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Em uma pesquina na Amazon descobri Lilith Saintcrow. Ela é autora de mais de uma dezena de livros de fantasia urbana de séries variadas e participa de algumas coletâneas. Para conhecê-la, resolvi apostar na série protagonizada por Jill Kismet, uma caçadora de demônios rabugenta e boca suja que ajuda a polícia a controlar distúrbios sobrenaturais (também conhecidos como massacres generalizados) e manter a ordem dentro do possível em um grande centro urbano.

Criar universos com demônios é correr o risco de cair naquela conversa de anjo caído e tentações que ninguém agüenta mais. Atire o primeiro frasco de água benta quem ainda não ouviu a frase “vaidade é o meu pecado favorito”. Durante as primeiras cinqüenta páginas fiquei receoso de que o livro tendesse para esse lado, mas por sorte o universo de Saintcrow é mais direto e funcional, não perdendo tempo com dramas religiosos. A igreja aparece com pitadas de ironia, caçadores de demônios também vão para o inferno, e em alguns momentos de nervosismo da protagonista, mas a cereja do bolo está em outro lugar. Kismet só pensa no pessoal lá de cima para comentar de suas próprias dúvidas. Foi o jeito que Saintcrow arrumou para dizer que a força que Kismet carrega é realmente dela.

“Night rose from the alleys and bars, spreading its cloak from the east and swirling in every corner. No matter how tired I am, dusk always wakes me up like six shots of espresso and a bullet whizzing past. It’s a hunter thing. I suppose. If we aren’t night owls when we Begin, training and hunting make us so before long”.

A história começa com Kismet se lembrando do pacto que fez com o demônio Perry, um dos chefões da cidade onde se passa a história. Ela leva no pulso a marca do pacto que lhe deu poderes para combater as entidades do mal, e cada vez que precisa usar sua força extra a cicatriz queima, como uma pequena lembrança. Fugindo do clichê, em troca da força sobrenatural Kismet não vendeu a alma. Na verdade, ela precisa se encontrar de tempos em tempos com Perry, para realizar taras estranhas que arrepiam qualquer pessoa sem tendências masoquistas. A idéia do pacto foi de seu antigo mentor, Mikhail, que está morto e só aparece nas lembranças de Kismet. O motivo da morte, inclusive, é um dos mistérios do livro e Saintcrow tenta conectá-la não com a trama principal, mas com os dilemas pessoais de Kismet.

Lilith Saintcrow segue uma tendência dos livros de fantasia urbana e usa narrativa em primeira pessoa para aproximar o leitor, com um adicional de pensamentos, diálogos e lembranças que de vez em quando sobrecarregam o texto, mas o resultado final é positivo. Apesar de a história ser bem contada, com mitologia sólida e final convincente, o forte mesmo são os personagens. Lilith Saintcrow desenvolve a relação entre eles de modo muito atraente. Como muitos deles não são humanos, isso é essencial para que o leitor sinta empatia ou antipatia por eles na medida certa. O jogo de poder entre Perry e Kismet é um bom exemplo. Lilith alterna a situação entre medo e raiva, sempre no limite do psicologicamente suportável para a caçadora, evitando transformar Perry em um obstáculo intransponível ou num problema fácil demais de se resolver.

“Cities need people like us, those Who GO after things the cops can’t catch and keep the streets from boiling over. We handle nonstandard exorcisms, Traders, hellbreed, rogue Weres, scurf, Sorrows, Middle Way adepts… all the fun the nightside can come up with”.

Demônios à parte, o que me conquistou foram os metamorfos de Saintcrow. Avisando desde o primeiro volume que há espaço para todo tipo de criatura, a autora aposta aqui em uma versão felina dos lobisomens. Homens que se transformam em grandes felinos. O interessante é que para apresentá-los, ao invés de insistir nas descrições físicas que dominam o universo dos lobisomens, Saintcrow investe no comportamento social dos bichanos. Quem tem um gato em casa sabe que quando eles chegam perto da gente ficam realmente próximos, a famosa passada pela perna para agradecer. Esse é um dos elementos capturados pela autora do livro. Enquanto os humanos possuem distâncias pré-estabelecidas de acordo com a intimidade que têm com as pessoas, os felinos de Saintcrow estão sempre próximos demais para os nossos parâmetros. Ou seja, nada de apelar para garras e dentes afiados. A caracterização vem da personalidade. Ponto positivo. A elegância ao andar também foi levada em consideração.

Pequenos detalhes que no final fazem a diferença.