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ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

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19/12/2008

Cordilheira, de Daniel Galera

Tenho uma relação curiosa com os livros do Daniel Galera. Gosto muito da escrita, do jeitão que ele desenvolve as frases, da escolha de palavras que tratam o sexo com naturalidade, que lembram que trepar pode ser tão cotidiano como ir até a padaria descolar um café da manhã ou arrumar as malas para ir a Buenos Aires lançar um novo livro. Por outro lado, nem sempre consigo me conectar com as histórias. De primeira, eu explicaria isso dizendo que o mundo descrito não é o meu e que assim me distancio. Mas sou um leitor voraz de fantasia e ficção, equilibro o chamado realismo mainstream com a literatura fantástica, então essa desculpa não me cabe. A possibilidade seguinte seria a escrita, mas essa opção já eliminei de antemão.

Cordilheira, de Daniel GaleraTenho um carinho especial por Até o dia em que o cão morreu, pré-cinema. Na época começava a pesquisar autores nacionais da minha geração, garimpava os livros aqui e ali, feiras de pequenas editoras, estante da Elvira Vigna. Na editora Livros do mal ele era um livro pequeno, de capa amarela, a cara de um cão muito simpático que morre logo de início. O personagem principal (era o dono do cão? Provavelmente) vaga pela cidade, tem uma namorada febril, assiste um pornô com um casal de amigos. Nas idas e vindas, cativa o leitor. Tem simpatia.

Mãos de cavalo, a entrada do Galera na Companhia das Letras, me deu um certo susto. De repente, o escritor e editor da Livros do mal se tornava um autor resenhado em tudo quanto é jornal, lido e relido de cabo a rabo, com um livro publicado por uma das grandes editoras do país. Lembro de ter visto o livro no Shopping da Gávea enquanto esperava o início de uma peça de teatro. Foi muito comentado na época (as memórias são traiçoeiras, não acreditem em mim) o esforço de se adequar ao padrão de uma grande editora. Se não me engano (novamente a memória), nessa mesma época o André Sant’anna também entrou para a companhia das letras, por isso a lembrança dos comentários que serviam para os dois. Não entendam esse esforço como um demérito. O refinamento da escrita é a única arma do autor na busca do ineditismo diante do esgotamento milenar das histórias contadas. De fato, por mais que o texto de Mãos de cavalo e Até o dia em que o cão morreu diferissem, não identifiquei na minha leitura o tal esforço descomunal. Novamente, foi um livro que me seduziu pela qualidade da escrita, pelas tramas paralelas que se encontram psicologicamente, mas não pelo enredo.

Faz tempo, mas acho que era o seguinte: um cirurgião plástico se propõe a encarar uma escalada para recuperar a adrenalina que o dia a dia de paizão (não sei se no sentido biológico) de família lhe tirou. Nesse preparo, vai revirando a infância e entre corridas de bicicleta e brigas de rua acaba descobrindo sua verdadeira dívida com o passado (a culpa não era do presente, oras), seu verdadeiro resgate de adrenalina e masculinidade. Eu, moleque de edifício com um playground gigantesco, não encontrei brechas de diálogo com as pauladas na areia batida nem na crise de casamento, mas a narrativa e a escrita davam o seu recado.

Testosterona comprovada no currículo. Foi com grande curiosidade que peguei Cordilheira, o mais recente romance de Daniel Galera. Isso porque a protagonista do livro, narrado em primeira pessoa, é uma mulher. Poderia inventar uma desculpa mais intelectualizada, roubar alguma frase de Tolstói, mas prefiro ser sincero. Queria ver o Galera na pele ficcional de uma mulher iludida.

Outro motivo foi o cenário. O livro se passa em Buenos Aires, cidade pela qual tenho um carinho teórico. Cordilheira é o primeiro livro da coleção Amores Expressos. A proposta é a seguinte: um grupo de autores viajou para cidades distintas do mundo para escrever um romance de amor, or something like that. Não sei se escolheram ou não os seus destinos, se todos serão realmente publicados, de onde veio o dinheiro, se da iniciativa pública ou privada, etc.,o que sei é que Daniel Galera viveu um mês na Argentina alimentando a história que escreveu em seu retorno e batizou de Cordilheira.

E essa história é mais ou menos assim: Anita é uma escritora brasileira que conquistou um grande sucesso de crítica com seu primeiro e único livro. Ela segue na contramão da busca pela fama e desiste de ser escritora. Chega a ter vergonha do seu trabalho, daquela história que nada mais tem a ver com ela e na qual identifica erros de uma escrita primária.

Outra contramão: Anita não vê nenhuma graça nesse papo de mulher madura se dedicar à profissão. Ela quer um filho e quer agora. Seu namorado Danilo, por sua vez, nem pensa em ser pai. Ele é do tipo que transa e ejacula fora. Quase dá para entender o desespero de Anita. A negativa de Danilo a deixa irritada, radicalmente. Anita busca apoio para a idéia da gravidez entre suas amigas deprimidas e suicidas e ganha um belo sermão. Mesmo as loucas acham a idéia de Anita maluquice. Nessa mesma época, calha de seu livro ser lançado na Argentina. Anita é convidada a viajar para lá e falar sobre ele. Apesar do desgosto que sente com o livro, a escritora aproveita a oportunidade para fugir um pouco de tudo e de todos e respirar novos ares.

