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Fome, de Tibor Moricz

Você tem fome de quê?

Há pouco tempo foi disponibilizado na Internet o conto O caçador. Um homem com um trabuco nas mãos andando pelas ruas em busca de alimento. O único disponível? Carne humana. Sua vítima, uma garotinha, usada e abusada, com uma virada inesperada no final. Foi polêmica certa. Críticas. Elogios. E uma expectativa que enfim se cumpre.

Depois da estréia com uma ficção-científica psicológica de viagem no tempo, Tibor Moricz decidiu deixar cicatrizes nos leitores. Você vai amá-lo, você vai odiá-lo. Talvez recomende o livro, talvez o queime e durma rezando o terço. O fato é que ninguém passará incólume por Fome, livro pós-apocalíptico com potencial para romper barreiras de gêneros.

Momentos de êxtase. O mundo era perfeito. Destruído, arrasado, despovoado. Chuva e sol, florestas, vida animal quase extinta. E menininhas como esta, gazelinhas correndo por entre escombros, exibindo toda a sua graciosidade à sanha de caçadores implacáveis como eu. Doze, onze, dez anos. Tanto faz. Carne é carne. Prazer é prazer.

Fome é um fix-up, termo que nasceu pejorativo e depois adquiriu status de boa literatura. Um fix-up traz contos interligados, que vão se complementando em direção a um clímax final. É quase um romance, é mais que um livro de contos. É essa a brincadeira. Mesmo os contos que preservam a independência em termos de história, contribuem para a construção de um imaginário comum. E o imaginário do livro é sombrio e desolador. O que aconteceria se a natureza enfim cedesse ao nosso descaso e simplesmente morresse? Árvores caindo podres, oceanos mortos. Nenhuma linha verde no horizonte. A falência do planeta levando os animais à morte, entregando o homem à solidão. O domínio do planeta da pior maneira. Sem natureza e animais, rapidamente chegamos à escassez de comida. E esse é o ponto-chave de Fome: o único alimento somos nós.

Enfiou um segundo pedaço na boca. Chupou o sangue que lhe escorria pelos lábios e mastigou a carne lentamente, sorvendo os sucos. Pegou um fêmur e o lançou janela afora. Ele foi cair entre entulhos, levantando uma nuvem de pó”.

Tibor optou por frases curtas, o que mais do que retratar um retorno ao raciocínio primitivo combina com a idéia de um futuro imediatista. Não há uma antecipação do amanhã que permita alongar demais os pensamentos. Quem pensa duas vezes dança. O pouco que se tem é o agora, um senso de urgência que se impregna no modus operandi , desce pela garganta e é exalado pelos poros.

O livro traz uma humanidade degenerada, sem resquícios de valores morais. Saem as conversas em bares e os passeios nos shoppings, entram bandos carniceiros em busca de alimento, certos de que a pessoa ao lado pode matá-lo a qualquer momento.

Sem máscaras sociais e entretenimento, o homem perde a capacidade de se esconder. Quem não encara a realidade de frente, se entrega ao tempo, a inanição. Por mais escuro que seja o esconderijo, por mais protegido que o personagem esteja nos escombros de um edifício antigo, ele sabe que precisa sair e procurar alimento. E que lá fora, a chance de ser morto é grande.

A doença o forçara à reflexão. Aceitar a comida pouca que lhe era atirada sem titubear, sem reclamar, sem protestar. Comer com ânsia, morder tendões, mastigar cartilagens, roer ossos. Comer o que no passado ele rejeitaria enojado. Comer para alimentar os tumores que lhe cresciam pelo corpo”.

A princípio pensei que o texto cairia no clichê de “só os mais fortes sobrevivem”, mas assim como na teoria evolucionista darwiniana, Fome também dá espaço para os mais ágeis, sortudos e espertos. E sabemos que a miséria é o melhor cenário para a proliferação de espertos em geral, carreguem armas de fogo ou a palavra do Senhor.

Antes de tudo escurecer ainda pude ver os anjos… e eles me olhavam com fome”.

Os contos sobre os reprovados na escola de Darwin são uma joelhada no estômago. Os fiapos de semelhança que mantêm com a estrutura atual de sociedade são suficientes para transportar o leitor ao cenário de desencanto e jogá-lo no chão, enquanto desfilam diferentes recortes de uma morte lenta, física e psicológica. Mas é nos contos dos aprovados, dos espertinhos, malandros e fanáticos de plantão, que o livro faz sua graça. Usando um humor nigérrimo para a composição da atmosfera apocalíptica, Tibor visitou diversos tabus, tornando a reconstrução dos dogmas religiosos um tema essencial para o que o livro se propõe. Quem está acostumado a definir o que é certo e errado em uma história irá se surpreender.

E para que os de estômago fraco não digam que não avisei: não leiam depois de comer.

Fome
Tibor Moricz
Tarja Editorial
128 páginas.

 

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.
editoria: edicao_0016, literatura, em 5/11/2008

 

 

 

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