A leitura da obra de Henry Miller é sempre de resistência. Resistência contra o obscurantismo cultural. Resistência contra a afirmação de um pensamento cristalizado. Resistência contra a morte da arte. Acabo de ler o seu Pesadelo refrigerado, editado pela Francis Editora. O livro trata das viagens que o escritor fez em busca da América profunda, gestado na volta de Miller ao seu país, após 10 anos de ausência. Entre a França e a América, viajou cerca de um ano pela Grécia. A permanência ali fez com que escrevesse outro livro. O Colosso de Marúsia.
A experiência no mundo grego marcou-o de maneira profunda. Contrastar a viagem pelo mundo grego e pelo mundo americano é um exercício de leitura fascinante, pois um termina por dar a medida do outro. A percepção que tem Henry Miller da vida na Grécia revela as possibilidades animais e selvagens do homem. À alegria da mesa gozosa se junta o gozo da paisagem, das pessoas, de certo espírito ainda juvenil e propenso à paixão, que despreza a calcinação do ambiente pela proliferação das fábricas, do movimento em que o tempo se despe de sua condição última e definitiva de contemplação e produção artística, para erigir-se em estátua estática de um bando humano que não mais o percebe. Ao nos escrever sobre esse tempo, em que o homem perde o êxtase, a civilização do gozo pela civilização do trabalho, Henry Miller já nos fala da América.
Em seu velho carro, corta a América para nela refazer-se do exílio e tentar verificar se, por trás do horror de uma Nova Iorque calcinada pelo capitalismo e pelo consumo, poderia existir ainda um país a ser revisitado e recuperado para e pela arte. Encontra devastação, entretanto. Dos nativos destruídos à arte derruída, salvam-se os loucos, os adoecidos de uma sociedade pouco gozosa, que se rege pelo tempo demarcado, pelo trabalho, pela exploração e pelo lucro.
Seguindo os passos do Pesadelo, a troca da arte pela indústria, do homem livre pelo homem que se emprega e se destrói, verifica-se como origem de uma sociedade curiosa, que necessita do domínio (e de neo-escravos) para criar a si mesma e manter-se equilibrada como império. A arte americana vai se notabilizar como uma não arte, isto é, a conquista dos povos vai fazer da indústria – entre elas, a bélica – o instrumento de beleza de que necessitam para compor a expressão da nação. Belos serão os aviões, belas serão as bombas inteligentes, e seus heróis serão forjados neste conjunto da beleza americana.
Através da técnica e da tecnologia, a não arte erigirá o aprendizado mecânico, para derruir o artista. Em uma das passagens do livro, quando o autor vai a uma penitenciária, o responsável pelo cuidado com os presos vai impor ao autor mais uma amostra do funcionamento das instituições do país arruinado.
“Em uma de nossas penitenciárias federais, o sacerdote irlandês que me mostrou a capela apontou a janela de vitral feita por um dos presos – como se fosse uma grande piada. O que ele admirava eram as ilustrações de caixas de charuto para a Bíblia, executadas por presos que “sabiam pintar”, conforme dizia. Quando lhe disse abertamente que não concordava com sua posição, quando comecei a falar com reverência e entusiasmo sobre os esforços humildes, mas sinceros do homem que havia feito os vitrais, ele confessou que não sabia nada de arte. Só entendia que um homem sabia desenhar e o outro não. “É isso que faz de um homem um artista, saber desenhar braços e pernas, saber fazer um rosto humano, colocar um chapéu direitinho na cabeça de um indivíduo – é isso?”, perguntei. Ele coçou a cabeça perplexo. Evidentemente essa questão nunca lhe passara pela cabeça antes. “O que o sujeito está fazendo agora?”, indaguei a respeito do homem que fizera os vitrais. “Ele? Ah, nós estamos ensinando-o a copiar imagens de revistas.” “Como ele está se saindo?” “Ele não se interessa nem um pouco.”, disse o padre. “Parece não ter vontade de aprender.”
“Idiota!”, pensei comigo. Até na prisão tentam arruinar o artista. Em toda a penitenciária, a única coisa que me interessou foram aquelas janelas de vitral. Era a única manifestação do espírito humano livre da crueldade, ignorância e perversão. E eles haviam pegado esse espírito livre, um homem devoto, humilde, que amava seu trabalho, e tentavam transformá-lo em um burro educado. Progresso e iluminação! Transformar um bom presidiário em um potencial ganhador do prêmio Guggenheim. Pfu!” (Miller)
Criadora de eunucos – de seres amorfos, devorados pela gordura dos fast-foods, destituídos do tesão pela vida – tal sociedade submete ao puritanismo seus loucos; seus jovens e homens, à mínima condição humana e, com isso, submete a arte a um ícone do mercado. Quer para seus artistas a conformidade das revistas, a conformidade de suas apreensões e um falar constante de um espiritualismo tardio, travestido de modelos cuja imagem mais torpe se revela na arqueologia da destruição com que o autor provoca nossa consciência.
Se o modo de vida americano se afigurava como uma destruição das possibilidades latentes da nova nação, na Grécia, Henry Miller encontrara algumas respostas para a renovação do processo civilizatório. Parece-me que a busca de uma América profunda, por construir, determina o fracasso da arte no processo civilizatório americano, já que o controle da beleza submete as experiências do artista a uma enfadonha fórmula que o mercado determina. Daí a beleza da leitura, a resistência com que se percebem as idiossincrasias do autor.