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ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

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15/10/2008

Michelangelo no MuBE

O cartaz na entrada da exposição de Michelangelo no MuBE diz que se trata de uma mostra didática.

Didática it is.

Indo de uma em uma por cada reprodução em gesso das obras do artista, chega-se às suas principais características.

1) A Madona com o Menino Jesus de 1525 mostra um menininho halterofilista, com a construção muscular carregada e hipertrofiada dos corpos feitos pelo escultor; o Torso Colossal de Fauno mostra até onde tal construção muscular pode ir, fazendo com que o realismo – tão decantada característica renascentista – suma para dar lugar a formas modificadas; e o alto-relevo Expulsão do Éden, da Igreja de São Petrônio, idem, com figuras já completamente disformes do ponto de vista realista, e completamente lógicas do ponto de vista conceitual.

2) Davi com a Cabeça de Golias, cópia da estátua em bronze de Florença, traz uma segunda característica do artista, que é a mistura de sexos. Se suas mulheres eram quase masculinas na musculatura e proporção de mãos e pés, esse Davi é quase uma menina, em sua androginia.

3) A Pietá inacabada, de 1553, expõe o processo do artista que jamais juntou blocos de mármores distintos para fazer suas figuras e jamais permitiu a participação de ajudantes ou discípulos, por mais exaustiva que fosse a tarefa encomendada. Aqui, o desbaste da peça está aparente, em toda sua dificuldade.

4) Na Vênus de Grotticella, a sinuosidade do corpo e o tamanho do pescoço trazem a curvatura maneirista que Michelangelo, no auge da Renascença, já apresentava.

A mostra traz, além das reproduções em gesso e pictóricas, dois desenhos originais do artista, montados em backlight, o que estraga um pouco o diálogo, a interação.

E não traz, nem poderia, nada que fale de como ele era.

Mal-humorado ao extremo, desbocado e pouco afeito a seguir convenções sociais como cortar o cabelo ou usar sapatos, Michelangelo atrai também por esse lado. Sempre pronto a brigar com quem lhe dava o pão de cada dia; detestando a presença alheia nos locais onde trabalhava e expulsando com igual vigor poderosos e curiosos; obsessivo ao extremo, fazendo e refazendo, ele mesmo, tudo, até ficar satisfeito, Michelangelo era o contrário do artista midiático e bem treinado em relações-públicas, de nossa época.

O papa Júlio II uma vez lhe pergunta quando uma determinada obra (já paga) iria ficar pronta.

Resposta: “assim que eu acabar.”

É meu herói.



comentário da editora: O meu também. Tem uma frase dele que adoro: “se vocês soubessem o quanto estudo, o quanto trabalho, o quanto me esforço, ninguém me chamaria de gênio”, em tradução livre e de memória (que costuma me trair).

 


Elvira Vigna é escritora, com um mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro: "O que deu para fazer em matéria de história de amor", 2012, Companhia das Letras.

Michelangelo no MuBE



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