Hotel Lancaster
Está em cartaz, até 27 de novembro, na Sala Multiuso do Espaço Sesc, em Copacabana, Hotel Lancaster, que não é apenas uma peça sobre drogas, usuários e traficantes, mas um texto sobre o drama dos dependentes químicos, capazes de tudo para sustentar seus vícios, de quem lucra com esse vício e sobre as relações humanas, tão modificadas por esse drama.
O texto de Mário Bortolotto, tem direção de Marcos Loureiro e montagem do Grupo Kuringa da Cooperativa Paulista de Teatro. No elenco estão Bebel Ribeiro (Debbie), Henrique Stroeter (Odosvaldo), Jorge Cerruti (Samuel), Paulo Vinícius (Rick), Sergio Mastropasqua (Lobo), Sergio Guizé (Cláudio), Tereza Piffer (Lola), em interpretações impecáveis.
O cenário, de Rodrigo Lopez e Marcos Loureiro, é o quarto de um traficante num hotel barato, e o caos nesse quarto já espelha o caos da vida das personagens que passarão por ele. Personagens que são muito diferentes, mas que têm em comum a consciência de que fizeram escolhas erradas na vida. Não estão onde querem, não fazem o que querem. Não são felizes. Não querem assistir aos dramas das pessoas ao seu redor e muito menos os seus próprios dramas, sendo a droga a única saída para isso. E a trilha sonora, do próprio Mário Bortolotto, é também bem envolvente.
A data escolhida é uma noite de Réveillon. O slogan do hotel: “Hotel Lancaster. Mais conforto e comodidade na sua viagem.” Um lugar onde não se precisa sair do lugar para viajar e nem ligar a TV ou ler jornais para saber, ou quem sabe vivenciar, histórias bizarras da pobreza humana. Os viciados se deprimem pelo uso das drogas, que os tornam dependentes, e se deprimem por estarem naquele ambiente, procurando a droga como uma fuga. É um círculo vicioso. Quem não se droga com algo ilícito, utiliza o álcool. Não há como ficar sem nenhuma fuga naquelas condições. São muitas histórias, representadas ou contadas, mas é um texto longe de ter a intenção de ser educativo. Porém, consegue ser verossímil, principalmente pelas ótimas interpretações.
O deprimente aqui não é engraçado, mas o tom de um traficante moralista num ambiente daqueles, em que o seu produto é o que gera aquela situação, e a falta de regras, num lugar onde mais nada o surpreende, gera um pouco de comicidade. Contudo, na medida certa, sem tornar o assunto banal ou ridículo. É irônico ver um moralista fornecer o meio para essa vida deprimente dos demais e, ao mesmo tempo, o recurso para o fim dela. Não há nenhuma regra, fora o pagamento pela droga, mas a punição por essa vida aparece e, em alguns casos, salva, acabando com o sofrimento através da morte. Porém, o impressionante mesmo é como as histórias contadas para chocar o público e se mostrarem reais, somadas às vidas deprimentes, resulta numa boa peça.
Os fins trágicos são as únicas saídas para essas personagens. Incomoda ver a miséria humana. Incomoda. O texto é antigo, mas ainda incomoda. Às vezes, a forma como o tema é abordado é um pouco assustadora e parece, por breves momentos, exagerada , mas tudo é justificado e interpretado com muita competência.
Texto: Mário Bortolotto
Direção: Marcos Loureiro
Elenco: Bebel Ribeiro, Henrique Stroeter, Jorge Cerruti, Paulo Vinícius, Sergio Mastropasqua, Sergio Guizé e Tereza Piffer
Cenário: Rodrigo Lopez e Marcos Loureiro
Figurino: Rodrigo Lopez
Iluminação: Marcos Loureiro
Trilha Sonora: Mário Bortolotto
Jarcélen Ribeiro é formada em Letras pela UFRJ, com especialização em Literatura Brasileira e mestrado em Estudos de Literatura, ambos pela PUC-Rio.



































