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ISSN 1980-7767

ano 5
edição atual: número 24, março & abril de 2010

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17/10/2008

Os Estonianos

A Cia. Casa de Jorge, formada por Ana Kutner, Julia Spadaccini e Jorge Caetano, estréia seu segundo espetáculo, Os Estonianos, no Teatro de Arena do Espaço SESC, em Copacabana, e fica em cartaz até nove de novembro. O texto é de Julia Spadaccini e a direção de Jorge Caetano. No elenco estão Ana Kutner (Marília), Jorge Caetano (Pedro), Thais Tedesco (Lívia), Pedro Henrique Monteiro (Fred) e Ana Baird (Suely).

O cenário é simples, mas funcional. Composto apenas por cinco móveis, tipo bancos. E, nessa simplicidade, junto a outros poucos objetos, consegue dar conta de todas as necessidades do texto. Através de uma linguagem que utiliza o humor como característica principal, vemos em cena cinco personagens insatisfeitas. É essa insatisfação com a vida que as aproxima. Além de torná-las semelhantes, é ela também a responsável por gerar um espaço para que as personagens acabem esbarrando umas com as outras e ditem o tom da peça. Na busca por suprir suas carências, as histórias acabam se cruzando de uma forma ou de outra e vamos, aos poucos, participando das angústias que os afligem.

Eles sentem-se incompreendidos, buscam explicar-se, expor seus sentimentos – daí, surgem as situações cômicas, aliás – e ficam na linha divisória entre o problema em não conseguir comunicar o que se sentem e a falta de capacidade do interlocutor ouvir e entender.

Pedro, casado com Marília, compartilha conosco suas insatisfações, seus problemas conjugais. Está em crise porque percebeu que não sente mais a alegria de antes, principalmente ao lado de sua esposa. Sente-se vítima da mesmice do cotidiano do casamento, que lhe roubou até as lembranças dos sentimentos bons do início da relação.

Marília, psiquiatra, ouve o descontentamento do marido e o enquadra como uma coisa comum, que todos sentem. Assim como faz com os pacientes, dá o diagnóstico e aconselha o medicamento. Parece imparcial, é profissional até quando está envolvida sentimentalmente. Os remédios são para os pacientes sentirem-se outras pessoas. Sem entrar no mérito de questionar a profissão dela, o texto a constrói como alguém que pode até saber aliviar os sintomas dos pacientes, mas não consegue compreendê-los como pessoas e mostra-se nada contente durante as cenas.

Fred, amigo de Pedro, – que diz ter assumido ser homossexual por causa da certeza de sua analista – está em crise no trabalho, onde sofre com uma espécie de mania de perseguição É uma personagem bem engraçada. O título, aliás, faz referência ao fato dessa personagem, depois de começar a se corresponder pela internet com um estoniano, achar a Estônia o lugar perfeito, onde todos são felizes e saudáveis. Os estonianos são felizes, ele não. E ele quer aquela felicidade estoniana para a sua vida. Porém, Fred conclui depois, ao ver a foto de um estoniano em Ubá, que talvez a Estônia não seja tão perfeita assim. Se fosse, nenhum estoniano sairá de lá e escolhe outro destino para representar a felicidade.

Suely – que tinha o a idéia de trabalhar vendendo produtos de beleza, para visitar a casa dos clientes, ser convidada para entrar, tomar um café – é funcionária de uma lanchonete e faz a entrega dos lanches. Numa entrega, conhece Pedro, que a convida para entrar em sua casa. Ele justifica o convite dizendo que acha ruim não convidar para entrar uma pessoa que entrega sua comida. O convite acaba despertando novamente o desejo antigo de visitar os clientes. Tanto, que depois disso, Suely não consegue mais fazer entregas, se não for convidada a entrar.

Já Lívia, paciente de Marília, é uma moça solitária, que conhece Pedro numa festa e depois o reencontra quando, no auge de uma crise de solidão, coloca um anúncio como prostituta, no jornal, como uma forma de encontrar pessoas tão solitárias como ela. Uma de suas preocupações é nunca conhecer o Afeganistão. Lívia é uma das personagens mais interessantes e, ao longo da peça, vai tomando consciência dos seus problemas e assume um pouco do que gostaríamos de ver em todas as outras: diz a Marília que está feliz porque descobriu que está infeliz e quer viver isso plenamente. Não quer tomar remédios, não quer ser outra pessoa. Que sua vontade de falar com estranhos, inclusive, gerou uma nova amizade.

O texto tem momentos muito bons. Faz rir, inclusive. É uma peça que, apesar de focar nas angústias humanas, consegue ser leve, descontraída. Muitas vezes, os espectadores riem porque se identificam com algumas situações. Até as danças são tão bobas que se tornam engraçadas e apropriadas. Parece, em alguns momentos, um texto com trechos soltos, mas não, tudo é bem amarrado e tem sua funcionalidade no decorrer do espetáculo.

Às vezes, parece que as personagens não se expõem totalmente, que são um pouco superficiais, mas isso não tira os seus encantos e talvez seja porque elas representam pessoas em crise, que estão se descobrindo, e não que isso seja propriamente um problema no texto. Talvez nem elas mesmo tenham consciência plena dos seus sentimentos. Ou, assim como Lívia – que ao comentar sobre sua solidão e a necessidade de falar com desconhecidos, revela a angústia que sente quando eles vão embora e ela fica com a impressão de que não disse tudo o que queria dizer – as personagens também não digam tudo. Melhor, acho que tinham mais a dizer, que têm um potencial maior. Porém, tudo me pareceu justificado e interpretado com bastante competência pelos atores.

Texto: Júlia Spadaccini
Direção: Jorge Caetano
Elenco: Ana Kutner, Jorge Caetano, Ana Baird, Thaís Tedesco, Pedro Henrique Monteiro
Cenário: Natália Lana
Figurino: Thaís Tedesco
Iluminação: Ana Kutner

 


Jarcélen Ribeiro é formada em Letras pela UFRJ, com especialização em Literatura Brasileira e mestrado em Estudos de Literatura, ambos pela PUC-Rio.