A posição do narrador é a de uma testemunha que fala o que vê.
E a posição da testemunha é sempre muito complicada: ela estará sempre dentro e fora do discurso, sempre falará em uma primeira e terceira pessoas verbais, ao mesmo tempo. Quando essa fala se dá através de miniaturas, o efeito retroativo da significação fica mais acentuado. Miniaturas estão longe, por isso as vemos pequenas. Seu campo semântico inclui a diminuição de tamanho da perspectiva clássica, e a infância.
A exposição Pequenos formatos, no SESC-Paulista (parte da Mostra SESC de Arte – 2008), tem uma predominância de narrativas em suas ceninhas armadas.
O sujeito – ou o cara que fala – hoje está sendo definido exatamente assim, na impossibilidade de se estabelecer um agenciamento que nele nasça. Sujeito é o cara que fala, que enuncia – não importa mais o quê ele fala nem se é nele que tal fala se origina. Ele apenas enuncia. Ele é, portanto, um momento de uma linguagem.
A complicação com miniaturas é que esse momento de linguagem tem seu tempo presente posto também no passado. O processo de sujeitificação vira uma construção histórica. E pomos uma testemunha virtual, fantasmagórica, ali. Uma sombra que inventamos para nossa comodidade, para melhor dialogar com essa outra testemunha, a que se coloca em outro plano, de onde nos conta uma narrativa em uma ceninha montada. Está, essa testemunha que armou a ceninha, em um tempo que não é o nosso, inalcançável, e de lá nos provoca a tristeza dos sujeitos perdidos.
Não é mais o espelho lacaniano onde a distância, entre o eu e esse outro que a mim espelha, trabalha a favor da sujeitificação possível. Aqui, a distância que problematiza – para não dizer impossibilita – a sujeitificação nossa de cada instante é a soma de duas distâncias: a distância que vai entre testemunhar algo e falar do que foi testemunhado, e a distância que há entre a miniatura (que é o falar do que foi testemunhado, a narrativa) e minha estatura, meu ouvido.
Não é bem distância. Estão longe, é certo, mas porque estão efetivamente lá, na sua frente, se põem então em outro plano, outro tempo. É algo em paralelo. Um significado que corre ali do lado, pertinho e inatingível, um passado presentificado em forma de ironia. (Rá, achou que eu serviria para alguma coisa? Eis eu, brilhoso, tipificado, ridiculamente pequeno – e presente.)
E inútil para a construção de um sujeito vivo entendido como um momento de linguagem viva. Ou a linguagem está morta e encolhida para que o sujeito – aquele, o fantasmagórico – fique vive. Ou o sujeito/momento de linguagem está estratificado, preso (e portanto morto) em algum ponto distante de uma linguagem que se mantém viva pela ironia e pela sua eficácia no presente.
E o engraçado é que ao se pôr em tal posição impossível, essa testemunha/narrador/artista se mostra contraditoriamente em seu melhor. É a miniatura o melhor testemunha/narrador/artista das pontes queimadas da contemporaneidade. Ao vê-las sabemos que as perdemos. E em frente com o que, na melhor das hipóteses, é uma transição.
São sete, os artistas da mostra.
Rafael Campos da Rocha, Nazareno, Leonilson (com obras fundidas depois de sua morte) e Rosa Paulino são os narrativos. De Nazareno já falei em vários sobrearte e sempre bem. Gosto de seu pathos, de sua perversidade. Há uma espera em tudo que ele faz, um passado que não se completou, um dia que não acabou e que ficou lá, com seus restos, para sempre. No SESC ele trouxe algumas de suas caminhas com colchões impecáveis, de mármore, que nada amassa. Há cadeirinhas em círculo, aguardando um pronunciamento importante de um enviado que nunca chegou. Um monte de pedrinhas e suas pás/colherinhas de prata, cujos trabalhadores foram até ali tomar um café e não mais voltaram.
Rafael Campos da Rocha usou muito bem o espaço expositivo. Em uma das obras, pôs um minúsculo bonequinho de capitão de navio e um tubarão de plástico, tombado, no canto de um grande suporte quadrado de acrílico, perfeitamente limpo e vazio. Então vemos o drama de um homem que enfrenta e vence um tubarão e… e nada há a fazer com essa vitória.
De Leonilson há uma escadinha de bronze que vai do nada a lugar nenhum (sai do ar e chega à parede cega) e alguns de seus desenhos em hidrocor sobre papéis rasgadinhos com frases pela metade, registrando cenas sem importância, testemunhando o que ninguém viu. Um deles diz: “e eles não viram que ela corria com a boca vermelha em chamas.”
Rosana Paulino narra um processo sexualizado mas tão lento, tão lento, que, tendo começado em algum momento do passado remoto, pode muito bem ter se fossilizado sem ninguém notar. São casulos em uma parede. Deles saem pentelhos pretos em alguns, óvulos semicobertos em outros, conchinhas/bucetas em terceiros, e por aí. Tudo muito parado, velho, morto, mas com sua ameaça de vida por eclodir, mas com uma quase-certeza de que a vida não mais eclodirá.
Os outros três são Walton Hoffman, Nino Cals e Efraim Almeida.
Walton Hoffman é o mais cerebral de todos. O que a narrativa faz com o tempo, ele faz com a superfície espacial de seus objetos. São um aviãozinho e um sobradinho, ambos de acrílico. Acontece que eles são formados por peças como as de um quebra-cabeça. Ou seja, é um 3D (são objetos) formados por uma superfície que nos remete a algo em 2D. Se, nos artistas narrativos, a complexidade de uma cena imagética é esmagada em sua dimensão temporal para que nos fale de outro tempo fora do tempo, de um momento interrompido que insiste em sua dimensionalidade estreita, aqui os objetos se avolumam de uma superfície plana por um instante e nos dizem que a qualquer momento a ela podem voltar.
Nino Cals empilha passados, todos mais ou menos iguais, em um monte que os desresponsabiliza por qualquer participação no processo de sujeitificação. É uma pilha de xicrinhas e bules de porcelana, em cima de uma pilha de toalhinhas bordadas.
E Efraim Almeida mostra suas casinhas de madeira. E dois quadrinhos terríveis: um gato e um cachorro, carimbados em um papel, no testemunho de uma domesticidade que pode ser repetida ad infinitum.
Perguntei a um dos guardas da exposição se ele tinha gostado das peças. Disse que de algumas, e apontou para o tubarãozinho e seu capitão vitorioso, de Rafael Campos da Rocha. Disse que também tinha gostado dessa. Animado com minha concordância, tirou do bolso uma lupa e disse:
“Veja lá, que incrível.”
Fui ver. No bonequinho realmente minúsculo estavam pintados botões cavanhaque, uma insígnia no quepe. Devolvi a lupa agradecendo. O guarda pôs no bolso e me olhou, perdido. Um quê de aflição. Como pode, tanto detalhe (e tanta vitória) para nada.
Acho que de todos os visitantes da exposição, esse guarda deve ter sido um dos que mais a entenderam.
Chamava-se Newton, ou Nilton, não sei. E eu não saber também faz parte do que eu – e ele – vimos.