Aguarras 35 Aguarras 34 Aguarras 33 Aguarras 32 Aguarras 31 Aguarras 30 Aguarras 29 Aguarras 28 Aguarras 27 Aguarras 26 Aguarras 25 Aguarras 24 Aguarras 23 Aguarras 22 Aguarras 21 Aguarras 20 Aguarras 19 Aguarras 18 Aguarras 17 Aguarras 16 Aguarras 15 Aguarras 14 Aguarras 13 Aguarras 12 Aguarras 11 Aguarras 10 Aguarras 09 Aguarras 08 Aguarras 07 Aguarras 06 Aguarras 05 Aguarras 04 Aguarras 03 Aguarras 02 Aguarras 01.jpg

ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

Facebook Twitter RSS
14/10/2008

O funcionário e a música

Zé Al – José Alberto Salgado – trabalha com música em práticas diversas e também em áreas acadêmicas. É professor e pesquisador da Escola de Música – UFRJ. Publicou poemas e letras em A Fumaça do Caipira, pela 7Letras, em 1997, e composições musicais no cd Zarpar. Agora, em 2008, também pela 7Letras, volta a publicar poesias com o livro O funcionário e a música – com capa dele mesmo.

No preâmbulo temos a informação que O funcionário e a música é continuação de A Fumaça do Caipira, que “personagens e noções que aqui são recorrentes aparecem lá inicialmente.” e outros passam a participar das histórias, “contracenando com os mais antigos, de perto ou à distância.” Mesmo sem ler o outro livro – que é o meu caso – o leitor percebe a presença desse caipira – pelo menos, a sua fumaça está visivelmente presente. Não é uma continuação com pré-requisito, o leitor se ambienta com facilidade. Os temas pertencem ao cotidiano comum, a voz lírica privilegia a descrição e torna as poesias claras e o tom, às vezes, de prosa, lembraram-me crônicas.

As epígrafes tratam da rotina. Uma é do Antonio Candido – “Quem deseja cortar amarras com a rotina deve mesmo arriscar altos e baixos (…)” – e a outra, acredito que seja do próprio autor, já que não tem nenhuma referência – “Rotina santa que me guarda (…)”. E a “rotina” das epígrafes realmente aparece nas poesias. Aparece diluída nas descrições – “Pela janela verei minha mãe, / verei minha avó / e essa visão desentupirá meu nariz. / Meu avô voltará do trabalho, / pela enésima vez. / O relógio vai cantar / e a porta se abrirá feliz.” -, como questionamento – “como poderia ficar à vontade / para escapar a rotina, / para fugir ao dever?” -, ou como limitação – “Até que outra série de mazelas burocráticas / ou vícios sociais / venham de novo acorrentá-lo sob luzes fluorescentes,”. São poemas que me passaram a imagem de um eu-lírico observador das várias facetas da rotina, em que a poesia seria justamente essa respiração dos momentos livres e reflexão das mais diversas idéias do seu dia-a-dia.

As poesias de Zé Al possuem um vocabulário que nos remete à idéia da “volta”. “Volta”, elemento da rotina, que aparece de diversas maneiras, assim como ela. Às vezes, como uma espécie de releitura, como no poema “Mesmo poema em dois momentos” – “O emaranhado turvo, / as raízes retorcidas / não dirão mais só sofrer. / Virão com a fumaça de blues / outras idéias silenciosas / e um sentimento já normal: / virão com fumaças de som.” -, em que o segundo momento desse poema reflete, com muita habilidade, toda a idéia de rotina que vamos tendo contato ao longo do livro, pois retoma e estende o significado, relê e acrescenta, avalia e aplica na própria poesia, na forma da repetição: “O emaranhado turvo, / as raízes retorcidas / não dirão mais só sofrer. / E depois de cantarolar, / virão outras noções filosóficas, / alguma notícia comentável / e um sentimento já normal.”

O eu-lírico de O funcionário e a música foca seu olhar sobre coisas comuns. Objetos – como uma maçaneta – personagens literários conhecidos, personalidades famosas, lembranças, pessoas desconhecidas. Algumas vezes, possuem um tom crítico, como, por exemplo, “Dois momento no banco”, II: “Longa fila de idosos, / mais longa ainda a do monturo: / banqueiros quaquimiliardários / riem de todas as caras. / Investcenter de deseducação, / investimento na desintegração / de consciências, de sensibilidades.” Olhar demorado que a própria voz lírica reconhece: “Exagera o poeta, dirá o leitor, a leitora. / Ora, acontece é que, diante dos significados, / já vistos ou por descobrir, / até agora estou explorando / o que aconteceu ali.”

Em outros momentos, os poemas me pereceram críticas aos que não olham atentamente, mas a grande parte trata mesmo de assuntos diversos: um estado de espírito, familiares, sentimentos, reflexões próprias, acontecimentos, fatos, imagens. Outras vezes, tratam até mesmo da própria escolha entre as inúmeras opções que o mundo oferece e que perecem passíveis de serem pensadas e quem sabe até de se fazer poesia para esse atento eu-lírico- “Na primeira hora dessa manhã, / diante de opções, / posso pensar no poema / iniciado na manhã anterior; / posso embalar no sonho / e continuar discutindo educação; / posso pensar na garota de ontem; / posso pensar no problema / de estar dividido entres mundos que apitam.”

Não senti emoção alguma com essas poesias, sinceramente, mas reconheço bons momentos de reflexão que irão permanecer e serão associados imediatamente ao Zé Al poeta. Um desses momentos merece ser integralmente transcrito, aliás – o belo “soneto ‘João Pessoa’, 2002″ -, sua beleza merece ser apreciada sem intermediários e vai revelar um pouco mais do que o leitor encontra em O funcionário e a música:


Eu sou Zé Trindade,

aguardando atendimento

na repartição do filme.


Eu sou Mazzaropi,

Esperando o momento

do carimbo grandioso.


Estou na fila desde 1940

e o funcionário foi ali,

saiu e volta já.


Eu sou o restolho de povo brasileiro,

se é que algum dia ele existiu.

Estou com um maço de papéis,

suando o paletó,

esperando ser chamado pela senha,

sentado em labirinto de poetas.

 


Jarcélen Ribeiro é formada em Letras pela UFRJ, com especialização em Literatura Brasileira e mestrado em Estudos de Literatura, ambos pela PUC-Rio.

O funcionário e a música



tags:


artigos relacionados