Flora Assumpção e Renato Pera
A intervenção na vila onde fica a Galeria Emma Thomas, no dia 4 de outubro de 2008, me fez voltar a pensar no maneirismo. É um assunto que tem estado na minha cabeça.
Flora Assumpção e Renato Pera projetaram o desenho de uma serpente na parede cega de um sobradinho antigo da Rua Augusta. A intervenção – que durou apenas duas horas – se chamou Morning star ou Serpiente emplumada.
Tem sempre algo que escapa às palavras, que você só saca vendo, mas mesmo assim eu vou tentar.
Foi uma época de quebra de paradigmas. Ou é. E vou parar por aqui porque não acho que comparações de épocas históricas diferentes tenham interesse maior do que a superficialidade do anedótico.
Mas ando prestando atenção no universo iconográfico dos games, na literatura fantástica – que faz um retorno mais para o triunfal em bienais e em prateleiras de livrarias. E nos instrumentos de fascínio visual de alguma arte contemporânea.
A cobra na parede do sobradinho tem, no seu verde químico e no seu traço computadorizado, a presença do que, ainda sem nome, estamos começando a chamar de pós-humano.
O sem nome.
Está bem, uma comparação. No XVI, o sem nome tinha o nome de América, a descoberta que, junto com a reforma protestante, aniquilou as certezas católicas que formavam a identidade européia.
Nosso sem nome vai nascer no buraco obsoleto (deixado lá por mera nostalgia) de alguma xoxota biônica. E a partir daí, não se trata mais de pós nada, mas sim, da coisa em si. Não é coisa. É, sei lá.
(E um aparte: já tentamos de tudo para manter a ilusão de uma identidade própria desde que ficou claro não sermos totalidade alguma, centro de nada, nem nunca o termos sido. Saber nosso mapa genético é a última dessas tentativas. Seremos, suspiramos esperançosos, nosso mapa genético. Assim que pudermos encomendá-lo. Ou, pelo menos, tentamos nos convencer disso, esquecendo que, junto com o mapa genético, virá a possibilidade de modificá-lo.)
À primeira vista você pode considerar a cobra e seus companheiros iconográficos um exemplo da infantilização que grassa em um mundo capitalista que entupiu tanto de comida e objetos os que dele fazem parte que agora viramos todos uns crianções mimados. Só pensaríamos, então, em nos divertir – e da forma mais imbecil possível, ou seja, através de virtualidades fantasiosas.
Mas, acho eu, tem caroço por baixo desse angu.
Pode ser que tantos seres híbridos de poderes ídem tenham a mesma função, nem um pouco infantil, que tiveram os contos de fada em seu exercício de preparação social para uma realidade árdua que ia ficar mais árdua ainda. Quem leu Bettleheim e seu A psicanálise dos contos de fadas sabe do que estou falando. Quem não leu devia ler: a infância nunca mais lhe será a mesma.
A cobra verde é aposta sobre uma parede insossa. A banalidade do cotidiano é assim sobrepujada pelo brilho falso de uma droga ou de uma luz ou de uma possibilidade. Um por-que-não-? implícito. E a latente ameaça – que vem como sempre com sua irmã gêmea, a atração – de tal verde cobra tem a vantagem de todas as fantasias: trata-se de ameaça/atração controlável, pois feita, quer dizer, de autoria, origem, conhecida.
Um preparo para o não-controle, um trailer, um making of apaziguador. Veja, é assim, habitue-se.
E agora o titulo. Preste atenção: morning star, serpiente emplumada. O campo semântico do ovo da segunda, do novo dia da primeira.
Como eu disse, palavras não dão conta da lógica abrangente e não seqüencial de um impacto estético.
Você não foi lá e não viu. Perdeu.
(Ah, é a foto saiu ruim, sorry.)
Elvira Vigna é escritora e crítica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Nada a dizer", 2010, Companhia das Letras.



































