Antes de qualquer coisa, Gomorra é muito bom. Tem uma força que talvez eu não saiba explicar nas próximas linhas, mas prometo que tentarei. Se eu não conseguir, vá ao cinema mesmo assim.
É provável que você já saiba: Gomorra foi inspirado no livro de mesmo nome escrito pelo jornalista Roberto Saviano. Não chega a ser uma adaptação. Ele não é uma obra evangélica ou religiosa. O título é uma brincadeira perigosa com Camorra, nome de um dos grupos mafiosos italianos mais fortes e influentes da atualidade. Camorra, aliás, é nome que se lê em livro e jornal. Por lá, é Il Sistema (Camorra). Como o livro fez um sucesso estrondoso, Saviano está jurado de morte e só anda com escolta policial. Ainda não li o livro, mas está na lista para 2009. A equipe do filme, parece, passou ilesa aos olhares da Camorra, que o considerou só mais um entre tantos filmes de máfia depois de acompanhar de perto parte das filmagens. Problema mesmo teve com a polícia. Uma das cenas de assassinato foi parar no youtube. De tão real a polícia acreditou e chamou o diretor para se explicar. Essas informações de bastidores dizem muito sobre o filme, que trata de poder e influência no submundo e aposta na força de suas imagens.
O cartaz picareta diz que Gomorra é o Cidade de Deus italiano. Não é. Enquanto o filme de Fernando Meirelles é um flerte assumido com a estética hollywoodiana, o filme de Matteo Garrone não tem nenhuma pretensão de ser O Poderoso Chefão das novas gerações e trabalha os elementos de linguagem para destacar a crueza do tema abordado. Trilha sonora? Às vezes, sempre disfarçada nos radinhos. Glamour? Nem pensar.
Comparar qualquer filme italiano com neo-realismo é sempre tentador, só que isso também seria picaretagem da minha parte. Olhando o currículo dos atores, vi que esse é o primeiro filme da maioria. Fora um rosto ou outro mais conhecido (como Gianfelice Imparato), a impressão que se tem é de que há não atores trabalhando com atores nos papéis principais e inúmeros não atores nos papéis secundários. O release oficial em italiano diz que há atores de teatro sem experiência no cinema, o que explica minha impressão. Uma idéia inteligente, já que dá frescor à imagem sem dispensar a base técnica.
Gomorra se divide em cinco narrativas que não se juntam no final. O filme estratifica as etapas e áreas de atuação da máfia e cabe ao espectador somar as informações que julgar relevantes e montar na própria cabeça a história. Matteo Garrone e a equipe de roteiristas preferiram fugir de um formato auto-explicativo. Essa opção narrativa leva a uma situação interessante que contribui para a atmosfera realista. Como o espectador não tem uma historinha para acompanhar (sabe aquele filme em que você se desliga e quando percebe já acabou?), ele é obrigado a dialogar com as cenas de forma mais individualizada, o que reforça o impacto.
As histórias:
a. Ciro e Marco têm uma visão hollywoodiana da máfia. Acham que tudo é uma grande brincadeira. Arma é poder. Resolvem ser mafiosos, roubam armas da Camorra, roubam traficantes de drogas. Acham que estão instituindo um novo centro de poder no território, mas estão mesmo é irritando o sistema e terão que lidar com as conseqüências. É a parte do filme que gera as cenas mais impactantes. “Não consigo ficar muito tempo sem atirar”, diz um deles.
Destaque para a cena dos dois de cueca testando as armas. Som e fotografia perfeitos.
b. Pasquale trabalha criando vestidos de alta costura. Mas nada de conversar com divas e grandes atrizes. Sua história é contada na fábrica onde a mão de obra é explorada para entregar as encomendas a tempo. Sua vida passa por uma mudança e tanto quando a máfia chinesa resolve entrar no ramo para competir com os italianos. Pasquale recebe uma oferta generosa para ensinar os “operários chineses” a fazer vestidos de alta costura. É claro que isso criará problemas.
c. Toto é um garoto de uns treze anos que trabalha entregando compras. Na sua ânsia de virar adulto, se espelha no que vê em volta: a máfia. Por escolha própria, se candidata a uma vaga na Camorra. Mas a Camorra está sofrendo com divisões internas. O poder é fragmentado, há algo de queda do Império Romano no ar. Isso faz com que os amigos de infância de repente passem a ser inimigos e Toto tenha que lidar com alguns dilemas morais. Destaque para o ritual de iniciação da Camorra.
d. Don Ciro tem um trabalho especial. Ele distribui o dinheiro para as famílias afiliadas ao seu clã. Sua missão é ser discreto, entrar mudo e sair calado. Infelizmente, ser discreto não ajuda em nada quanto começam as guerras internas. Um homem com dinheiro com uma lista de famílias beneficiadas é um alvo potencial. Acima de tudo, é um inimigo, pegue em armas ou não. Ajuda a reforçar a idéia de que o amigo de um dia é o inimigo de outro. Serve também para mostrar que a máfia alcança as esferas mais pobres da sociedade disfarçando a exploração com uma aura assistencialista.
e. Roberto é escolhido por Franco para ser seu ajudante. Seu trabalho é simples: encontrar bons terrenos para esconder lixo tóxico. Ele e Franco alugam os terrenos das famílias, procuram pedreiras abandonadas e transportam e enterram o lixo de grandes indústrias como se fosse lixo comum. É um trabalho simples e seguro para eles, não para os que trabalham com os tonéis. O problema aqui é a consciência de Roberto que não concorda com a praticidade de Franco. Essa parte é quase didática.
O filme é extremamente violento. Usa tanto a violência física quanto a psicológica. Apesar da descrição separada que fiz acima, Gomorra mistura todas as narrativas de forma fragmentada (a palavra-chave por aqui), indo e vindo de uma para outra para que o espectador entenda que a Camorra está em todos os lugares e tem diferentes maneiras de agir.
Para quem não compreende a mensagem visual, no final são dadas algumas informações textuais, como o número de mortes por ano, o índice de câncer próximo aos aterros clandestinos e o volume de dinheiro movimentado por dia.
Não é um soco no estômago, não foi feito para isso. Mas merece ser um dos filmes mais comentados do ano.
A força de Gomorra está no mundo real e é isso que impressiona.
“Pirandello dizia que a realidade pode se dar ao luxo de não ser verossímil, a arte não. É difícil que uma realidade tão inverossímil quanto a da Camorra pareça real. É preciso transfigurá-la” – Matteo Garrone, tradução livre.