O homoerotismo não é assunto fácil de trabalhar. O erotismo por si só não o é e o fato de se lidar com o que ainda é um tabu em países retrógrados acrescenta novas pedras no caminho dos escritores. Um pensamento mais comum diz que o erotismo resvala em algum lugar entre o inócuo e a vulgaridade. Um escorregão extra e a intenção do texto se perde, flertando com o pornô ou se enfraquecendo diante do leitor. Isso é comum em filmes. O roteirista e o diretor não resistem a enfiar dezenas de problemas no filme. Não basta ser gay, é preciso ter AIDS, ex-esposa, tentar adotar um filho, perder um amigo querido e ser expulso de casa. Tudo isso nos primeiros vinte minutos. Na literatura, o problema é a questão do gênero, do gueto. Fazer literatura e literatura gay parece ser coisas distintas e sem sexo bizarro ou dramas existenciais nada tem muita graça (entenda-se: não consegue ser publicado).
Corações blues e serpentinas de Lima Trindade segue na maré contrária dos exageros. É um texto de minimalismos, econômico nas palavras e direto nas intenções do que quer abordar. Com certo gingado literário, ele aposta no ritmo das frases para se desenvolver, deixando a construção da ambiência em segundo plano.
Com 15 contos divididos entre blues e chorinhos, o livro não chega a ser lírico, mas encontra sua poesia ao trabalhar o sentimento humano através de recortes do dia a dia. É aí que o homoerotismo consegue se destacar do manancial de clichês comumente tratados nesse tema e assume a posição de literatura no sentido amplo da palavra, se afastando das crendices do gueto. É claro que os gays e lésbicas do livro de Lima Trindade possuem desejos e fantasias. Só que antes de tudo eles possuem vida, são humanos. São construídos nos pequenos detalhes, naqueles micro-instantes de sensações que guardamos na memória depois que tudo mais se apaga e se supera. Como tais embriões de tempo são comuns a todos, independentes de sexo, cor ou religião, o texto abre diferentes caminhos de diálogo com o leitor, e cada um encontrará um nível de envolvimento de acordo com sua própria história.
“Mês sim, mês não, publicavam um trabalho da nova dupla dos quadrinhos nacionais. FOP nunca aceitava sua parte do dinheiro. Suze visitava o apartamento, transava, lia as paredes, desenhava e ouvia música. (…) Em pouco mais de dois anos havia publicado e republicado todo o universo imaginário da sala de seu namorado. Virara uma artista conhecida. Otávio continuava tomando Leponex e criando jogos para crianças e adultos viciados. Tirando uma convulsão ou outra, levava uma vida quase normal”.
Em um livro de contos é incomum que o leitor goste de todos, do começo ao fim. Também é assim com os escritores, acredite. O interessante na conjuntura do livro é que é disso que se trata a diversidade, da possibilidade de uma escolha ampla sem restrições pelo credo de terceiros. Fiquei surpreso com um conto meio futurista chamado Uma vez no céu escuro e brilhante ou meu encontro com o caçador de andróides ultrapassados. Teve humor sutil e soube brincar com convenções de maneira inventiva. Apesar de ter simpatizado com os personagens, meu pé atrás fica por conta de Anjinho barroco, conto que flerta com a religião católica, que é para mim o anticlímax em forma de instituição financeira.
Esse é o terceiro livro de Lima Trindade. Não é o ponto de chegada e sim parte de um processo. O importante é que o autor está no caminho certo. Acredito que o leitor vá gostar de boa parte desses blues e chorinhos por serem textos honestos e ligeiros. Serão como uma música que vem à cabeça de repente: não sabemos explicar de onde e não conseguimos parar de assoviar.
“Os andróides nunca desenvolveram um pensamento autônomo ou sentimentos. Nossa maior invenção continua sendo o computador. Eu brincava com meu Nero e via com o rabo dos olhos o coroa. Vou falar o que eu tava receoso de dizer. Após pensar bem, vejo que era um medo bobo, uma besteira diante de tanta bobagem junta. É capaz, acaso meus filhos e neto se deparem com esse texto, que jamais passem das primeiras linhas, tão acostumados a mensagens animadas estão. O homem estava vestido de calça jeans. O quê? Isso não é nada? Não é nada para vocês! Para mim, meus caros, é tudo”.
Lima Trindade já publicou Supermercado da Solidão (2005) e Todo Sol mais o Espírito Santo (2005), e é editor da revista eletrônica Verbo 21.
Corações Blues e Serpentinas
Lima Trindade
Editora Arte Paubrasil
150 páginas.