Outras palavras (Otras palabras), primeiro livro de Diana Araújo Pereira, editado pela 7Letras, nos é apresentado numa bela edição bilíngüe, diferente das que costumo encontrar, em que as traduções aparecem ao lado da versão original. Aqui, não. O formato do livro lembra um dicionário bilíngüe português/espanhol e é convidativo desde o formato, de 18cm por 14cm. O livro não tem contra-capa, são duas capas, uma com o título em português, outra em espanhol, em posição invertida, ambas com a imagem “O poeta / xamã”, de Bené Fonteles. Talvez fosse mais interessante que a parte em espanhol acompanhasse a inversão da capa. Porém, a organização se dá apenas em ordem inversa, o último poema em português é o primeiro em espanhol e essa disposição se mantém até o fim.
São poemas em prosa, fragmentos, anotações, pensamentos, que deixam o leitor bem envolvido. Os textos foram escritos originalmente em espanhol, entre 2005 e 2006, durante o período de pesquisa de doutorado da autora, em Sevilha, e traduzidos entre 2007 e 2008. Há uma gostosa sonoridade típica da língua espanhola, mas que não é totalmente perdida na tradução para o português. Os poemas têm o mesmo ímpeto nas duas línguas. Tudo é recuperado, nada se difere abruptamente. O efeito é perfeitamente conquistado na tradução. Também, o fato de serem línguas latinas facilita um pouco. A poetisa escolhe outra língua para escrever, outras palavras diferentes das com que foi alfabetizada, mas as trabalha de forma natural, intensa e apaixonante.
Tudo gira em torno da “palavra”. Há outros rumos no texto, mas, sem dúvida, essa preocupação é que mais ganha espaço nesse livro. Trata de inúmeros eventos. São anotações gerais. Quem sabe uma companhia para os momentos fora da cidade natal? Mas o que importa mesmo é que a autora escreve pelo prazer de escrever e não apenas como uma forma de se expressar. O amor pelo ato da escrita está presente todo o tempo. Há vários elementos envolvidos, várias sensações expostas, mas a atenção à palavra é o mais chamativo.
O prefácio de Jussara Salazar me pareceu um pouco assustador. Floreado demais. Não acho que o prefácio tenha que ter a pretensão de ser mais do que o próprio livro. Talvez essa forma poética de escrita seja decorrência de Jussara também ser poeta. Contudo, achei um pouco incômodo, tanto na primeira leitura, antes da do livro, quanto nas leituras posteriores, já sabendo o conteúdo dos poemas. Todavia, concordo totalmente com Adolfo Montejo Navas, na orelha do livro: aqui “o sujeito lírico importa muito menos do que a linguagem que se agencia”. Essa afirmação dá conta exatamente da essência do livro. Não poderia defini-lo de forma melhor.
Nesses poemas, as palavras parecem impor sua vontade à autora. A voz lírica parece ser a voz dessas palavras. Palavras, nomes, que se unem e formam um corpo, e esse corpo ganha vida. Porém, essa vida, com o auxílio da autora, ganha um rumo. As palavras não se perdem. Não é uma falta de controle sobre o texto, é uma permissão concedida, vigiada, que impõe limites sem controlar, sem impor nada. Limite difícil, mas com um belo resultado. Há muito tempo não vejo uma relação com as palavras tão intensa.
O texto de Diana é feito de palavras eleitas – letras escolhidas, “estas putas sorridentes dos salões falados” – em que a escritora permite que sejam tudo o que podem ser, potencializa suas forças, seus significados. As impulsiona, as reagrupa de forma que possam trabalhar em equipe, porém, sem perderem suas particularidades no resultado maior. Diana transforma a matéria-palavra. E uma das formas de transformação que ela usa é a negação.
Para o eu-lírico, que tem sua voz expressada nesses poemas, existir é saber que pode usar outra palavra ainda. É o que matem viva a vontade de escrever. Saber que outras palavras precisam do seu trabalho, da sua atenção. O que interessa aqui é a escrita, o ato de escrever. As palavras detêm o poder e quando esse poder é posto nas mãos do eu-lírico, este se assusta, pois admira a palavra mais do que tem vontade de dominá-la: “É que perambular entre as sílabas causa tonteiras indeléveis. Normalmente sofro presa a uma letra, e tremo quando posso tê-la em minhas mãos. Porque não se esqueçam que as mãos sim são minhas, ainda que de nada me sirvam se eu não puder escrever, se me falharem os nomes.”
Às vezes, as palavras não saciam esse eu-lírico, não dão conta de tudo o que quer expressar. Sabe que escrever não o levará a nada. A saciedade é breve, mas o prazer da escrita, a tentativa, é o que importa. Outras vezes, o vazio pode o saciar e não precisa mais da palavra perfeita. Essa eterna busca incomoda menos, até porque essa procura é uma forma de encontrar-se: “Me vejo tentando colar pedacinhos de letras. Meu Deus, a que ponto se chega ao tentar encontrar-se a si mesma!” “E acaba que tudo é em vão. Porque a palavra sagrada, a que te situa, sempre desaparece como uma miragem sonora, como o sabor de paraíso que se assoma nos lábios, mesmo que você nunca o tenha provado.”
Diana Araújo Pereira, doutora pela UFRJ/Universidad de Sevilla, é poeta, pesquisadora, tradutora, professora de espanhol e literaturas hispânicas.