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ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

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18/10/2008

RockNRolla, de Guy Ritchie

O perigo de uma mesma pessoa escrever o roteiro e dirigir o filme é que o diretor comece criar a história já pensando em seus cacoetes e não na narrativa. Temos exemplos clássicos de Woody Allen – que quando acerta cria um clássico quando erra cria uma bomba, Night Shyamalan – cada vez menos denso e introspectivo, optando por fiapos de história, e Guy Ritchie.

Até pouco tempo, Guy Ritchie era o diretor cultuado de Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes. A definição de filme inteligente no dicionário tinha o nome dele do lado. Depois veio Snatch, com Brad Pitt, que ainda é interessante, mas aponta sinais de desgaste na fórmula “bandidos atrapalhados se metem com gângsteres violentosâ€. Graças a ele, o diretor passou a conviver com a frase “another Guy Ritchie movieâ€. Quando isso acontece no segundo filme, é sinal de alerta. O tempo passou, Guy Ritchie casou com Madonna e os dois tiveram a péssima idéia de refilmar Destino Insólito (1974), com Madonna no papel de uma mulher frágil e indefesa. Não convenceu, mas pelo menos foi uma tentativa de fazer algo diferente. Com medo de perder o prestígio, o diretor voltou ao terreno seguro e fez Revolver, que diz a lenda tem a ver com cabala. Lenda porque o filme não conseguiu distribuição internacional devido ao fraco desempenho na Inglaterra e não passou por aqui.

Passam-se os anos, passam os casamentos e Guy Ritchie tenta recuperar a forma. Seu mais novo trabalho, RockNRolla, está fazendo muito sucesso na Inglaterra, vem passeando por festivais do mundo inteiro, passou pelo Festival de Cinema do Rio de Janeiro e agora chega à mostra de cinema de São Paulo. Mesmo usando ingredientes como drogas, sexo e violência, o gosto no final é de “filme para toda a famíliaâ€. O que no caso, não é bom.

Um RockNRolla é um sujeito que vive na margem, não à margem da sociedade, mas na margem da própria vida, um tropeção e morre. Pode ser pelo ritmo do dia a dia, pelos perigos que enfrenta, pelo rock nas veias ou pelo crack no cachimbo. O importante é que tenha um pouco de tudo misturado e de preferência uma baba escorrendo nos momentos de delírio e alucinação. Mas o roqueirinho que encarna o RockNRolla no filme é só um dos inúmeros personagens, quase uma participação especial. Guy Ritchie dividiu o filme em tantas narrativas, que mais um pouco ele se transforma no novo Altman. Na maior parte do tempo, o espectador acompanha Archy, o braço direito de Lenny, um pseudo-mafioso americano que comanda a distribuição de licenças para construção de empreendimentos ilegais na Inglaterra, comprando um juiz aqui e um político ali. Lenny é contatado por Uri, um mafioso russo que quer construir um estádio de futebol em Londres. Acordo fechado pela bagatela de US$7 milhões, Uri empresta seu quadro da sorte para Lenny para que ele consiga logo a licença. Só que a informação do acordo vaza, e quando os capangas de Uri vão pegar o dinheiro no banco, eles são assaltados. A grana fica desaparecida no mundo do crime e todo mundo vai atrás dela. Pelo menos é o que diz o release oficial. No filme mesmo a coisa é bem mais complicada. Tem gente atrás do tal RockNRolla, tem Lenny atrás do ladrão do quadro roubado (sim, roubam o quadro da sorte de Uri), tem uma gangue atrás de dinheiro e tentando descobrir um informante que os dedurou e por aí vai. Coloque alguns ingredientes de perseguição, traição e sexo casual, agite bem e você terá o novo filme de Guy Ritchie.

Mas nem tudo é tédio (eu falei que ele começa com uma narrativa em primeira pessoa?) em RockNRolla. A montagem é muito boa, Londres é usada como cenário sem parecer um passeio turístico e as atuações não são de se jogar fora. Gerard Butler mostra que é capaz de encarar papéis muito mais complexos do que o de Leonidas em Sparta (ele também é o Drácula da versão do Wes Craven, mas não espalhem) e Thandie Newton se sai muito bem na comédia, apagando de vez a imagem dramática que carregava desde Crash.

A comédia, aliás, é o ponto forte do filme. É quando RockNRolla assume seu viés cômico que ele realmente funciona, não só pelo riso, mas pelo ritmo, pelas caras impagáveis dos atores e tudo mais que um dia fez parte do gênero comédia antes que Hollywood a substituísse pela escatologia. São poucas as seqüências inspiradas, mas acabam valendo o ingresso.

Se você estiver na Mostra de SP em dúvida entre ele e outro, fique com o outro. Se for fã do diretor, pode ver sem susto. Afinal: it’s just another Guy Ritchie movie.

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

RockNRolla, de Guy Ritchie



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