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ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

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26/09/2008

Pietro de Maria

Quando eu conheci Pietro de Maria em 2006, tocando o terceiro de Prokofiev, no Theatro Municipal, ele me impressionou bastante. Naquela época, e ainda hoje, eu tinha o concerto bem nítido na minha cabeça, e foi engraçado, porque concordei com absolutamente tudo o que ele fez.

Embora tenha achado seu toque por vezes delicado demais para Prokofiev, sua visão da obra era perfeita. Naquela ocasião, pude reparar outra característica dele: a qualidade, muitíssimo rara, de achar as vozes secundárias escondidas sem se sobrepor às vozes primárias. Lembro que ele tocou, de bis, o estudo Op.10 Nº3 de Chopin, e que fez saltar, do meio do acompanhamento ‘monótono’ da mão esquerda, bem no finalzinho, uma frase maravilhosa e comovente, daquelas que gruda na cabeça e não sai mais.

Dia 20, no Municipal, Pietro tocou os 4 Scherzi de Chopin, o concerto 21 de Mozart, o Concerto de Dvořák (no worries, just say “Dvôrjac”) e, de bis, um noturno de Chopin e a Polonaise Heróica.

Dos scherzos(*), gostei especialmente do 2 e do 4, principalmente do 2: a delicadeza típica do Pietro estava lá, claro, mas veio junto com um tamanho de som e uma ferocidade que são completamente necessários à obra. No 4, novamente, toda a sutileza foi aproveitada em prol do lirismo e do bel canto. As seções corridas feitas num maravilhoso jeu de perlé, a seção lírica central de enorme profundidade, e a coda absolutamente arrasadora, catártica. “Arrasadora” não no sentido comum das codas de Chopin. Não foi aquela coisa tipo furacão, como a coda dos outros 3 scherzos. A obra que é representada pelo conjunto dos 4 scherzos denota claramente a evolução de Chopin no seu próprio estilo. Eles vão ficando menos e menos agressivos, até chegar no 4, onde não há, absolutamente, nenhuma agressividade. As seções intensas e de grande massa sonora não são, como nos outros, seções altamente virtuosísticas ou de efeito, mas são seções em que todas as notas e intenções tem um sentido explícito, na direção exata do emocional do ouvinte. No scherzo 4, cujas melodias não são óbvias nem previsíveis, cuja harmonia é mais complexa do que nos outros, e, notoriamente, o mais difícil, Chopin põe pra fora toda a sua intensidade e densidade emocional. Uma coisa difícil de explicar, já que vai de encontro aos parâmetros que temos. As catarses musicais em geral (com raras e belas exceções) são violentas, aliás, não só as musicais. Eu acho incrível a beleza das catarses violentas e avassaladoras. Mas, talvez por isso, e por isso ser tão inerente à minha própria personalidade, quando eu me deparo com uma catarse puramente emocional, sem os elementos paroxísticos aos quais eu estou acostumado, eu sou pego desprevenido, indefeso, e isso tudo bate bem no fundo da alma.

Os pianistas – aliás, os músicos em geral – têm que fazer algo com a platéia: emocionar ou impressionar. Há, claro platéias mais ou menos difíceis de se emocionar ou impressionar. Mas, em geral, nós pianistas nos preparamos para icebergs.

Pietro emociona e impressiona, pois ao mesmo tempo é sutil e intenso. Seus fortíssimos são como uma marretada, só que a marreta sutilmente revestida de veludo.

Ocorreram alguns problemas no intervalo (e após o primeiro Scherzo também), problemas com o piano. São problemas inerentes a todo pianista, você nunca sabe o que te aguarda em cima do palco. Não sei ao certo qual a magnitude do problema, mas, se existiu alguma diferença entre o que o Pietro quis fazer e o que efetivamente ele fez, não fui eu, nem ninguém na platéia, quem percebeu.

O concerto 21 de Mozart é também conhecido pelo apelido “Elvira Madigan”, um filme sueco de 1967. É um dos concertos preferidos da platéia. Não tenho muito o que comentar, foi um bom Mozart. Não aquele que te levanta do chão, mas foi suficiente pra prender a atenção da platéia por uma boa meia hora, o que já é um feito e tanto.

A orquestra fez bem o que uma orquestra deve fazer: não atrapalhou nem fez nenhuma barbaridade, então tudo bem.

Depois, um concerto pouquíssimo ouvido, o concerto de Dvořák. O Richter cita esse concerto na sua biografia, como sendo uma obra pela qual ele quis tocar desde a primeira vez que ouviu. Cita também que alguns pianistas da União Soviética naquele tempo tinham um certo preconceito com Dvořák, que não fazia parte do repertório tradicional. Pouco depois, ele diz que é uma das obras mais difíceis que ele já tocou, junto com a quinta sonata de Scriabin, as Variações Paganini de Brahms e a Valsa Mephisto de Liszt.

O concerto é muito bonito, aliás. Não segue o padrão a que estamos acostumados de desenvolvimento de um concerto. Os movimentos, embora sigam a tradicional divisão de rápido – lento – rápido, se estruturam separadamente de uma forma diferente. Começam com um tema, em modo menor, que é desenvolvido, em crescimento de intensidade emocional, musical e virtuosística, até chegarem numa reexposição dos temas, em modo maior.

Mais uma vez, as catarses poéticas.

Frente aos incessantes aplausos, Pietro nos deu de bis um noturno maravilhoso de Chopin, Op.27 Nº2, um mar de calma. Eu acho interessantíssimo a construção dos noturnos de Chopin: é como sentar pra tomar um chá, calmamente, num barquinho que vai afundar, no meio de uma tempestade.

Pietro, como Horowitz, “nos fez dormir”, não literalmente, é claro. Entraram todos num estado intimista e letárgico. Esse próprio noturno contém uma pequena catarse, também.

Aplaudimos, ainda, com as forças que nos restavam. Pietro compreendeu que estávamos cansados, mas só os braços. Os ouvidos queriam mais.

O coup de grace veio, então: a Polonaise Heróica. Tocada num andamento insano, com fortíssimos retumbantes. Não tinha o que reclamar, foi, literalmente, “Heróica”.

Chamo atenção para a genialidade da construção do programa. Os 4 Scherzos, um conjunto catártico. O Mozart funciona como um sorbet, para chegarmos no Dvořák, outra catarse. Temos então, os aplausos, que são o segundo sorbet. E, por fim, a última catarse, preparada com o noturno e externada com a Polonaise.

Nas palavras de uma senhora da platéia: “Depois de Pietro, sabe o que eu quero? Mais Pietro!”.

(*) nota do autor: sabemos que o plural correto é scherzi, entretanto optamos por uma grafia mais natural ao nosso idioma, para uma melhor compreensão do texto.

 


Pedro Taam é pianista, graduando em Física Médica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e editor do Aguarrás.

Pietro de Maria



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