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A poetisa Telma Scherer, autora também de Desconjunto, Mestre em Literatura Comparada pela UFRGS, publicou esse ano, pela 7Letras, Rumor da Casa. A casa de Telma Scherer é o espaço da tessitura da sua escrita. A poetisa tece os poemas – “Nessa casa há porão e nem saída, / e as agulhas ainda dançam na minha mão.” – como a personagem do livro Vó Elza tece a vida. O lápis, ou algo do gênero, é a sua agulha e o fazer poético é intimamente ligado ao rumor: “Penetram-me / palavras / mais que todas / no pulso / sons / sobre muros / de silêncio / e olho / sons / sobre o mundo / e dentro: / dentro de mim / há o soco / do som”.

Nessas poesias são evocadas memórias e vê-se o confronto entre dois tempos. Percebi essa casa como representante de um espaço perdido de raízes, da extinção de seres queridos e de uma perda da própria chama interior. A idéia da casa, casa da avó, condensa a força expressiva, já que é, ao mesmo tempo, matriz, centro gerador da vida, lugar do carinho, do afeto e do acolhimento. Ouvir os rumores dessa casa é uma forma de retornar ao acolhimento amoroso das origens, manifestando a nostalgia de um tempo. A casa é a figura da avó, é família, é infância, é o lar, é referência, é o passado, é saudade. Casa composta por recordações, sentimentos, vazio – “Na casa vazia / passou a fome de brilho. / Passou o gosto da fruta / ficou o copo na pia. / Grudou no sulco do chão / o rabo de um rato morto. / Poeira nos travesseiros / restos de cera queimada. / A sombra da mulher morta / está sentada na sala. / Agulhas ainda repousam / num ponto roto da manhã.”

Casa da palavra com rumores em versos, em que o eu-lírico possui um ouvido atento, sensível, e o leitor tem a possibilidade visitá-la por meio dos sons. São 45 poemas, sem preocupação com a métrica, onde escutamos uma forte voz feminina. Alguns poemas possuem também um erotismo marcante e outros a personificação da casa. Como nos versos de Ferreira Gullar citados como uma das epígrafes – “Debaixo do assoalho da casa / no talco preto da terra prisioneira, / quem fala?” – em Rumor da Casa também se tem a percepção das vozes escondidas pelos seus cômodos e a necessidade de questioná-las.

Em “Vó Elza cuidava da casa”, poema escolhido para a contra-capa, Vó Elza é a própria casa, ela mesmo se tece, e a voz lírica revela, na última estrofe: “Sempre achei / que os fios entre seus dedos / não passavam / de cordões umbilicais.” Essa personagem, que entrelaça os fios dos poemas, tece a vida, gera vida, gera memória, gera sons, sentimentos, que vemos retratados nas poesias – “Vó Elza é uma trama / de náusea / e silêncio”.

Esse livro me fez recordar, em algumas passagens, o poema “Aniversário”, de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa. A mesma sensação que me vêm quando leio “O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa, / Pondo grelado nas paredes… / O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas), / O que eu sou hoje é terem vendido a casa, / É terem morrido todos, / É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio…”; veio também, por coincidência, em alguns versos de Telma, como “O silêncio da casa vazia. / O silêncio das mobílias, dos retratos. / O silêncio do quarto da avó, fechado. / O silêncio de papéis em branco, / de sutiãs apertados sob a blusa. / Nenhum som, nenhum prurido. / O silêncio surdo, / o silêncio ensimesmado dos mortos, / o silêncio das suicidas. / O silêncio de filhos que partiram, / e que não voltem!”. O que me deixou feliz, porque poucas coisas me deixam tão feliz quanto poemas dos vários Pessoas.

O silêncio dessa casa incomoda, faz ruídos, rompe o significado de silêncio. Esse silêncio é o som do vazio em que se perdeu a sensação de totalidade dada pela vida em família. Silêncio porque a casa se fechou em ausência – “Pior é o silêncio”: “Não deixar escapar / o canto / onde o dia e seus resíduos / limpos / sábios / amordaçam a sala. / Pior é o silêncio que espera / paciente / e sem falta / até que a luz deste banheiro / até que o canto da cozinha / e a mancha na parede / lhe pareçam / ensurdecedores.”

Casa da poesia, em que, ao mesmo tempo, ela é material que a compõe e o lugar onde se abriga. É a casca e o conteúdo da casa. É o elemento da essência. Poesia que abriga sensações, rumores, pensamentos. É casa, mas não só. Casa em que as janelas são como livros: “As janelas para azul e para o negro / abro e fecho uma a uma, como livros.”

São poemas em que o eu-lírico mostra-nos que conhece as reentrâncias dessa casa cheia de ruídos: “Conheço as reentrâncias desta casa. / Conheço as falhas no carpete, os vidros, os cantos de pó. / A mancha na mesa de madeira, / o sulco na parede da cozinha, / o furo para o quadro que não veio. / Conheço os brilhos desta casa. / Na manhã, o sol que invade a sala, o quarto escuro. / Conheço a dança das luzes no assoalho / – e mudam se deito ao contrário. / Conheço os cheiros desta casa. / O lixo da cozinha, sabonete, xampu. / Conheço o calor do banheiro, no verão. / O cheiro da televisão novinha. O mofo nos armários.”

Casa que abriga uma “menina apavorada” que “presta atenção aos ruídos” e, ao mesmo tempo, não é só menina, mas a velha que tricota para poder pensar “e às vezes fura a agulha com a mão”. Onde observei uma forte imagem do fazer poético, em que se é capaz de romper com o óbvio e dizer muito mais. A voz-lírica se expande, toma conta da casa inteira, vai de menina à velha em instantes. Voz que em “Eu caio do medo ao caos”, vê os vultos escuros das mulheres assombradas – Sarah, Virginia, Ana C, Clarice, Sylvia – e sua fala parece o eco de outras vozes – “É você ou sou eu nessa dança de cordas”; “Clarice, é você atrás do galho / ou sou eu que sussurro?” -, mas não se confunde – “Ela arde de sol ao meu lado. / Maquiou-se de Clarice e nada vale. / Será sempre a mesma e pura Telma.”