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ISSN 1980-7767

ano 5
edição atual: número 27, setembro & outubro de 2010

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6/11/2008

Leonera, de Pablo Trapero

Canta-se por aí que o cinema argentino está léguas à frente do cinema nacional. Tirando a questão do gosto pessoal, as produções dos hermanos realmente ostentam um ar profissional da concepção à realização que nem sempre se vê por aqui. Filmes brasileiros ainda pecam muito pelo roteiro e por uma compreensão pouco nítida de que televisão, teatro e cinema possuem linguagens distintas. Mas é importante lembrar que para um filme estrangeiro chegar até o Brasil, ele passa antes por um filtro natural de aceitação no próprio país, inclusão em pacotes de venda, negociação com distribuidores, etc. Exceto por Hollywood, que exporta lixo com a mesma facilidade que vende bons filmes, não podemos tomar como regra para a produção de um país o que chega até o nosso. A vantagem e desvantagem dos festivais de cinema é a inexistência desse pré-filtro, deixando o primeiro boca a boca para você, a própria mídia só acompanha o que já foi badalado em festivais lá fora.

Confesso que até ver Leonera não conhecia o trabalho de Pablo Trapero, um dos diretores argentinos mais comentados da nova geração (começou na década de 90). Deixei passar a comédia Família Rodante e o drama Nascido e Criado, os dois anteriores, mas a qualidade de Leonera me fará conhecê-los. Como é provável que o filme passe aqui sem tradução do título, vale dizer que existe leoneira, o equivalente em português. Espiem o dicionário.

Leonera começa fingindo-se um mistério policial. Há algo de intriga e assassinato no ar. Julia (Martina Gusman) acorda em seu apartamento, deitada. Pela maquiagem, parece que veio de uma noite daquelas. A câmera é muito bem posicionada, as informações trabalhadas para aparecer aos poucos. Há primeiro o despertar que remete a uma festa noturna, alguém que chegou tão bêbado que se largou no sofá de roupa e tudo. Depois Julia estica a mão com que apoiava o rosto. Há sangue, muito sangue, o sangue de outros. Ela finalmente se vira ao se espreguiçar e descobrimos um sangramento na cabeça, seu próprio sangue. No banho, marcas profundas nas costas, vestígios de uma briga feia. De alguma forma, Julia pensa que o banho pode limpar suas memórias, apagar o que aconteceu. Ela se arruma, vai para o trabalho, mas o sangue volta a pingar. Não há outro remédio a não ser voltar para casa e encarar os fatos: dois corpos ensangüentados. O homem na cama está visivelmente morto. O do chão à beira da morte. O decorrer do filme jogará alguma luz sobre a violenta noite. A sinopse oficial conta demais sobre a história, então não a leiam por aí. O importante é que Julia liga para a polícia, totalmente histérica sem saber dizer o que aconteceu. Não demora muito, ela é acusada de assassinato e vai presa. No exame de entrada, revela-se que está grávida. Ela é enviada para uma ala onde ficam as mães e grávidas que esperam julgamento ou já foram sentenciadas, uma versão mais light da penitenciária feminina. Começa então a segunda parte do filme, a que aproveita a história para fazer denúncia social sem panfletagem. A transformação de Julia em seu martírio de mãe presidiária é explorada no roteiro por eventos bem marcados que anunciam cada um uma nova etapa da vida da protagonista. Ser mãe é uma grande responsabilidade também na prisão, parece ser a idéia, e nenhuma mãe quer ser separada dos filhos.

Apesar do mistério inicial e das boas surpresas o filme não caminha para uma grande revelação. As informações sobre o assassinato surgem para aplicar novas camadas de complexidade em nossa relação com Julia e os demais. Um filme sobre uma prisão sempre implica julgamento. É impossível não julgar. Trapero acertou ao evitar um background mais elaborado dos personagens, deixando-nos apenas com o presente. Isso gera uma mudança constante de opinião, à medida que aprendemos mais sobre Julia e o dia a dia das mães prisioneiras.

No mais, Leonera é um filme de história linear centrado em uma só personagem, o que pode ser cansativo para alguns. Por outro lado, a direção de Pablo Trapero e a atuação de Martina Gusman são excelentes e valem o ingresso. Rodrigo Santoro também está muito bem no filme. Ele faz uma participação especial que é fundamental para o entendimento da trama. Para quem ainda não conhece o trabalho de Trapero, Leonera parece um bom ponto para começar.

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.