A sensação de ser uma desconhecida é libertadora. Ao mesmo tempo em que não tem onde se apoiar, não precisa vestir todas as suas máscaras sociais. No começo, está lá como a escritora. A palestra em si e a festa de divulgação não são o centro do livro, mas há eventos importantes para o restante da história. Depois que o editor lê um pedaço do livro de Anita, pedaço esse em que a personagem Magnólia empurra o namorado de um desfiladeiro, um jovem escritor chamado Holden pergunta por que a personagem fez isso. Anita, totalmente desconectada da velha história, responde qualquer coisa, mas cria aí um vínculo. Depois disso, despe-se por completo e nem a máscara de escritora sustenta mais.

“A biblioteca que tínhamos em casa não era dele. Eram livros deixados pela minha mãe, que era professora de história. (…) Ainda pequeninha, com dez ou doze anos de idade, eu abria um livro atrás do outro somente para investigar aquelas inscrições que talvez me ajudassem a conhecer um pouco mais da mulher que tinha me carregado na barriga e perdido a própria vida para que eu existisse. (…) Minha mãe foi meu primeiro personagemâ€.

Buenos Aires vai, Buenos Aires vem, lá pela página 60 Anita começa a sair com Holden. O leitor não sabe quase nada sobre ele no começo, as informações vêm em gotas. Mistérios à parte, ele é o melhor personagem do livro. O que fica bem claro é que Anita vai tentar usar o jovem para cumprir seu objetivo de engravidar. O que ela não podia imaginar é que ele tivesse amigos bem estranhos, loucos para que ela se mande.

Vou adiantar aqui uma parte que não tem a função de ser uma virada de trama, mas como não quero dar uma de estraga prazeres fica o aviso: se você quer ler o livro com todas as surpresas pule esse parágrafo. Combinado? Combinado. Os amigos de Holden não só parecem estranhos como o são de fato. Todos são autores, com livros escritos e publicados, que decidiram viver as histórias que colocaram no papel e seguir os mesmos caminhos de seus personagens. Representam todo o tempo ritos literários que incluem mais perdas do que ganhos e mexem diretamente com a vida e a morte.

O livro tem um quê de metalinguagem óbvio, já que Anita e Galera passaram um tempo na Argentina, os personagens são escritores com eco nas próprias histórias, há referências esparsas ao mundo da literatura e outros leros mais. Entretanto, o que mais me chamou atenção nessa brincadeira foi o limite entre o real e o imaginário, a pompa do grupo de Holden ao levar a sério aquilo que para Anita soa ridículo.

A relação de Anita com o grupo não segue de maneira intensa, mas é suficiente para conduzir o livro até o final e deixar o leitor curioso diante da psicose coletiva que se desenvolve no terço final da trama.

“Me deu um nó na garganta. Imaginei Duisa na varanda da casinha de madeira instalada numa estância solitária da baía Aguirre, calada dias a fio, num frio nadado, cercada de ovelhas, longe do grande centro urbano onde cresceu, olhando a cordilheira enquanto é observada em segredo pelo marido que décadas depois (…) teria pouco mais que isso a dizer sobre elaâ€.

Vale repetir, Daniel Galera sabe aonde ir com sua escrita, sabe compor as frases e situações de modo que pareçam vívidas e reais. O problema de Cordilheira (ou meu, quem sabe) é a falta de empatia de Anita. Anita é vazia, simboliza um tipo de pessoa da qual prefiro me distanciar e aqui tive que acompanhá-la de perto por 60 páginas tediosas até que outros personagens tornassem sua vida fútil mais interessante. Ela é um paradoxo: consegue ser quase órfã e mimada ao mesmo tempo. Sou escritora. Não sou mais. Agora quero ser mãe de família. Você me trata bem, mas não quer me dar um filho? Então tchau. Que se dane o seu trabalho.

“Se você quer conhecer uma nação, não leia literatura. Nem uma página. Escritores de ficção têm pouco ou nada a dizer sobre seu país. Toda arte é egoísta, mas a literatura é a mais egoísta de todas. Não há como escrever honestamente sobre qualquer coisa que não seja nós mesmosâ€.

O filho de Anita também é metafórico para a personagem. Ela não quer uma criança, quer algo que a preencha por dentro. A obsessão pelo esperma que a complete é só mais uma entre muitas de alguém que perdeu o rumo na vida. É uma mulher que nem com tudo que passará durante a história conseguirá mudar o jeito de pensar e suprir o vazio. A metamorfose, a salvação apregoada de maneira torta pelo grupo de Holden, passará longe de Anita. E com isso, também fui me distanciando da personagem, mesmo tendo aproveitado os tais dois terços finais da história.

Lembra, guardadas as devidas proporções, a sensação que a Camila de Nome Próprio me despertou. Uma vontade de vê-la se ferrar no final, só para compensar o drama.

Daniel Galera
Cordilheira
Companhia das Letras
175 páginas

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

Cordilheira, de Daniel Galera



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