Aguarras 23 Aguarras 22 Aguarras 21 Aguarras 20 Aguarras 19 Aguarras 18 Aguarras 17 Aguarras 16 Aguarras 15 Aguarras 14 Aguarras 13 Aguarras 12 Aguarras 11 Aguarras 10 Aguarras 09 Aguarras 08 Aguarras 07 Aguarras 06 Aguarras 05 Aguarras 04 Aguarras 03 Aguarras 02 Aguarras 01.jpg

ISSN 1980-7767

ano 5
edição atual: número 24, março & abril de 2010

Vimeo Youtube Orkut Facebook Twitter RSS Podcast do Aguarras
22/11/2008

Violência Letal, Renda e Desigualdade no Brasil

Violência letal, renda e desigualdade no Brasil é um livro direcionado a um público específico. O ensaio de Ignácio Cano e Nilton Santos (antropólogo) disseca a influência da pobreza no índice de homicídios. Mérito dos autores, faz isso com metodologia científica e não demagogia furada, o que ajuda na hora de desconstruir alguns pensamentos já estabelecidos.

Áreas mais pobres são mais violentas? Esse seria o meu primeiro raciocínio, confesso. Mas a relação não é tão óbvia quanto parece. Nem toda região tem o perfil do Rio de Janeiro e de São Paulo. Os autores exploram e expõem essas diferenças ao máximo ao comparar dados internacionais, nacionais, estaduais e municipais, o que leva o leitor a analisar a situação de diferentes perspectivas.

“Estabelecer essa relação entre renda e homicídios traria evidentes implicações para as políticas públicas: dar aos homicidas um padrão decente de vida, para que eles não tentem obtê-lo por meio do crime violento. (…) Se acreditarmos que a decisão final de uma pessoa optar pelo comportamento criminoso depende não apenas de sua postura moral, mas também de sua posição na estrutura social, não será tão fácil condená-la quanto seria se acreditarmos que a renda não tem implicações na violência”.

Outro detalhe que enriquece o texto é a inclusão da variável desigualdade social. De certo modo, isso elimina o conflito direto entre pobre e rico, o olhar excludente, mostrando que o que acontece em uma camada social afeta as outras (coisa que o Rio já descobriu).

Surpreendente também é a análise dos autores sobre a qualidade dos dados estatísticos que temos para avaliar a evolução dos casos de homicídio no Brasil. Os registros são tão precários que é até difícil acreditar.

“No Brasil, há duas fontes principais de dados relativos a homicídios: o Ministério as Saúde (atestados de óbito) e a Polícia (boletim ou registro de ocorrência)”.

O livro explica que os registros policiais são baseados em critérios jurídicos, o que pode fazer com que uma morte intencional não seja registrada como homicídio (!). Já o Ministério da Saúde incluirá como homicídio qualquer morte intencional. Assim, o latrocínio – que é o roubo seguido de morte – para um é homicídio e para o outro é crime contra a propriedade. Isso sem contar com as mortes causadas por policiais e as mortes em que não são encontrados corpos, típicas nas guerras entre facções do tráfico.

“No entanto, os estados do Nordeste parecem ter baixas taxas que também podem ser parcialmente creditadas à notificação incompleta. O caso do Maranhão é novamente evidente”.

Para encerrar, um elogio que felizmente tenho repetido por aqui. O livro é conciso e preciso. Foi feito para ser entendido. Mostra dados, tabelas, gráficos e estatísticas, mas não se esquece da fluidez. Nada de linguagem rebuscada para tentar valorizar o texto.

Não por acaso, já está na segunda edição.

Violência letal, renda e desigualdade no Brasil
Ignacio Cano e Nilton Santos
Editora 7 Letras
95 páginas

Inclui mapas coloridos de taxa estimada de homicídio por estado, suicídios por estado, homicídios por município (RJ) e homicídios para residentes de 15 a 34 anos dividido em região administrativa (RJ).

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.