavras como pausa, onde não há nem mesmo letras maiúsculas para indicar o início de frases, o vemos trabalhar a “arquitetura de visibilidade”: “por isso o recuo necessário para perceber os movimentos que transformam banalidades em exigência”, invisibilidade que “se deixa ver mesmo afastando do visível e ao entrar lentamente dentro de seus passos” – poema “deslocamentos”.
Os poemas de objeto algum versam, principalmente, sobre o olhar demorado que o eu-lírico dedica aos objetos – poema “voyeur”: “o olhar é um utensílio / até mais não ver / o inespecífico, / os acúmulos que / se refinam em arestas.” Às vezes, parece que a percepção além do óbvio não é resultado somente do olhar atento, mas decorrência da vontade do próprio objeto de se denunciar, que faz questão de se desnudar para esse eu-lírico. Objetos que podem sugerir que são aparentemente indiferentes, mas quando expostos a essa contemplação vão além e mostram-se integrantes do mundo e ainda indicam consciência dos seus papéis.
Em “frágil”, nos três últimos versos, o eu-lírico comenta essa sua forma de olhar: “presumo porém ter descoberto outra forma de olhar um movimento involuntário / executado sem me dar conta e a dúvida sempre a dúvida / de tê-la aniquilado antes de conhecê-la”. E isso me ajudou, se ele ficou em dúvida, me senti mais à vontade para ficar também sobre várias coisas que encontrei nesse livro.
Jarcélen Ribeiro é formada em Letras pela UFRJ, com especialização em Literatura Brasileira e mestrado em Estudos de Literatura, ambos pela PUC-Rio.



































