Um dos fatores determinantes da qualidade de um livro é a sinceridade do autor na abordagem do assunto. Quem lê com freqüência já deve ter esbarrado por aí com picaretagens da modernidade. O autor se veste de periférico e diz retratar todas as minorias que o permitam ganhar dinheiro. Toma banho com sabonete hidratante, mas transpira miséria em cada linha que escreve. É mais ou menos o que faz Claudio Assis no cinema, é o que fazem outros na literatura.
Na literatura fantástica, mudam os temas, permanecem as armadilhas. Mas dessa vez mesmo os fãs ressabiados podem ficar tranqüilos.
De Roswell a Varginha tem na sinceridade a sua maior qualidade. É um livro feito por alguém que entende do assunto, mas que principalmente gosta do que está falando e não tem pretensões de reinventar a roda. O autor, estudioso de ufologia, usou o tema com respeito para escrever uma história em que ficção e realidade se esbarram a todo instante. No meio da leitura é difícil não se perguntar o que foi fruto de pesquisa e o que é simples invenção. A vontade de que seja um relato documental quase supera a ansiedade da linha ficcional.
De certo modo, acho que todos torcem para que exista algo que nos faça arregalar os olhos novamente, que nos faça gritar surpresos, que traga de volta o sentimento infantil de encarar o desconhecido pela primeira vez, me permitam a redundância. Esse algo pode assumir diferentes contornos durante a vida. Pode ser um filme no cinema, um livro arrebatador, podem ser fadas, duendes, um ménage bertolucciano, o primeiro salário ou um OVNI rondando nossas cabeças enquanto esperamos um contato.
“O jipe finalmente chegou ao local, depois de passar por quatro postos de controle. O oficial que viajava nele desceu, e o veículo deu meia-volta retornando à Base de Roswell. Ainda naquela noite, o motorista amedrontado e espantado seria transferido para o sudeste asiático”.
O formato de thriller investigativo deve agradar em cheio quem gosta de ufologia ou tem alguma curiosidade por casos estranhos como o de Varginha. Renato foi esperto ao fugir do esquema “agentes especiais” e equipar seus protagonistas apenas com o necessário.
Na maior parte do tempo, o leitor acompanhará Roberto Monteiro, jornalista que também escreve artigos para revistas de ufologia e para um informativo virtual sempre pronto para revelar conspirações bombásticas. Ele é uma espécie de alterego do autor, que já foi membro do conselho editorial da revista UFO e colaborador da Sci-fi News. Roberto Monteiro é amigo de infância e amante de Lígia Barros, uma policial federal que conduz parte da trama. Os dois vêm de família de tradição militar e é nesse passado em comum que está a primeira ligação com aparições de OVNIs no céu do Brasil.
O livro começa na cidade de Novo México narrando os incidentes de Roswell, talvez o caso mais famoso da ufologia mundial. Nessa parte, Renato apresenta Reynolds, um especialista de inteligência militar que teria ajudado a encobrir os fatos lá nos Estados Unidos e mais tarde teria vindo ao Brasil. Depois disso, o autor passa para o Forte Itaipu, relatando um incidente em que militares foram feridos ao entrar em contato com um objeto estranho que sobrevoou o local. Mais um salto e estamos finalmente em Varginha, a menina dos olhos dos ufólogos brasileiros, que segundo estudiosos do assunto teria nos dado uma importante moeda de troca em acordos tecnológicos.
Renato conta em forma narrativa parte do que aconteceu em Varginha, plantando as sementes da trama que será explorada durante o romance.
“Os dois homens não sabiam o que fazer. O objeto era circular, com uns trinta metros de diâmetro e completamente silencioso. Emitia um fantasmagórico brilho alaranjado, e os soldados ainda estavam paralisados quando ouviram um zumbido mais forte (…) Antes que pudessem se abrigar, suas fardas entraram em chamas. Ambos gritavam e tentavam fugir, enquanto já se ouvia movimento no forte”.
Renato A. Azevedo foi esperto ao fazer um livro rápido, sem pesar demais a mão em filosofias existenciais ou na explicação do inexplicável. Seu maior deslize está no relacionamento entre alguns personagens, que não agregam nada a trama principal e não complementam os protagonistas, dando a impressão de estar sobrando. Os exemplos mais óbvios são a reunião da família de Roberto Monteiro (com pequenos pontos que não levam a lugar nenhum) e os beijos e afagos de Roberto e Lígia com seus namorados, que funcionam mais como fetiche do que como personagens. Renato poderia ter aproveitado o espaço para explorar melhor à tensão entre os dois amantes-protagonistas, que crescem em profundidade quando estão juntos, e são de longe mais interessantes que o pai militar chatinho de Roberto (quantos erres), com o velho discurso de ovelha negra da família.
Como era de se esperar, os pontos fortes do livro surgem quando o tema fica mais evidente, o que demonstra a paixão de Renato pelo assunto. Estão lá as manobras do exército, as fontes que sabem de tudo, os relatos de testemunhas e até um trio abertamente inspirado nos Pistoleiros de Arquivo X, chamado aqui de os Faroleiros.
Em épocas de extrapolações e distopias, é legal ver uma ficção-científica que volte a dialogar com o nosso imaginário mais comum. Como costumo dizer, se ETs não existiam antes, agora nós já os criamos. Se eles aparecem no livro? Só lendo para saber.
Em tempo: Fica a sugestão de uma revisão mais caprichada e uma limpa nas vírgulas na segunda edição.
De Roswell a Varginha
Renato A. Azevedo
Tarja Editorial
103 páginas.