Terra Incógnita nº2
Saiu esse mês o segundo número da revista Terra Incógnita. Nem idéia? Eu explico. Organizado por Fábio Fernandes e Jacques Barcia, o e-zine tem como objetivo publicar mensalmente contos de ficção-científica nacionais que fujam do lugar comum, com o bônus de entrevistas e textos internacionais em traduções inéditas no Brasil.
A revista começa com um conto de Octávio Aragão (Intempol, A mão que cria), passado nos tempos de Jesus Cristo. Agora e na hora de nossa morte mostra um messias bem diferente da imagem cultuada nas pregações. Jesus abandona o ar hiponga profético e assume uma postura mais prática e raivosa. A primeira linha do conto dá uma boa idéia das intenções do autor:
“Ele voltou, isso era certo. O que não estava certo era todo o resto”.
Octávio escolheu Maria como sua protagonista, tirando-a do papel de coitada e apresentando-a como uma mulher forte, capaz de atitudes duras para defender seus ideais (e boa de briga, cá entre nós). Ela passa longe de pedras e lamúrias e encontra alguns personagens bíblicos clássicos, numa versão alternativa de suas histórias. Lázaro, por exemplo, que é famoso por ter voltado dos mortos, passa a ter a duvidosa fama de voltar para eles. Morto duas vezes, não é para qualquer um.
“Encontrou o que procurava à beira de uma fogueira, na quinta noite de sua peregrinação. Um animal indefinível tostava em fogo baixo. O rosto imerso em sombras escondia o olho restante, aquele que não foi perfurado por espinhos, de um azul sem paralelos neste mundo”.
Octávio optou por situar o leitor aos poucos, deixar que ele entenda com os fatos e não com as explicações do narrador o que afinal está fora da ordem mundial. Com isso, é mais profunda a imersão do leitor na sensação de estranhamento, que passa para uma nova etapa assim que Maria encontra o apóstolo Tomé transformado em mármore, entre outras situações estranhas.
O mérito do conto é potencializar o caráter fantástico inerente ao texto bíblico e impor um clima de “o que será?” até o fim, quando Maria resolve pôr ordem na casa e trabalhar suas frustrações de uma forma nada Junguiana.
Ana Cristina Rodrigues (historiadora e atual presidenta do CLFC) segue um caminho narrativo diferente. Seu conto bebe da linguagem lírica e por muitas vezes me fez sentir recitando as palavras, duplicando o sentido de transposição da informação. O Planeta negro tem como protagonista alguém que sofre. Há um sabor principalmente de desilusão, marcado pela umidade nas paredes e pela chuva fina que cai.
“Cheguei aqui há tanto tempo que não sei mais se o que escorre pelo meu rosto são lágrimas, ou essa maldita chuva”.
Uma das possibilidades do lirismo é a maleabilidade do tempo, a atemporalidade, e Ana Cristina sabe que a dor traz em si sua própria eternidade. Planeta negro junta em um mesmo instante o presente do personagem, a amargura sufocante do passado e um rasgo de esperança com o futuro. Afinal, não há temporal que não se acabe.
“Presos, traídos, uma armadilha. Todos mortos, você inclusive. Não tiveram essa compaixão comigo. Eu me atrevi a sonhar, merecia o pior dos castigos. Uma viagem de três semanas em um tubo de estase. Acordei aqui, imundo, sozinho”.
Comprovando a diversidade da revista, o conto O Abissal de Lúcio Manfredi (escritor e roteirista) é uma verdadeira viagem lisérgica, digna do narguilé de Carroll da melhor safra da lagarta. O conto inteiro propõe um incansável jogo de palavras e nunca segue o caminho fácil. Não é uma questão de fugir das retas e escolher curvas vertiginosas, pelo contrário, as maquinações cerebrais têm um quê de matemáticas que está mais próximo do retilíneo, uma lógica que faz das palavras peças de um quebra-cabeça que montam mais do que frases no final. Se a poesia contemporânea usa sua capacidade de trabalhar diversos temas ao mesmo tempo de maneira minimalista, Manfredi se estende por nove longas páginas. A melhor descrição que me vem em mente é a de um jogo cognitivo. E como todo jogo, pode vencer alguns jogadores antes do final.
“Escapo dos postes que me espreitavam da esquina, prestes a saltar sobre o meu pescoço e me empalar numa salada de maionese apodrecida. É preciso ter cuidado, as sombras se escondem nas sombras. Assobio para um táxi, ele dança uma rumba num pé só e me deixa a oscilar sobre a mesinha de centro de um bar na Cobal de Humaitá”.
O representante internacional da edição é Charles Stross, que ganhou entrevista e resenha feitas por Jacques Barcia. Stross é autor de Accelerando, Glass House, Halting State e Saturn’s Children. O conto traduzido por Ludimila Hashimoto se chama Lagostas e, segundo Fabio Fernandes, é o primeiro do romance fix-up Accelerando. Com produção constante mais para a década de 2000, ele permanece inédito no Brasil. Para quem curte termos cibertecnológicos modernéticos e tecnologia da informação, Stross é parada obrigatória. Uma ótima oportunidade para quem não lê em inglês e quer ficar por dentro do cenário mundial.
“Manfred vira a caixa entre as mãos: é um telefone descartável de supermercado, pago em dinheiro– barato, não rastreável e eficiente. É capaz até de realizar teleconferências, o que faz dele a ferramenta favorita de espiões e caloteiros em qualquer lugar”.
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.































