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O ambiente acadêmico é extremamente engraçado para quem sabe olhar. Para os alunos que querem passar pela universidade o mais rápido possível e ficam desesperados ao esbarrar com cálculos e físicas, talvez não tenha tanta graça assim. Mas para os que convivem mais de perto com professores, participam de projetos de iniciação científica, vivenciam o atraso das bolsas, as eternas disputas de egos, o brilho extra dos dentes de quem termina um mestrado, a universidade é quase um palco de comédia em pé.

Curiosamente, guarda muitas similaridades com o mundinho literário.

O professor de botânicaComo Samir Machado de Machado adotou uma abordagem mais intimista para sua novela, por vezes melancólica, deixando a graça para as sutilezas e para o reconhecimento das situações que variará de leitor para leitor, não posso dizer que O professor de botânica seja um livro de humor. Ainda assim, por ter vivido nesse ambiente com intensidade no riso, arrisco dizer que além das ironias e cutucadas no ranço acadêmico, Samir adota aqui e ali um quê de humor negro inesperado muito bem-vindo.

E agora do começo.

A noveleta conta a história de um professor de botânica de valores antigos, desses que poucos simpatizam e que fazem questão de que seja assim. Seu gosto em exibir a excelente memória para coisas relevantes apenas para ele é provavelmente o maior sinal de seu pensamento ultrapassado. Se ontem decorar era uma questão de sobrevivência e parabenizávamos até quem sabia data de aniversário de cabeça, hoje em dia agendas eletrônicas e o Google pedem do ser humano outras qualidades. Eduardo Rotgeller, o professor, tem um cabedal de manias. É fanático pelo botânico viajante Saint-Hilaire, que passou pelo Brasil e descobriu algumas espécies, enviando bastante material coletado para o exterior. Mora sozinho cercado de livros antigos e empoeirados. Tem de Saint-Hilaire um exemplar em francês para mostrar aos amigos e um em português para ler. Detestar que errem a pronúncia do seu nome e já chegou a devolver o trabalho de um aluno pelo erro na capa.

“Aquele ali é um tipo difícil, cheio de manias, insuportável e rabugento. (…) Ele tem uma opinião formada sobre tudo, até sobre o que não conhece, e é daquele tipo de pessoa que acha que sua falta de conhecimento sobre algo elimina o conhecimento que outros possam ter sobre aquilo”.

Rotgeller, claro, é um homem solitário. Viúvo, divide o tempo entre as aulas e sua estufa de orquídeas. Suas companhias, e coloquem aí algumas aspas, são a empregada que nunca vê e o estagiário Guilherme. A empregada anterior se demitiu quando a patroa morreu, satisfeita por não ter mais que aturar Rotgeller. Os estagiários anteriores parecem não ter durado muito tempo. Guilherme é uma exceção à regra e por um motivo não muito nobre. Ele não gosta de botânica, só insiste para não ter que dizer aos pais que largará outra faculdade. E tem também a bolsa, uma fonte de renda garantida.

Quer dizer, nem tanto.
Dinheiro é um assunto delicado em pesquisa. É grande a disputa pelo orçamento apertado. Rotgeller conquistou o direito de ter um estagiário graças ao bom currículo e aos artigos publicados. De repente, precisa entender que não é o único no mundo. O reitor dá uma explicação rápida. Corte de verba. Outro professor, com projeto de pesquisa parecido, vai dividir a grana com Rotgeller. Como o outro já tem estagiária (e é parente do pró-reitor), o velho botânico precisará abdicar de seu pupilo e agüentar a situação.

“Rogério Mourão era a mente mais tacanha de toda a faculdade. (…) Podia imaginá-lo sendo a criança mais inteligente do seu meio, o que, considerando o meio, não deveria ser difícil. E, então, em algum momento de sua vida, foi convencido de que era de fato inteligente, quando, na verdade, devia ter uma inteligência normal, os outros à sua volta é que eram ignorantes mesmo”.

Ver seu mundinho de regras próprias sacudir não faz nada bem a Rotgeller. Ele passa a ter o desejo de deixar sua marca para a posteridade através de uma glória que seja sua, mas possa ser reconhecida pelos demais que tanto despreza. É a história de se sentir tão superior e não se livrar da necessidade de provar a superioridade. O modo que escolhe para isso é encontrar uma nova espécie. Assim como seu ídolo desconhecido Saint-Hilaire, Rotgeller quer batizar uma planta com seu nome.

Infelizmente, sua grande chance, última tacada, se dará em uma viagem na companhia de Mourão, o professor com quem teve que dividir a bolsa de pesquisa; Guilherme, um total apático aos seus olhos, e a estagiária de Mourão, que de tão importante ninguém sabe o nome. Dá para imaginar os resultados, não?

“Prepararam-se para entrar na mata e dar continuidade ao projeto de pesquisa, agora intitulado temporariamente ‘Inventário e Levantamento Florístico da Flora na Mata Perenifólia da Floresta Ombrófila Densa’. Rotgeller considerava proeza digna de nota terem colocado três redundâncias no mesmo título (…)”.

Enquanto lia a novela de uma só tacada, fiquei remoendo a seguinte frase: O professor de botânica é um livro sobre o tempo e a amargura de não realizar nossos sonhos. Achei a frase uma porcaria, descartei e escrevi o texto aí em cima.

Acho que ficaram claras as “brincadeiras” de Samir Machado de Machado com as intrigas acadêmicas, o que considero o forte do livro. É possível espelhar as situações em várias outras. São brincadeiras quando olhadas de trás para frente, porque na hora em que você se depara com alguém como Rotgeller, um amargo de carne e osso, a produção de ácido clorídrico é considerável. Não precisa disfarçar, você certamente conhece alguém do tipo.

Vale comentar também a escrita segura. Alguns possessivos poderiam desaparecer na revisão, mas de modo geral é um texto redondo que dosa bem a ficção e o que foi fruto de pesquisa. O personagem professor de botânica é factível, o trabalho de campo também. É fácil visualizar o que é narrado como “realidade”. A jogada com a capa (que não tem título nem nome do autor) é inteligente e contribui para as bases invisíveis da diegese. A interrogação fica por conta do momento thriller lá para o final do livro. Não sei se foi um homem armado no estilo Raymond Chandler ou se foi planejado no contexto da história. De qualquer modo, mesmo destoando do clima introspectivo, teve sua graça na saga de Eduardo Rot-geller, ou seja lá como se escreve esse nome. Uma ótima estréia.

Em tempo: belas ilustrações botânicas.

O professor de botânica
Samir Machado de Machado
Não editora
128 páginas