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E isso agora de escrever a resenha sobre um livro que resenha e que comenta as resenhas que outros já fizeram sobre autores consagrados da literatura portuguesa, como Eça de Queirós, Cesário Verde, Fernando Pessoa e Almada Negreiros. São desafios multiplicados os dos que analisam as obras de grandes nomes na época em que ainda caminham para sê-los. Olhar sobre o ombro é, convenhamos, uma tarefa mais simples por já sabermos onde as peças se encaixaram no fim das contas. E olhar sobre os ombros dos ombros, nem se fala. Por isso a análise do passado carrega outros fardos, e implico consistentemente por aqui com o de tornar o objeto de análise acessível e interessante e fazer do texto crítico algo tão ou mais agradável do que o texto analisado. É uma tarefa difícil, não duvidem disso. Fiquei então muito feliz (me permitam o prazer de vez em quando) ao descobrir em Tiranias da Modernidade um livro extremamente agradável e simples de ler, feito para ampliar o conhecimento e não para restringi-lo aos rocamboles ortográficos acadêmicos.

Sendo assim, nada mais de entortar as frases, vamos direto ao assunto.

Tiranias da modernidade é composto por ensaios sobre autores portugueses de prosa e poesia. Estão lá o sempre bem-vindo Eça de Queirós, Fernando Pessoa, Almada Negreiros e Cesário Verde. Esse último foi um verdadeiro presente. Não sei como pude passar tanto tempo sem conhecer a poesia urbana de Cesário (que já chamo assim, íntimo, pelo primeiro nome, como um motorista de celebridades). Mas nada de derramar elogios ao poeta português, deixe-me voltar ao livro de Izabel Margato e se eu me desvirtuar do assunto, a culpa é dela que me apresentou o poeta.

Tiranias da Modernidade propõe um ponto de convergência entre os realistas da Geração 70 e os modernistas da Geração Orpheu, que ajudaram o modernismo a chegar de vez na literatura portuguesa. Um dos pontos que mais me chamou a atenção, e que por certo se remete ao título, foi esse atropelo repentino sentido por Portugal, com a modernidade chegando pelas fronteiras, dançando nos trilhos dos trens, mostrando-se nas roupas e costumes e contagiando a literatura. Do mundo fragmentado (talvez mesmo pulverizado) de hoje nos esquecemos que a literatura representa um algo mais do que contar histórias. É um retrato, mesmo que borrado depois da chuva, das mudanças de seu tempo. Ver, absorver, digerir e regurgitar pode ser doloroso. E o que os autores portugueses analisados por Izabel Margato perceberam, cada um ao seu modo, foi o total descompasso com a modernidade da Europa. Portugal, que foi potência em seu movimento de saída da Europa e na busca por outras terras, se vê novamente perdido, um estranho dentro da hegemônica modernidade.

“É essa compreensão tensa da modernidade que me interessa. (…) Dentro desse raciocínio, a ambigüidade vivida por essa geração vai muito além do sentimento contraditório expresso por pensadores ou artistas da época em relação à sociedade moderna. Para os homens da Geração 70 portuguesa, a modernização não pode ser vista apenas a partir da dicotomia ‘vazio de valores’ e ‘abundância de possibilidades’. Para eles, um outro dado assume maior relevo: a impossibilidade de pertencer plenamente a essa nova realidade hegemônica e ao mesmo tempo excludente”.

Ah, essa tal modernidade. Como alcançá-la? Como lidar com a dor do entendimento e processamento produzindo algo que leve ao novo e saia da segurança da mesmice. Desde que o mundo é mundo uma boa maneira de ir adiante e propor a mudança é criticar o presente, ironizá-lo, despi-lo diante dos olhos do povo e dos próprios grupos ironizados. Foi o que fez Eça de Queirós em sua obra, como mostram os inúmeros exemplos do livro. A popularidade dos livros e as vendas impressionantes mostram que ele estava certo. Também faz parte do processo de mudança que alguém comece a ler a nova realidade, a tentar entendê-la com outros olhos, e na época esse papel cabia aos autores, à literatura. A transformação da poesia de Cesário Verde de uma dualidade campo-cidade realidade para um desmembramento interpretativo da cidade é um dos melhores textos para explicar um longo processo de mudança do olhar que ecoa até hoje, mudando apenas o objeto em questão.

“Se os poemas mais realistas de Cesário convocam a particular beleza do cotidiano para a cena do poema, essa circunstância não se confunde, ontologicamente, com a perspectiva linear e positivamente realista da época. O olhar ‘objetivamente duplo’ torna precária a concepção de arte como imitação ou reprodução do real. Na medida em que ele resulta de uma visão de mundo contrária aos costumes, aos usos e às regras de percepção do real. Nesse sentido, a ‘poética do imprevisível’ inaugurada por Cesário é muito mais produtora do que reprodutora de sentidos de realidade, onde a banalidade cotidiana (…) já vem transfigurada (…)”.

Como de hábito, me pergunto quem é o público do livro que estou lendo. Tiranias da Modernidade tem um público amplo. Cabe aos que se interessam pelos autores analisados, pela transformação de Portugal como sociedade, com a triste diminuição da popularidade da literatura, pela personalidade fragmentada de Pessoa e também pelos que querem entender nossa época dando uma espiada rápida no passado. É um livro com um espaço a preencher dentro e fora do meio acadêmico.

Essa força que quebra o hermetismo permitindo comparações com o presente, não pelo texto em si, mas pelo olhar despojado da autora, já vale por si só a leitura.

E ainda tem Cesário verde…

Só para não deixar passar a informação: Izabel Margato é professora de literatura portuguesa do programa de pós-graduação em Letras da PUC-Rio e reconhecida pesquisadora de literatura portuguesa contemporânea. São dela também O papel do intelectual hoje e Literatura/Política/Cultura.

Tiranias da Modernidade
Izabel Margato
85 páginas
Editora 7 Letras

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  1. By Resumão de leituras « Skavis - prateleira virtual on 27 Dec 2008 at 12:30 am

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