Três Cadáveres
Quando peguei para ler Três Cadáveres de Fialho de Almeida, a primeira coisa que me veio em mente foi a obra de Carlos Ruiz Zafón, A Sombra do Vento. Nela, Zafón cria a Biblioteca dos livros esquecidos. Quem entra lá tem a missão de escolher um livro e manter sua história viva até passá-lo adiante. Aquele um autor que pouco editou e vendeu provavelmente estará por lá (se algum exemplar escapou da reciclagem). Chega a ser engraçado, já que Zafón é best-seller mundial, mas levanta a velha questão da memória, do que realmente define o que é legado e o que é esquecimento.
Fialho de Almeida participou ativamente do meio jornalístico e literário. A novela Três Cadáveres foi publicada em 1883 no jornal O Atlântico, com o título de “A doente 27”. O texto foi reescrito mais tarde e passou a integrar o livro O País das Uvas (que você ainda encontra por aí). Esse foi o terceiro livro de contos de Fialho, que também se destacou como cronista.
O que chama atenção na obra de Fialho de Almeida é o enfoque mórbido dos retratos que faz da miséria, flertando com doença e morte sem muitos pudores. Mesmo que se utilize de ironias pontuais, Fialho se distancia da maioria dos autores portugueses que atacavam a burguesia na tentativa de pegar carona no sucesso de Eça de Queirós. Esse é seu grande atrativo.
“A primeira noite foi triste. Havia ratos. Uma chuva antipática, muito fina, descia calada sobre os lamaçais da rua; e ao fundo dum boqueirão soturno ouvia-se o rio mugir, e chamarem para os barcos as vozes prolongadas dos barqueiros”.
Em Três Cadáveres, Fialho de Almeida conta a história de um médico (Fialho estudava medicina) que acompanha o caso de Marta, uma mulher com doença terminal largada à própria sorte. O autor usa Marta como canal para explorar os sentimentos do médico em diversas situações. Ao mesmo tempo em que se sente atraído por ela fisicamente, o doutor não pode devotar-lhe mais do que seus cuidados profissionais, criando um dilema comum aos romances da época. Mais tarde, quando a morte anunciada se concretiza, o médico sente o peso da culpa que carrega nos ombros (pela morte de Marta e por todos os desamparados do mundo). A parte mais interessante fica por conta de uma viagem onírica pela consciência do protagonista, representada na história como um passeio pelo mundo dos mortos.
O texto de um escritor português de 1883 não é um livro para muitos. Mas Três Cadáveres flui bem no formato de bolso e não apresenta construções mirabolantes que assustem o leitor, o que aumenta seu potencial. Se Fialho conseguirá escapar da Biblioteca dos livros esquecidos só o tempo dirá. Por enquanto, o autor ainda tem quem cuide de sua história.
Três Cadáveres
Fialho de Almeida
Posfácio e fixação de texto: Maria Helena Santana
Livro no formato de bolso com 97 páginas.
Editora 7 letras.
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.







































