Gentlemen of the Road foi editado primeiramente em um suplemento do New York Times, algo nos moldes do que faz o jornal Rascunho aqui no Brasil. Um pouco depois, ele ganhou versão em livro com um capítulo bônus onde Michael Chabon explica por que um escritor de literatura dita séria, vencedor do prêmio Pulitzer, resolveu escrever literatura de gênero.
Preconceito entre mainstream e literatura fantástica de lado, vale dizer que Chabon é autor de livros tão importantes quanto diferentes. Escreveu Garotos Incríveis, um leve romance mainstream adaptado para o cinema, e Yiddish Policemen’s Union, uma história alternativa vencedora do Hugo e do Nebula Awards, se destacando dos dois lados da fronteira imaginária.
“’I don’t save lives’, Zelikman said. ‘I just prolong their futility’”.
Gentlemen of the Road me pareceu uma mistura de As viagens de Gulliver e Mil e uma noites. Conta a história de Amram, um ex-soldado africano que é ágil com o machado e descrito como um gigante, e de Zelikman, um médico magro de cabelos brancos e com ares de espantalho, apaixonado por chapéus e muito bom de espada. Os dois são amigos e seguem pelo Cáucaso por volta de 950 d.C., trabalhando como ladrões e mercenários de aluguel para sobreviver. Em uma das missões, eles acham Filaq, um adolescente que é o próximo na linha de sucessão do trono do império Khazar. Para ganhar uma recompensa, eles levam Filaq de volta ao seu castelo, encontrando uma situação mais complexa do que previam. Um general chamado Buljan assumiu o posto à força e colocou assassinos na trilha de Filaq, deixando o médico judeu e o guerreiro africano com um dilema moral: largar o garoto e ir embora para evitar problemas ou ajudar Filaq e de quebra restabelecer o equilíbrio do império Khazar? É claro que só há uma resposta possível para os dois anti-heróis.
“Zelikman was obliged to acknowledge that Filaq had a true gift for commanding soldiers, because Zelikman knew what the stripling had intuited, namely that Amram was vulnerable to a well-timed display of taunting”
O livro é uma aventura adolescente com espírito de road story. O autor acrescenta um personagem ou situação por capítulo, segue a mesma estrutura de apresentação de trama em cada um deles e repete fórmulas para mudar os rumos da história. Talvez seja um reflexo negativo do formato de publicação em jornal. Outro fator que atrapalha a fluidez é a forma de descrever as cenas, cheias de exemplos e figuras de linguagem, uma atrás da outra, em um suposto fluxo de pensamento que só consegue deixar as cenas confusas.
Apesar de ser uma leitura rápida e a dupla de protagonistas ser cativante e bem trabalhada, não é um dos pontos altos da carreira de Michael Chabon.
Em tempo: O texto acompanha ilustrações de Gary Gianni.