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Violência letal, renda e desigualdade no Brasil é um livro direcionado a um público específico. O ensaio de Ignácio Cano e Nilton Santos (antropólogo) disseca a influência da pobreza no índice de homicídios. Mérito dos autores, faz isso com metodologia científica e não demagogia furada, o que ajuda na hora de desconstruir alguns pensamentos já estabelecidos.

Áreas mais pobres são mais violentas? Esse seria o meu primeiro raciocínio, confesso. Mas a relação não é tão óbvia quanto parece. Nem toda região tem o perfil do Rio de Janeiro e de São Paulo. Os autores exploram e expõem essas diferenças ao máximo ao comparar dados internacionais, nacionais, estaduais e municipais, o que leva o leitor a analisar a situação de diferentes perspectivas.

“Estabelecer essa relação entre renda e homicídios traria evidentes implicações para as políticas públicas: dar aos homicidas um padrão decente de vida, para que eles não tentem obtê-lo por meio do crime violento. (…) Se acreditarmos que a decisão final de uma pessoa optar pelo comportamento criminoso depende não apenas de sua postura moral, mas também de sua posição na estrutura social, não será tão fácil condená-la quanto seria se acreditarmos que a renda não tem implicações na violência”.

Outro detalhe que enriquece o texto é a inclusão da variável desigualdade social. De certo modo, isso elimina o conflito direto entre pobre e rico, o olhar excludente, mostrando que o que acontece em uma camada social afeta as outras (coisa que o Rio já descobriu).

Surpreendente também é a análise dos autores sobre a qualidade dos dados estatísticos que temos para avaliar a evolução dos casos de homicídio no Brasil. Os registros são tão precários que é até difícil acreditar.

“No Brasil, há duas fontes principais de dados relativos a homicídios: o Ministério as Saúde (atestados de óbito) e a Polícia (boletim ou registro de ocorrência)”.

O livro explica que os registros policiais são baseados em critérios jurídicos, o que pode fazer com que uma morte intencional não seja registrada como homicídio (!). Já o Ministério da Saúde incluirá como homicídio qualquer morte intencional. Assim, o latrocínio – que é o roubo seguido de morte – para um é homicídio e para o outro é crime contra a propriedade. Isso sem contar com as mortes causadas por policiais e as mortes em que não são encontrados corpos, típicas nas guerras entre facções do tráfico.

“No entanto, os estados do Nordeste parecem ter baixas taxas que também podem ser parcialmente creditadas à notificação incompleta. O caso do Maranhão é novamente evidente”.

Para encerrar, um elogio que felizmente tenho repetido por aqui. O livro é conciso e preciso. Foi feito para ser entendido. Mostra dados, tabelas, gráficos e estatísticas, mas não se esquece da fluidez. Nada de linguagem rebuscada para tentar valorizar o texto.

Não por acaso, já está na segunda edição.

Violência letal, renda e desigualdade no Brasil
Ignacio Cano e Nilton Santos
Editora 7 Letras
95 páginas

Inclui mapas coloridos de taxa estimada de homicídio por estado, suicídios por estado, homicídios por município (RJ) e homicídios para residentes de 15 a 34 anos dividido em região administrativa (RJ).

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  1. By Resumão de leituras « Skavis - prateleira virtual on 27 Dec 2008 at 12:24 am

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