A mulher do meu amigo
Apesar do tÃtulo de comédia romântica americana genérica, A mulher do meu amigo é uma comédia romântica brasileira. O atrativo? Esse é o segundo filme do diretor Cláudio Torres, que estreou em 2004 com o enigmático Redentor. Miguel Falabella, Pedro Cardoso (antes do manifesto contra a nudez no cinema), Fernanda Montenegro e Camila Pitanga desfilavam talento e o filme tinha um quê de Glauber Rocha na condução dos personagens. O resultado geral não era redondo, mas valia pela cara de interrogação no final da sessão. Valia pelo experimentalismo. A mulher do meu amigo até repete algumas dessas caracterÃsticas. Há a estranheza e há humor, mas dessa vez faltou história.
Resumindo a trama: Thales (Marcos Palmeira) é um advogado bem sucedido, casado com a filha ricaça do chefe. Renata (Mariana Ximenes), a tal ricaça, é linda, ninfomanÃaca e mimada. Um sonho de consumo. Seu pai (Antônio Fagundes) é um tubarão dos negócios e faz tudo por dinheiro. Apesar de ter dinheiro e um mulherão, Thales está em crise existencial. Não se sente mais feliz no trabalho e o casamento está balançando. De férias na mansão que Renata ganhou de presente aos cinco anos, enquanto passa alguns dias com os amigos Rui (Otávio Muller) e Pamela (Maria Luisa Mendonça), Thales começa a repensar a vida e decide abandonar o emprego, o que muda completamente a sua vida e inicia uma série de confusões.
A mulher do meu amigo segue a nova onda do cinema nacional de adaptar peças de teatro. No caso, a peça Largando o escritório. Ainda não foi dessa vez que acertaram na transposição de linguagens. Há pequenos núcleos de trama aqui e ali e entre eles um vazio contemplativo que não alimenta o ritmo exigido pela comédia. Nesses entremeios, bate uma vontade de dormir, o pensamento vagueia pensando nas contas a pagar, um espectador olha para o outro para verificar se deixou escapar alguma informação importante, aumenta a expectativa de que o filme enfim engrene. Mas não engrena, e o ritmo segue lento até o fim.
Marcos Palmeira, que tem um bom timing para comédia, fica preso à crise existencial de Thales. Maria Luisa Mendonça, que tem uma força incrÃvel atuando, se amarra ao papel de ingênua e romântica. Sua personagem só ganha destaque em um rápido momento de revolta, onde a atriz mostra o seu talento e foge da mesmice de Pamela.
Seria injustiça dizer que as cenas de humor não funcionam. Elas arrancaram boas risadas dos espectadores, mas novamente aponto a trama frouxa. Quando as situações começam realmente a ficar engraçadas, elas acabam e dão espaço aos dilemas morais de Thales e seu olhar perdido de bonachão. Para se ter uma idéia: assim que entrou na firma, Thales fechou um acordo que prejudicou velinhos. Por isso ele se sente culpado. Para compensar, quer agora ajudar os necessitados que não tem dinheiro para contratar advogados. Precisa mais?
A mulher do meu amigo quase chega lá. Um roteiro mais trabalhado teria rendido um filme de maior apelo, longe do besteirol de Se eu fosse você, por exemplo. Uma pena, já que o nosso cinema carece de comédias inteligentes. Entre a arte e o popular, o filme não acertou em nenhum dos dois.
Em tempo: Antônio Fagundes e Mariana Ximenes estão muito bem em seus respectivos papéis. Responsáveis pela parte mais ardilosa do filme, ajudam a história a não ser tão insossa.
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.







































