O funcionário e a música
Zé Al – José Alberto Salgado – trabalha com música em práticas diversas e também em áreas acadêmicas. É professor e pesquisador da Escola de Música – UFRJ. Publicou poemas e letras em A Fumaça do Caipira, pela 7Letras, em 1997, e composições musicais no cd Zarpar. Agora, em 2008, também pela 7Letras, volta a publicar poesias com o livro O funcionário e a música – com capa dele mesmo.
No preâmbulo temos a informação que O funcionário e a música é continuação de A Fumaça do Caipira, que “personagens e noções que aqui são recorrentes aparecem lá inicialmente.” e outros passam a participar das histórias, “contracenando com os mais antigos, de perto ou à distância.” Mesmo sem ler o outro livro – que é o meu caso – o leitor percebe a presença desse caipira – pelo menos, a sua fumaça está visivelmente presente. Não é uma continuação com pré-requisito, o leitor se ambienta com facilidade. Os temas pertencem ao cotidiano comum, a voz lírica privilegia a descrição e torna as poesias claras e o tom, às vezes, de prosa, lembraram-me crônicas.
As epígrafes tratam da rotina. Uma é do Antonio Candido – “Quem deseja cortar amarras com a rotina deve mesmo arriscar altos e baixos (…)” – e a outra, acredito que seja do próprio autor, já que não tem nenhuma referência – “Rotina santa que me guarda (…)”. E a “rotina” das epígrafes realmente aparece nas poesias. Aparece diluída nas descrições – “Pela janela verei minha mãe, / verei minha avó / e essa visão desentupirá meu nariz. / Meu avô voltará do trabalho, / pela enésima vez. / O relógio vai cantar / e a porta se abrirá feliz.” -, como questionamento – “como poderia ficar à vontade / para escapar a rotina, / para fugir ao dever?” -, ou como limitação – “Até que outra série de mazelas burocráticas / ou vícios sociais / venham de novo acorrentá-lo sob luzes fluorescentes,”. São poemas que me passaram a imagem de um eu-lírico observador das várias facetas da rotina, em que a poesia seria justamente essa respiração dos momentos livres e reflexão das mais diversas idéias do seu dia-a-dia.
As poesias de Zé Al possuem um vocabulário que nos remete à idéia da “volta”. “Volta”, elemento da rotina, que aparece de diversas maneiras, assim como ela. Às vezes, como uma espécie de releitura, como no poema “Mesmo poema em dois momentos” – “O emaranhado turvo, / as raízes retorcidas / não dirão mais só sofrer. / Virão com a fumaça de blues / outras idéias silenciosas / e um sentimento já normal: / virão com fumaças de som.” -, em que o segundo momento desse poema reflete, com muita habilidade, toda a idéia de rotina que vamos tendo contato ao longo do livro, pois retoma e estende o significado, relê e acrescenta, avalia e aplica na própria poesia, na forma da repetição: “O emaranhado turvo, / as raízes retorcidas / não dirão mais só sofrer. / E depois de cantarolar, / virão outras noções filosóficas, / alguma notícia comentável / e um sentimento já normal.”
O eu-lírico de O funcionário e a música foca seu olhar sobre coisas comuns. Objetos – como uma maçaneta – personagens literários conhecidos, personalidades famosas, lembranças, pessoas desconhecidas. Algumas vezes, possuem um tom crítico, como, por exemplo, “Dois momento no banco”, II: “Longa fila de idosos, / mais longa ainda a do monturo: / banqueiros quaquimiliardários / riem de todas as caras. / Investcenter de deseducação, / investimento na desintegração / de consciências, de sensibilidades.” Olhar demorado que a própria voz lírica reconhece: “Exagera o poeta, dirá o leitor, a leitora. / Ora, acontece é que, diante dos significados, / já vistos ou por descobrir, / até agora estou explorando / o que aconteceu ali.”
Em outros momentos, os poemas me pereceram críticas aos que não olham atentamente, mas a grande parte trata mesmo de assuntos diversos: um estado de espírito, familiares, sentimentos, reflexões próprias, acontecimentos, fatos, imagens. Outras vezes, tratam até mesmo da própria escolha entre as inúmeras opções que o mundo oferece e que perecem passíveis de serem pensadas e quem sabe até de se fazer poesia para esse atento eu-lírico- “Na primeira hora dessa manhã, / diante de opções, / posso pensar no poema / iniciado na manhã anterior; / posso embalar no sonho / e continuar discutindo educação; / posso pensar na garota de ontem; / posso pensar no problema / de estar dividido entres mundos que apitam.”
Não senti emoção alguma com essas poesias, sinceramente, mas reconheço bons momentos de reflexão que irão permanecer e serão associados imediatamente ao Zé Al poeta. Um desses momentos merece ser integralmente transcrito, aliás – o belo “soneto ‘João Pessoa’, 2002″ -, sua beleza merece ser apreciada sem intermediários e vai revelar um pouco mais do que o leitor encontra em O funcionário e a música:
Eu sou Zé Trindade,
aguardando atendimento
na repartição do filme.
Eu sou Mazzaropi,
Esperando o momento
do carimbo grandioso.
Estou na fila desde 1940
e o funcionário foi ali,
saiu e volta já.
Eu sou o restolho de povo brasileiro,
se é que algum dia ele existiu.
Estou com um maço de papéis,
suando o paletó,
esperando ser chamado pela senha,
sentado em labirinto de poetas.
Jarcélen Ribeiro é formada em Letras pela UFRJ, com especialização em Literatura Brasileira e mestrado em Estudos de Literatura, ambos pela PUC-Rio.







































