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ISSN 1980-7767

ano 5
edição atual: número 24, março & abril de 2010

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5/11/2008

Paralela

A bienal teve uma Paralela que de repente ficou maior (em tamanho) do que a Bienal.

Com um inquietante desdobramento. Trata-se de mostra paga e promovida pelos galeristas, i.e., mercado. Então, o seguinte. O poder público declara sua falência e o mercado mostra seu vigor. Uma discussão e tanto sobre o papel da coisa pública, mas eu, não sei se preguiçosa ou se covarde, debaixo do meu cobertor de lã, vou me permitir dormir até mais tarde.

Quanto às obras que nos chamaram a atenção (vi a exposição com o Elias Fajardo):

Marepe equilibrou umas cadeiras em uma estrutura desequilibrada. Gosto de esse piscar de olho com um brasileiro inconsútil, não explícito, mas nem por isso menos eficaz, pelo contrário.

Patrícia Leite trouxe duas pinturas. Uma, Janela Aberta, é bem boa, por retomar a metáfora de a pintura ser uma janela para o mundo de forma torta. Sua “janela”, vista em perspectiva, problematiza um frente-a-frente que não temos mais com nosso meio.

Marcos Chaves e Pedro Motta, fotógrafos, falam sobre a mesma coisa. Uma permanência do orgânico, do vivo, dentro do concreto urbano. Mas falam de uma distância que me remeteu ao título da exposição: De perto e de longe. Chaves está tão próximo da irrupção do que não tem controle dentro das formas retilíneas do controlado que dá para sentir a dor da pedra. Motta se atém a uma observação desvinculada. Ambos escapam do, argh, politicamente correto.

Caio Guimarães trouxe um vídeo de 5 minutos de um humor pensante, chamado El pintor tira el cine a la basura: alguém prepara uma parede para uma projeção; passam a projeção; no meio dela, a pessoa retira a tela; embrulha; joga no lixo. Um conteúdo que só existe, literalmente, enquanto durar o meio em que se exprime.

Fabiano Gonper, de quem já cobri uma exposição na Baró Cruz, levou mais de seus grandes desenhos-índices, um registro de uma “categoria”, no caso, nus masculinos.

Rosângela Rennó traz o imaterial, presente também em suas recuperações de objetos, em seus trabalhos em cima de memórias. Dessa vez, o imaterial é o que forma redemoinhos em campos e estradas. Testemunhas dessas espirais de poeira contam o que viram, e fotografaram. Alguns relatos dão, junto com as imagens, a idéia do que aparece e some, sem nada deixar. “Queria parar perto dele, mas ele não me esperou – eles nunca esperam.” “Na minha frente, exatamente na minha frente, se forma o bicho.“. Os lugares trazem campos de significação também de resquícios imateriais que escutamos e (quase) esquecemos, nós, os citadinos que não vemos redemoinhos: as fotos foram tiradas em lugares chamados Peixe Cru, BR 367, Araçuaí.

Lucas Bambozzi fez projeções de vídeos em cima de cartões postais em branco. As projeções são imperfeitas, sem foco ou enquadramento. Um pensamento sobre a perfeição como antônimo de significação. Bem bom.

Nicolás Robbio pode ter feito a obra mais bela da exposição. Retroprojetores jogam em paredes manchadas, velhas, que compõem o velho galpão industrial em que a Paralela foi montada, o recorte que produzirá a imagem de velhas persianas quebradas. Um cenário instantâneo, um drama de varetinhas, um imaginário não-tecnológico, ali, ganhando a concorrência.

Marina Rheingantz tem uma pintura que Elias Fajardo aproximou de Edward Hopper. Uma desolação de um urbano que se desdobra e fulgura ao mesmo tempo em que fracassa.

O ambiente é muito bonito, com suas estruturas metálicas características do início do XX.

Também é perto de um buraco de metrô, um must quando se trata de São Paulo. Mas faltou um ar-condicionado.

 


Elvira Vigna é escritora e crítica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Nada a dizer", 2010, Companhia das Letras.