01. Como é ser autora de tirinhas no Brasil? Existe vida além dos grandes jornais?
É muito recente no trabalho que faço me considerar uma quadrinista. Apesar de publicar em jornal desde a adolescência, me achava uma desenhista metida a escrever quadrinhos. Parece idiota, mas um rótulo pode mudar tudo. Quando comecei a colocar as tiras na internet e a repercussão aumentou, veio esse peso da autoria, as pessoas passaram a me ver como uma referência no assunto. Mas a verdade é que estou aprendendo a fazer quadrinhos. Algo que começou de forma empírica agora vem ganhando substância, por conta de estudo, observação e uma dedicação maior de minha parte também.
Já pensei muito sobre essa coisa de estar no Brasil e a dificuldade de vender o trabalho para grandes mídias… No final, acho que se o trabalho é bom, é bom. Ganhar a vida é difícil, sempre, tanto quanto choramingar é inútil. A gente tem que trabalhar e forçar a porta. Precisamos ter a consciência de que não é necessário uma “força superior” para determinar a qualidade do que fazemos.
A internet abriu infinitas possibilidades para a divulgação dos quadrinhos, principalmente das tiras. Os quadrinistas vêm usando o espaço virtual principalmente como laboratório, onde podem ter resposta e interferência imediata dos leitores. A esperança é que as editoras estejam atentas a isso e diversifiquem a produção física de quadrinhos a partir das tendências experimentadas na rede mundial.
02. Qual a origem dos Bichinhos de Jardim? Foi difícil chegar a um endereço próprio com pagerank 5 no Google?
Os Bichinhos de Jardim são o resultado de muitos anos observando animais pequenos e curiosos no quintal de casa. O micromundo onde eles moram é uma réplica da sociedade maluca em que vivemos. Já a popularidade do site vem crescendo aos poucos, com a ampliação de parcerias e, mais do que tudo, pela divulgação boca-a-boca. Tudo a passos de Caramelo, posso dizer. Mas o que me deixa mais feliz é a fidelidade dos leitores, que têm um carinho real pelos personagens. E essa do pagerank 5 (agora está 6, parece) é pura sorte. Pra falar a verdade, nem entendo bem como isso funciona.
03. Me parece que a inspiração mais direta para as tirinhas são situações cotidianas. Qual a sua estratégia de comunicação com o público? O que é preciso existir no espaço curto de uma tirinha para estabelecer o elo com o leitor?
A tirinha é uma piada rápida. Não é fácil explicar a dinâmica da sua construção interna, porque depende de um tempo muito próprio. O que pode ajudar a compreender isso é um mergulho em boas referências: quadrinhos, filmes, peças e outras obras que trabalhem o humor de forma inteligente dão a dica de como fazer uso da linguagem.
04. Como você estabelece os limites de personalidade dos personagens? É difícil fazer com que um não assuma falas que deveriam ser de outro?
Sou bem cuidadosa em relação à quantidade e à diversidade dos personagens. Por muitos anos, só existiram Caramelo e Brigitte, no jornal impresso. Com o site e a maior freqüência de criação de histórias, veio a necessidade de nascerem os outros. Mas procuro não pensar demais sobre eles. Não crio listas de características, sigo um caminho experimental. Mas você está certo, é preciso um equilíbrio entre as personalidades e eu atuo como um malabarista, daqueles que rodam pratinhos em cima de palitos. E sou estabanada, não posso colocar muitos pratos de uma vez…
05. Um dos grandes destaques da tirinha Bichinhos de Jardim é o Meleca, uma lagartixa muda. Ele é o contra-ponto dos demais personagens, incrivelmente falantes. Qual foi sua intenção ao criar o Meleca?
Eu não tinha intenção nenhuma, Meleca era um simples figurante. Mas entendo que ele tenha cativado o público por ser pequeno, vulnerável. Dá vontade de cuidar. O que eu acrescentei a ele mais tarde foi a qualidade de ouvinte. Acho bonito o silêncio. A gente está numa era de ação. Temos que escolher, falar, interagir, fazer uploads, criar blogs, enfim, encher o mundo de dados, de ruídos. E sem perceber, matamos a pausa, a escuta, a contemplação…
06. Pensando no papel de revistinhas como a Turma da Mônica no mercado nacional, você acha que a revistinha é uma evolução natural das tirinhas? Que um dia veremos Clara Gomes nas bancas de jornal?
Quando eu era criança sonhava em ter minha própria revistinha. Só que isso pede uma rapidez e um volume de material muito grande, normalmente de histórias mais longas e não é o que eu faço. Mas espero ter uma obra interessante o suficiente para ser reunida em um livro algum dia.