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Nem parece, mas o tempo também voa na fantasia e na ficção. Bem, talvez na ficção o tempo voe literalmente, em máquinas altamente capacitadas para disparar raios de anacronismo, mas na fantasia o relógio avança diferente e mesmo os vampiros e imortais estão lá apenas para nos lembrar de que diante daquele esbanjamento de sedução, nós, autores, ganhamos todos os dias rugas e cabelos brancos, encarando de dentro o envelhecimento do qual fugimos na literatura.

Mas o passar do tempo também trás coisas boas, claro. E no terreno da literatura fantástica quem vem marcando presença desde 2002 é a revista Scarium, que resiste em edições impressas (em papel, lembra disso? Faz um esforcinho, vai), divulgando autores novos e já consagrados do nosso mercado.

A cabeça por trás desse projeto é Marco A. M. Bourguignon, que ocupa basicamente todas as funções na produção da revista, no melhor estilo canta, dança e representa. Como ninguém é de ferro, ele conta com a ajuda da jornalista Lara Chateaubriand, Mônica Santos e os co-editores Gabriel Boz e Giulia Moon. A Giulia, diga-se de passagem, é uma escritora vampiresca de mão cheia e foi responsável pelo meu contato com o número 22 da Scarium que resenho aqui.

As edições da Scarium são temáticas e fazem um apanhado de autores, misturando gerações. No começo, havia um endereço online que divulgava a revista em papel. Aos poucos, o site foi ganhando autonomia para divulgar eventos e notícias, e talvez um dia use a bocarra da informática para engolir de vez o papel. Apesar da alma de fanzine, a Scarium ficou com cara de revista encorpada e esse número chegou a 74 páginas divididas em doze contos, uma resenha e uma entrevista. O tema da vez foi histórias de Lobisomens.

Mesmo sendo tão conhecidos quanto os vampiros, os lobisomens nunca desfrutaram do mesmo sucesso, talvez por culpa de filmes que ajudam a impregnar no imaginário popular dramas limitados ao confinamento e aos efeitos especiais. Sem contar aquela história de sempre perder a roupa no dia da transformação. Dramas terríveis. O que acho interessante no lobisomem é que ele consegue ser universal e ao mesmo tempo ter uma ligação com o folclore brasileiro, mantendo-se vivo em regiões do interior do país. Ainda assim, é capaz de assumir um aspecto urbano, evocar algo de xamanismo e ritos pagãos, manter um diálogo com temas ecológicos (preservação) e por outro lado ser uma máquina destruidora em sua versatilidade de abordagens.

Na literatura, os vampiros continuam em vantagem, mas o desenvolvimento da literatura fantástica nacional deve equilibrar esse cenário. Antecipando a tendência (ou o desejo incontido do resenhista), a Scarium mostra como quem não quer nada que o personagem também pode gerar histórias interessantes e que o horror não precisa ter medo se romper certas tradições dos gêneros.

Das doze histórias, cinco me chamaram mais atenção e são essas que destaco abaixo.

No conto de Giulia Moon (Vampiros no espelho e outros seres obscuros, A dama morcega), o cenário é urbano e grande parte do clima se desenvolve em uma festa gótica. Um homem segue uma mulher pela noite e pelos modos de cada um fica difícil saber quem será a fera da relação. A grande sacada é explorar um cenário tipicamente vampírico, adequando os arquétipos ao lobisomem. Mais para o final, os personagens chegam a uma fazenda e junto com a história Giulia faz uma transição de estilo, como se houvesse ali o encontro de duas literaturas. Premissa de lado, destaque paraé a narrativa de Giulia, que demonstra nas entrelinhas domínio da escrita.

Mariana Albuquerque (O pássaro e o rochedo, Coração de demônio) adota uma abordagem que vi poucas vezes e que me agrada bastante: dissociar a força da fera da brutalidade do corpo. A figura do lobisomem passa a encarnar um viés mais libertador e a transformação acontece mesmo é com o espírito, habitando o mundo dos sonhos, sem deixar claro o que é real ou não. O final não traz surpresas, mas como a história não é construída em cima de nenhum mistério isso não compromete o resultado final. Mesmo etéreo, o lobisomem de Mariana faz estrago.

O conto de Gabriel Boz é o de estrutura mais inovadora. A história se passa em algum ponto do futuro em que uma peste transformou parte da raça humana em licantropos. O conto é narrado por um soldado lobisomem, mas no formato blog, com direito a intervalos intermináveis entre um post e outro e até mesmo comentário de outros soldados. Para melhorar, os ingredientes futuristas encontram a mitologia egípcia na figura do lobisomem mais imponente de todos os tempos: o deus Anúbis.

Tibor Moricz (Síndrome de Cérbero, Fome) aposta na ironia e propõe uma inversão de papéis na dinâmica das transformações. Seu narrador é meio cafajeste e se comporta como um lobo velho (babão) que vira homem de vez em quando. No meio da noite, ele filosofa sobre o preconceito que tem consigo mesmo (metáfora para a idade?) e pensa no que as lobinhas lá fora diriam se soubessem de sua fraqueza humana.

Explorando também o preconceito, Rita Maria Felix da Silva é ainda mais radical. Em sua história, os lobisomens exterminaram a raça humana e dominaram o planeta, reconstruindo um simulacro de sociedade que tem a violência como eixo. Sua protagonista é uma lobisomem aprisionada em corpo de humana. Professora, ela tem que agüentar a valentia dos alunos e tentar manter a ordem, lembrando um pouco os filmes americanos sobre escolas violentas ou a nossa realidade em algumas escolas públicas. O conto tem reviravolta desnecessária no final, mas nada que comprometa a boa escrita de Rita.

A revista traz ainda contos de Renato Arfelli, Mônica Virgo, Emir Ribeiro, Marco Bourguignon, Helena Gomes, Roberto de Souza Causo e Waldick Garret.

Em tempos de e-zines acessados por milhares, é difícil saber por quanto tempo a Scarium continuará sendo editada em papel. O fato é que a revista continua a cumprir sua função de divulgação da literatura de ficção, fantasia e horror.

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